O Voto de Nazireu – A Consagração

 

Sumário

1- Vinho, Bebida Forte e as Uvas

2- Jesus, o Perfeito Nazireu

3- Como se Pode Ter Hoje o Caráter de Nazireu?

4- Não Cortar os Cabelos

5- Não tocar no que está impregnado com a Morte

6- Sansão

7- Os Primeiros Dias São Anulados

8- A Lei do Nazireu e o seu Ensino Prático

9- Considerações Importantes

10- O Nazireado – Aspectos Gerais

10.1- Votos Especiais

11- Sansão – O Nazireado e os Filisteus

12- Considerações Finais – Nazireado

“E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando um homem ou mulher se tiver separado, fazendo voto de nazireu, para se separar para o SENHOR, de vinho e de bebida forte se apartará;

vinagre de vinho ou vinagre de bebida forte não beberá; nem beberá alguma beberagem de uvas; nem uvas frescas nem secas comerá. Todos os dias do seu nazireado, não comerá coisa alguma que se faz da vinha, desde os caroços até às cascas.

Todos os dias do voto do seu nazireado sobre a sua cabeça não passará navalha; até que se cumpram os dias, que se separou para o SENHOR, santo será, deixando crescer as guedelhas do cabelo da sua cabeça.

Todos os dias que se separar para o SENHOR, não se chegará a corpo de um morto. Por seu pai, ou por sua mãe, por seu irmão, ou por sua irmã, por eles se não contaminará, quando forem mortos; porquanto o nazireado do seu Deus está sobre a sua cabeça. Todos os dias do seu nazireado, santo será ao SENHOR” (Nm 6:1 -8).

A ordenação do nazireado está cheia de interesse e instrução prática. Vemos nela o caso de um que se põe de parte, de uma forma muito especial, de coisas que, embora não sejam absolutamente pecaminosas em si, são, todavia, prejudiciais à inteira consagração de coração que se manifesta no nazireado.

Vinho, Bebida Forte e as Uvas

Em primeiro lugar, o Nazireu não devia beber vinho. O fruto da videira, sob qualquer forma que fosse, estava-lhe proibido. Ora o vinho, como sabemos, é o símbolo natural de alegria terrestre — expressão daquele gozo social a que o coração humano é inteiramente capaz de se entregar.

O nazireu devia abster-se cuidadosamente no deserto. Para ele era uma ordenação. Não devia excitar sua natureza com o uso de bebida forte. Durante todos os dias da sua separação era chamado a observar a mais rigorosa abstinência do vinho.

Jesus, o Perfeito Nazireu

Neste mundo não houve senão um verdadeiro e perfeito nazireu —mas um que manteve, desde o princípio ao fim, a mais completa separação de todo o gozo meramente terrestre.

Desde o momento em que entrou no Seu ministério público, Ele manteve-se a parte de tudo que era deste mundo. O Seu coração estava posto em Deus e na Sua obra com uma dedicação que nada podia alterar.

Jamais permitiu, nem por um instante, que as pretensões da terra ou da natureza sem interpusessem entre o Seu coração essa obra que Ele tinha vindo fazer. “Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?-” “Mulher, que tenho eu contigo?”

Com tais palavras o verdadeiro nazireu buscava ajustar as exigências da natureza. Tinha uma obra a fazer, e para isso separava-Se perfeitamente. Os Seus olhos estavam postos num alvo e o Seu coração não estava dividido. Isto é evidente desde o princípio ao fim da Sua vida na terra.

Podia dizer aos Seus discípulos: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”, e quando eles, não compreendendo o profundo significado das Suas palavras, disseram: “Trouxe-lhe porventura alguém de comerá”, Ele respondeu: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra” (Jo 4:32-34).

Assim, também, no fim da Sua carreira na terra, ouvimo-Lo pronunciar palavras tais como estas, tomando o cálice da páscoa: “Tomai-o e reparti-o entre vós, porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus” (Lc 22:17-18).

Vemos assim como o perfeito nazireu se conduziu em tudo. Não podia ter gozo na terra, nenhum gozo na nação de Israel. Não era tempo ainda para isso, e portanto Ele desprendia-Se de tudo que o mero afeto humano podia achar nas relações com os seus, de forma a dedicar-Se ao único e grande objeto que sempre esteve perante a Sua mente.

O dia virá em que, como Messias, Ele Se regozijará com o Seu povo na terra; mas antes que chegue esse momento ditoso, Ele está à parte como o verdadeiro nazireu, e o Seu povo está unido com Ele. “Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste a mim, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:16-19).

Leitor cristão, poderemos seriamente este grande aspecto do caráter do nazireu. E importante examinarmo-nos fielmente à luz que dele irradia. E uma questão muito séria, decerto, saber até que ponto nós, como cristãos, compreendemos realmente o significado e poder desta extrema separação de toda a excitação da natureza e da alegria puramente terrena.

Pode dizer-se, talvez: “Que mal há em se ter um pouco de divertimento ou recreio? Com certeza que não somos chamados para sermos monges. Não nos tem dado Deus todas as coisas liberalmente para as desfrutarmos? E enquanto estamos no mundo, não é justo divertirmo-nos nele?

A toda esta argumentação respondemos dizendo que não é uma questão do mal que há nisto, naquilo ou naquele outro. Não havia mal, em regra geral, no vinho nem nada de mal na videira. Mas o ponto é este, se alguém aspirava ser nazireu, se ambicionava essa santa separação para o Senhor, tinha de abster-se completamente do uso do vinho e de bebidas fortes. Outros podiam beber vinho, mas o Nazireu não podia tocar nele.

Como se Pode Ter Hoje o Caráter de Nazireu?

Ora, a questão para nós é esta, desejamos ser nazireus? Anelamos separação completa e a consagração de nós mesmos, de corpo, alma e espírito a Deus? Se é assim, temos de estar separados de todas estas coisas em que a natureza acha a sua satisfação. É sobre esta verdade que gira toda a questão.

Mas, “queremos ser nazireus? É desejo de nosso coração sermos separados com o Senhor da alegria puramente terrena — sermos separados para Deus daquelas coisas que, apesar de não serem absolutamente pecaminosas em si mesmas, tendem, contudo, a dificultar essa inteira consagração de alma que é o verdadeiro segredo de todo o nazireado espiritual?

Ignora o leitor cristão que existem, com efeito, tais coisas? Não sente que há inúmeras coisas cuja influência distrai e enfraquece o seu espírito, e que, se fossem julgadas pelo padrão normal de moralidade, podiam passar por inocentes?

Porém, devemos recordar que os nazireus de Deus não medem as coisas por tal regra. A sua moral não é de modo algum vulgar. Eles veem as coisas do ponto de vista divino e celestial, e por isso não podem deixar passar coisa alguma que possa interferir, de qualquer modo, com esse tom elevado de consagração a Deus que as suas almas fervorosamente anseiam.

Que Deus nos dê graça para ponderarmos estas coisas e vigiarmos contra toda a influência corruptora. Cada qual deve saber, no seu caso, o que se ao poderia equiparar ao vinho e bebida forte. Pode parecer uma insignificância; mas podemos estar certos que nada do que interrompe o curso da comunhão das nossas almas com Deus e nos priva desta santa intimidade que é nosso privilégio desfrutar, é insignificante.

Não Cortar os Cabelos

Mas havia outra coisa que caracteriza o nazireu. Não devia tosquiar a sua cabeça. “Todos os dias do voto do seu nazireado sobre a sua cabeça não passará navalha; até que se cumpram os dias que se separou para o SENHOR, santo será, deixando crescer as guedelhas do cabelo da sua cabeça” (versículo 5).

Em I Coríntios 11:14 aprendemos que uma cabeleira crescida é considerada como falta de dignidade no homem. “Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o varão ter cabelo crescido?” Isto demonstra-nos que, se queremos realmente viver uma vida de separação para Deus, temos de estar dispostos a abandonar e renunciar à nossa dignidade na natureza.

Foi isto que o Senhor Jesus Cristo fez de um modo perfeito. Humilhou-Se a Si mesmo. Renunciou aos Seus direitos em tudo. Podia dizer: “Mas eu sou verme e não homem” (S1 22:6). Despojou- Se inteiramente de tudo e tomou o lugar mais humilde. Esqueceu- Se de Si enquanto cuidava dos outros. Em suma, o Seu nazireado foi perfeito nisto como em tudo mais.

Ora, isto é precisamente o que nós gostamos muito pouco de fazer. Defendemos naturalmente a nossa dignidade e procuramos manter os nossos direitos. E simplesmente de supor que o homem o faça com brio. Mas o Homem Perfeito nunca o fez; e se nós desejarmos ser nazireus também o não faremos.

Devemos abandonar as dignidades da natureza e renunciar aos gozos da terra, se quisermos trilhar o caminho de inteira separação para Deus neste mundo. Ambas as coisas estarão em breve no seu próprio lugar, mas enquanto não chega esse dia temos de as renunciar.

Aqui note-se mais uma vez a questão não é de saber se o caso em pleito é justo ou não. Como regra geral, era próprio o homem cortar o cabelo; mas não era conveniente para um nazireu, antes pelo contrário, era um ato completamente mau fazê-lo. A diferença estava nisto.

Era perfeitamente justo um homem cortar o cabelo e beber vinho, mas o nazireu não era um homem vulgar; estava separado de tudo que era normal para seguir um caminho próprio, e tê-lo-ia abandonado por completo se tivesse usado a navalha ou provado vinho.

Por isso, se alguém pergunta: Não é justo desfrutar os prazeres da terra e manter a dignidade da natureza? Nós respondemos: E perfeitamente justo, se nos propomos andar como homens; mas é inteiramente mau, ou é absolutamente funesto, se desejamos andar como nazireus.

Isto simplifica admiravelmente o assunto; responde a múltiplas interrogações e resolve inúmeras dificuldades. E inútil alguém prender-se com pormenores sobre o mal que pode haver neste ou naquele caso especial. A questão é esta: Qual é o nosso verdadeiro Propósito e qual o nosso objetivo?

Queremos comportar-nos apenas como homens ou desejamos ardentemente viver como verdadeiros nazireus? Segundo a linguagem de I Coríntios 3:3 as expressões carnais e “andar segundo os homens” são sinônimas.

Somos orientados por esta linguagem? – Compreendemos o espírito e respiramos a atmosfera desta Escritura. Ou somos dirigidos pelo espírito e os princípios deste mundo sem Deus e sem Cristo?

E inútil empregarmos o tempo discutindo pontos que nunca seriam levantados se as nossas almas estivessem na sua disposição natural e mantivessem uma atitude espiritual. Sem dúvida, é perfeitamente legítimo, perfeitamente natural e consequente para os homens deste mundo gozarem tudo que o mundo tem para lhes oferecer e manterem enquanto podem os seus direitos e a sua dignidade. Seria pueril discutir isto.

Mas, por outro lado, o que é legítimo, natural e consequente para os homens deste mundo é mau, anormal e inconsequente para os nazireus de Deus. A questão está neste pé, se formos governados pela simples verdade de Deus.

Sabemos pelo capítulo sexto de Números que se uma nazireu bebida vinho ou tosquiava o seu cabelo contaminava a cabeça da sua consagração. Isto não nos diz nada, nem tem uma lição para nós? É evidente que tem. Ensina-nos que, se as nossas almas desejam prosseguir no caminho de inteira consagração a Deus, devemos abster-nos dos gozos da terra e renunciar à dignidade e aos direitos da natureza.

Tem de ser assim, visto que Deus e o mundo, a carne e o espírito, não podem ligar-se. Tempo virá em que será diferente; mas, no tempo presente, todos os que quiserem viver para Deus e andar no Espírito, têm de viver separados do mundo e mortificar a carne. Que Deus, em Sua grande misericórdia, nos ajude a fazer assim!

Não tocar no que está impregnado com a Morte

Resta-nos considerar uma outra característica do Nazireu. Não devia tocar um corpo morto. “Todos os dias que se separar para o SENHOR não se chegará a corpo de um morto. Por seu pai, ou por sua mãe, por seu irmão, ou por sua irmã, por eles não se contaminará, quando forem mortos, porquanto o nazireado do seu Deus está sobre a sua cabeça” (versículos 6-7).

Vemos assim que, quer fosse beber vinho quer tosquiar o seu cabelo, ou tocar um corpo morto, o efeito era o mesmo; qualquer das três coisas implicava a contaminação da cabeça da consagração do nazireu.

Portanto, é evidente que era tão contagioso para o nazireu beber vinho ou tosquiar a cabeça como tocar um corpo. E conveniente compreendermos isto. Estamos sempre a fazer distinções que não resistem um instante à luz da presença divina.

Uma vez que o nazireado do seu Deus estava sobre a cabeça da qualquer pessoa, esse importante fato tornava-se a regra e pedra de toque de toda a moralidade. O indivíduo era, desse modo, colocado sobre um terreno inteiramente novo e especial e impunha-lhe o dever de ver todas as coisas de um ponto de vista novo e também especial.

Já não devia perguntar o que lhe interessava como homem, mas sim o que lhe interessava como nazireu. Por isso, se o seu mais querido amigo jazia morto a seu lado, ele não devia tocar-lhe. Havia sido chamado para se manter à parte da influência contagiosa da morte, e tudo porque o “nazireado do seu Deus estava sobre a sua cabeça”.

Ora, em todo este assunto do nazireado, é necessário que o leitor compreenda claramente que não se trata, de modo nenhum, da questão da salvação da alma, da vida eterna ou da segurança perfeita do crente em Cristo. Se isto não for claramente compreendido o espírito pode ver-se envolvido em trevas e perplexidade.

Existem dois grandes vínculos no Cristianismo, que, ainda que intimamente unidos, são inteiramente distintos, a saber, o vínculo da vida eterna, e o elo de comunhão pessoal.

  1. O primeiro nunca poderá ser quebrado por coisa alguma; o último pode ser interrompido num momento pelo peso de uma pena.
  2. E ao segundo destes laços que pertence a doutrina do nazireado.

Vemos na pessoa do nazireu um símbolo de alguém que entra numa situação especial de dedicação e consagração a Cristo. O poder de prosseguir neste caminho consiste numa secreta comunhão com Deus; de forma que se a comunhão é interrompida o poder desaparece e torna o assunto peculiarmente solene. Existe a possibilidade do grande perigo de se tentar seguir o caminho constitui a fonte do seu poder. Isto é desastroso e exige o maior cuidado.

Temos examinado rapidamente as diversas coisas que contribuem para interromper a comunhão do nazireu; mas seria completamente impossível descrever o efeito moral de qualquer tentativa para guardar a aparência de nazireado quando a realidade íntima pareceu.

E em extremo perigoso. E infinitamente melhor confessarmos a nossa falta, tomarmos o nosso verdadeiro lugar, do que mantermos uma falsa aparência. Deus quer a realidade, e nós podemos ficar certos de que, mais cedo ou mais tarde, a nossa fraqueza e a nossa loucura, serão manifestadas a todos.

É lamentável e humilhante quando “Os nazireus mais alvos do que a neve” se tornam mais pretos “do que o negrume” (Ml 4:6-8); mas é muito pior quando aqueles que se tornaram assim negros tomam a pretensão de estar brancos.

Sansão

Consideremos o caso solene de Sansão, que se nos apresenta no capítulo dezesseis de Juízes. Numa hora má, ele traiu o seu segredo e perdeu o seu poder— perdeu-o embora o não soubesse. Mas o inimigo depressa o soube.

Cedo foi manifesto a todos que o nazireu tinha contaminado a cabeça do seu nazireado. “E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras e molestando-o, a sua alma se angustiou até à morte. E descobriu-lhe todo o seu coração, e disse-lhe: Nunca subiu navalha à minha cabeça, porque sou nazireu de Deus, desde o ventre de minha mãe; se viesse a ser rapada ir-se-ia de mim a minha força e me enfraqueceria e seria como todos os mais homens” (Jz 16:16-17).

Ah! Aqui estava a denúncia do profundo e sagrado segredo de todo o seu poder! Até aqui o seu caminho havia sido uma vida de força e vitória, simplesmente porque havia sido uma vida de santo nazireado. Mas o regaço de Dalila era muito para o coração de Sansão, o que mil filisteus não puderam fazer foi feito pela influência ardilosa de uma simples mulher. Sansão saiu da elevada posição de nazireu ao nível de um homem vulgar.

“Vendo, pois, Dalila que já lhe descobrira todo o seu coração, enviou e chamou os príncipes dos filisteus, dizendo: Subi esta vez, porque, agora, me descobriu ele todo o seu coração. E os príncipes dos filisteus subiram a ela e trouxeram o dinheiro na sua mão. Então, ela o fez dormir sobre os seus joelhos” (—Ah! que sono fatal para um nazireu de Deus! —) “e chamou a um homem, e rapou-lhe as sete tranças do cabelo de sua cabeça; e começou a afligi-lo, e retirou-se dele a sua força. E disse ela: Os filisteus vem sobre ti, Sansão. E despertou do seu sono, e disse: Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei. Porque ele não sabia que já o SENHOR se tinha retirado dele. Então, os filisteus pegaram nele e lhe arrancaram os olhos, e fizeram-no descer a Gaza, e amarraram-no com duas cadeias de bronze, e andava ele moendo no cárcere” (Jz 16:18-21).

Oh!, prezado leitor, que quadro! Quão solene! E que advertência! Que triste espetáculo era Sansão levantando-se para se livrar “como dantes”! Ah, o “como” estava fora do lugar! Podia levantar-se, mas já não era “como dantes”, porque o poder havia desaparecido; o Senhor tinha- Se retirado dele; e o nazireu, ainda há pouco poderoso, tornou-se em prisioneiro cego; e, em vez de triunfar sobre os filisteus, teve de moer no cárcere.

E tudo por ter cedido simplesmente à natureza. Sansão nunca recuperou a sua liberdade. Foi-lhe permitido pela graça de Deus ganhar um vitória sobre os incircuncisos, mas essa vitória custou-lhe a vida.

Os nazireus de Deus têm de manter-se puros ou perder o seu poder. No seu caso, o poder e a pureza são inseparáveis. Não podem avançar sem santidade; e daí a necessidade urgente de estarem sempre vigilantes contra diversas coisas que contribuem para afastar o coração, distrair o espírito e rebaixar o grau de espiritualidade.

Conservemos sempre perante as nossas almas essas palavras do nosso capítulo: “Todos os dias do seu nazireado será santo a SENHOR.” A santidade é a grande e indispensável característica de todos os dias do nazireado; de maneira que uma vez perdida a santidade o nazireado está terminado.

Então, pode perguntar-se, que deve fazer-se? A Escritura que temos diante de nós dá a resposta. “E se alguém vier a morrer junto a ele por acaso, subitamente, e contaminar a cabeça do seu nazireado, então, no dia da sua purificação, rapará a sua cabeça, e, ao sétimo dia, a rapará. E, ao oitavo dia, trará duas rolas ou dois pombinhos, ao sacerdote, a porta da tenda da congregação; e o sacerdote oferecerá um para expiação o pecado e o outro para holocausto; e fará propiciação por esse que pecou no corpo; assim, naquele mesmo dia, santificará a sua cabeça. Então, separará os dias do seu nazireado ao SENHOR e, para expiação da culpa um cordeiro de um ano: e os dias antecedentes serão perdidos, Porquanto o seu nazireado foi contaminado” (versículos 9-12).

Aqui encontramos expiação nos seus dois grandes aspectos como o único fundamento em que o nazireu podia ser restaurado à comunhão. Havia contraído contaminação e essa contaminação só podia ser removida pelo sangue do sacrifício.

Nós podíamos julgar que tocar um corpo morto era um caso insignificante, especialmente em tais circunstâncias. Como poderia ele evitar o contato de um corpo morto se este havia caído a seu lado?

A resposta é ao mesmo tempo simples e solene. Os nazireus de Deus devem manter a pureza pessoal; e, além disso, o padrão mediante o qual a pureza deve ser regulada não é humano mas divino. O simples toque da morte era suficiente para quebrar o elo de comunhão; e se o nazireu tivesse julgado que podia continuar como se nada tivesse acontecido, teria fugido ao cumprimento dos mandamentos de Deus atraindo sobre si um terrível juízo.

Os Primeiros Dias São Anulados

Mas, bendito seja Deus, a graça havia previsto a contingência:

  1. Havia o holocausto, figura da morte de Cristo em relação com Deus.
  2. Havia a expiação do pecado, símbolo dessa morte em relação conosco.
  3. E havia a expiação da culpa, símbolo da morte de Cristo não apenas na sua aplicação à raiz ou princípio de pecado na natureza, mas também ao pecado cometido.

Em suma, era necessária a plena eficácia da morte de Cristo para remover a contaminação causada pelo simples contato com um corpo morto. Isto é especialmente solene.

O pecado é uma coisa terrível à vista de Deus — a mais terrível. Um simples pensamento, um olhar pecaminoso, uma palavra pecaminosa, bastam para trazer sobre a alma uma nuvem escura e carregada, que ocultará à nossa vista a luz do semblante de Deus e nos submergirá em profunda tristeza e miséria.

Guardemo-nos, pois, de tratar o pecado com leviandade. Lembremo-nos de que antes que uma só mancha de pecado — até a mais pequena — pudesse ser removida, o bendito Senhor Jesus Cristo teve de passar pelos horrores indizíveis do Calvário.

O brado intensamente doloroso do Calvário, “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”, é a única coisa que pode dar-nos uma ideia do que é o pecado; e nenhum mortal ou anjo algum poderá jamais penetrar nas profundidades imensas desse brado.

Mas embora não possamos jamais sondar as profundidades misteriosas dos sofrimentos de Cristo, devemo-nos, ao menos, dedicar à meditação na Sua cruz e paixão e procurar conseguir desta forma uma compreensão mais profunda do caráter odioso do pecado à vista de Deus.

Se, na verdade, o pecado é tão horrendo e de tal modo abominável à vista do Deus santo que foi constrangido a desviar a luz do Seu semblante d’Aquele bendito Senhor que havia habitado no Seu seio desde toda eternidade, se teve de O abandonar porque Ele levava o pecado sobre o Seu corpo sobre o madeiro, então que será o pecado?

Prezado leitor, consideremos atentamente estas coisas. Que elas possam ter sempre um lugar profundo em nossos corações, que tão facilmente são arrastados a pecar! Quão superficialmente pensamos, às vezes, que o pecado custou ao Senhor Jesus não somente a vida, mas o que é melhor e mais precioso do que a vida, a luz do semblante de Deus!

Que Deus nos dê uma maior compreensão de aversão ao pecado! Vigiemos cuidadosamente contra o simples movimento dos olhos em má direção, porque podemos estar certos de que o coração seguirá os olhos, e os pés seguirão o coração, e assim nos afastamos do Senhor, perdemos o sentimento da Sua presença e do Seu amor, tornamo-nos infelizes ou, o que é muito pior, mortos, frios, e endurecidos — endurecidos “pelo engano do pecado” (Hb 3:13).

Que Deus, em Sua graça infinita, nos guarde de cairmos! Que nos conceda a graça de vigiarmos com mais zelo contra tudo que possa manchar a cabeça do nosso nazireado!

Perder a comunhão é uma coisa muito grave; e é um caso muito perigoso intentar prosseguir no Serviço do Senhor com uma consciência contamina. Decerto, a graça perdoa e restaura, mas nunca mais recuperamos que temos perdido; isto é o que se ensina com solene ênfase na passagem que temos diante de nós: “Então, separará os dias do seu nazireado ao SENHOR, e para expiação da culpa, trará um cordeiro de uma ano; e os dias antecedente serão perdidos, porquanto o seu areado foi contaminado” (versículo 12).

Este ponto do nosso assunto é cheio de instrução e de advertência para as nossas almas. Quando o nazireu se contaminava, de qualquer modo, até mesmo pelo contato com um corpo morto, tinha de começar de novo. Não eram só os dias da sua contaminação que estavam perdidos, mas sim todos os dias do seu antecedente nazireado. Tudo havia sido em vão, e tudo por haver tocado um corpo morto!

Que nos ensina isto? Ensina-nos, pelo menos, que quando nos desviamos, ainda que seja a espessura de um cabelo, do caminho estreito da comunhão, e nos afastamos do Senhor, temos de regressar ao próprio ponto de onde partimos e começar outra vez.

Temos muitos exemplos disto nas Escrituras; e seria prudente considerá-los e também ponderar a verdade que eles ilustram. Tomemos o caso de Abrão, na sua descida ao Egito, segundo descrição em Génesis 12.

Isto era, evidentemente, afastar-se do seu próprio caminho. E qual foi o resultado? Os dias passados ali foram perdidos ou desperdiçados, e ele teve de voltar ao ponto de onde tinha partido e começar de novo.

Assim, em Génesis 12:8, lemos: “E moveu-se de ali par a montanha à banda do oriente de Betel e armou a sua tenda, tendo Betel ao ocidente e Ai ao oriente; e edificou ali um altar ao SENHOR, e invocou o nome do SENHOR”.

Logo depois da sua volta da terra do Egito, lemos: “E fez as suas jornadas do Sul até Betel, até ao lugar onde, ao princípio, estivera a sua tenda, entre Betel e Ai; até ao lugar que, dantes, ali tinha feito; e Abrão invocou ali o nome do SENHOR” (Gn 13:3-4).

Todo o tempo passado no Egito foi inútil. Não havia ali nenhum altar, nenhuma comunhão nem culto; e Abraão teve de regressar ao mesmíssimo lugar de onde se havia afastado e começar de novo.

Assim é em todos os casos; e só assim se explica o progresso miseravelmente lento que alguns de entre nós fazem na sua carreira prática. Falhamos, desviamo-nos, e afastamo-nos do Senhor e caímos em trevas espirituais; e então a Sua voz de amor chega até nós e nos reconduz ao ponto de onde nós tínhamos desviado; as nossas almas são restauradas, mas nós perdemos tempo e sofremos.

Isto é muito grave e deveria induzir-nos a andar com santa vigilância e circunspeção, a fim de não termos de ser obrigados a retroceder o nosso caminho e perder o que nunca mais podemos recuperar. Decerto, os nossos desvios, e os nossos tropeços e as nossas fraquezas dão-nos um profundo conhecimento dos nossos próprios corações, ensinam-nos a não confiarmos em nós mesmos e ilustram a graça ilimitada e imutável de Deus.

Tudo isto é muito verdade, todavia há um meio muito mais elevado de nos conhecermos a nós próprios e a Deus do que os desvios, as nossas quedas e fraquezas.

O ego, em todas as profundidades terríveis dessa palavra, deve ser julgado à luz santa da presença divina; e ali as nossas almas devem também crescer no conhecimento de Deus, na medida em que Ele é revelado pelo Espírito Santo na face de Jesus Cristo e nas preciosas páginas das Escrituras.

Este é seguramente o meio mais excelente de nos conhecermos a nós próprios e a Deus; e é também o poder de separação de todo o verdadeiro nazireu. A alma que vive habitualmente no santuário de Deus, ou, por outras palavras, que anda em comunhão contínua com Deus, é a que terá um sentimento verdadeiro do que é a natureza em todas as suas fases, embora não tenha aprendido por amarga experiência.

E, além disso, terá um sentimento mais profundo e mais exato do que Deus é em Si Mesmo e para todos os que põem n’Ele a sua confiança. Coisa triste é aprender por experiência própria. Podemos estar certos de que o verdadeiro meio de aprender está na comunhão; e quando assim aprendemos não temos de estar continuamente ocupados com a nossa vileza; pelo contrário, estaremos ocupados com o que está fora e inteiramente acima do ego, isto é, a excelência do conhecimento de Jesus Cristo nosso Senhor.

A Lei do Nazireu e o seu Ensino Prático

Esta maravilhosa “lei” do Nazireado conduz-nos a alguma coisa futura, quando aparecer o pleno resultado da obra perfeita de Cristo; e quando Ele, como o Messias de Israel, provar, no fim da Sua separação de nazireu, o verdadeiro gozo com o Seu povo amado, neste mundo.

Será então o tempo de o nazireu beber vinho. Ele separou-Se de tudo isto, a fim de dar cumprimento a essa grande obra tão completamente exposta em todos os seus aspectos e em todo o seu alcance na “lei” precedente.

Está separado da nação, separado deste mundo, no poder do verdadeiro nazireado, como disse aos Seus discípulos nessa noite memorável,”… desde agora não beberei deste fruto da vide até àquele dia em que o beba, novo, convosco no reino de meu Pai” (Mt 26:29).

Virá, pois, um dia resplandecente em que Javé, o Messias, se regozijará em Jerusalém e no Seu povo. Os profetas, desde Isaías a Malaquias, estão cheios das mais gloriosas e emocionantes alusões a esse ditoso e resplandecente dia.

Desejamos que considere, de um modo especial, o fato de o Espírito Santo nos ter dado a exposição completa da lei do nazireado no livro de Números — o livro do deserto. E não somente isto, mas que considere atentamente a própria instituição.

Que cada um de nós busque de forma íntima compreender a razão por que o nazireu não devia beber vinho; por que não devia cortar as suas tranças; e por que não devia tocar um corpo morto.

Que possamos, de fato, meditar sobre estas três coisas, e procurar recolher a instrução abrangida por elas. Que possamos nos interrogar:

  1. Desejo realmente ser um nazireu?
  2. Desejo realmente andar no caminho estreito de separação para Deus?
  3. E, se é assim, estou pronto a abandonar todas as coisas que tendem a contaminar, a distrair e impedir os nazireus de Deus?

E, por fim, lembre-se de que virá tempo em que “o nazireu pode beber vinho”, ou, por outras palavras, em que não haverá necessidade de vigiar contra as diversas formas do mal íntimo ou exterior.

Tudo será puro; os afetos poderão ter livre curso; as vestes poderão ser envergadas sem cinto ao nosso redor; não haverá mal para termos de nos separar, e portanto não haverá necessidade de separação.

Em suma, haverá “novos céus e nova terra, em que habita a justiça”. Que Deus, em Sua infinita misericórdia, nos guarde até que venha esse bendito tempo em verdadeira consagração de coração para Si.

Considerações Importantes

  1. A palavra nazireu no hebraico é nazir, que significa separado, consagrado. Esta mesma palavra é usada em Gên 49.26, na bênção profética de Jacó dirigida a José, referindo-se a este como aquele que foi distinguido, separado, entre os seus irmãos.

A devoção de José a Deus era de tal caráter e tão notável, que lhe foi aplicada a palavra nazir, como indicação desta sua separação para o Senhor. Deus mesmo o havia separado e ele correspondeu plenamente a esta separação.

Não no sentido de isolamento, mas no sentido de se destacar espiritualmente na comunhão e intimidade com Deus, por meio da consagração de sua vida a Ele.

Sansão (Jz 13.5) e João Batista (Lc 1.15) foram nazireus por designação divina, e outros pelo voto dos seus pais, como Samuel (I Sam 1.11). Outros fizeram votos de serem nazireus por um determinado tempo, e neste caso estavam sujeitos às regras estabelecidas nesta lei, que foram criadas para os casos de consagração voluntária.

Um cristão fiel terá que renunciar a muitas coisas, para manter um testemunho santo, num mundo de trevas. Estas renúncias estavam representadas em figura na lei do nazireado, pelas coisas que eram vedadas por Deus a eles, tais como o fruto da videira, nem qualquer tipo de bebida forte ou de vinho, e não deveria raspar a cabeça durante os dias do seu voto, e ainda lhe era vedado se aproximar de qualquer cadáver.

A proibição de comer qualquer produto da videira, mesmo o fruto in natura, tinha a ver possivelmente com o fato de revelar o nível da consagração a Deus, porque o consumo de uva era muito generalizado e apreciado, e a abstinência seria uma forma de mostrar que o amor a Deus pode superar qualquer outro tipo de desejo e afeto natural.

Deus destaca no capítulo 35 de Jeremias a obediência estrita dos recabitas a seu pai, que não tomavam vinho porque ele lhes havia dado tal ordem, e destaca esta obediência como exemplo da que esperava receber Ele próprio dos israelitas. Todos aqueles que pretenderem se consagrar a Deus deverão aprender juntamente com o apóstolo a trazer o próprio corpo em sujeição (I Cor 9.27).

O cabelo longo dos nazireus era um sinal de sujeição a Deus, tal como no caso das mulheres a seus maridos, conforme o dizer do apóstolo em I Cor 11.5, 14,15.

A proibição de se aproximar de cadáveres simbolizava o esforço para evitar contato com qualquer tipo de pecado, porque a consequência do pecado é a morte. A consagração do nazireu deveria apontar para a vida, a qual é fruto da santidade.

As prescrições para a purificação do nazireu, caso se contaminasse eventualmente com algum morto, apontavam para a restauração da consagração pela via do arrependimento, pela confissão do pecado e confiança no sacrifício que deveria ser apresentado.

Isto apontava em figura, para a restauração da comunhão quebrada pelo pecado, no caso de cristãos na Igreja de Cristo, que devem seguir diariamente a mesma prescrição do arrependimento, confissão e confiança no sacrifício do Senhor, para serem restaurados à comunhão, quando eventualmente a quebrarem por causa do pecado.

O apóstolo Paulo, por sugestão dos apóstolos de Jerusalém, quando acusado pelos judeus, de estar quebrando a lei de Moisés, foi orientado a fazer um voto de nazireado de sete dias (At 21.24-27), para lhes demonstrar que não pregava contra os preceitos da lei de Moisés.

Ao findar o tempo do seu voto, o nazireu deveria apresentar sacrifícios pelo pecado, e como oferta pacífica, no tabernáculo. Ora, isto ensina claramente que a nossa consagração ao Senhor é aceita por causa do sacrifício de Jesus, que possibilita que sejamos aceitos assim como os nossos serviços para Deus, que de outro modo jamais poderiam ser aceitos.

É um grande privilégio poder servir e ser aceito pelo Senhor, e então somos nós que sempre teremos uma grande dívida para com Ele, que jamais poderemos pagar, senão demonstrar toda a nossa gratidão e louvor, com os nossos serviços e consagração.

O Nazireado – Aspectos Gerais

Havia duas categorias de nazireus: os voluntários e os que os eram por designação divina. Os regulamentos que governavam os nazireus voluntários são encontrados no livro de Números, capítulo 6.

Tanto homens como mulheres podiam fazer um voto especial a Jeová, de viver como nazireu por um período de tempo. Todavia, no caso duma moça ou duma mulher, se o pai ou o marido ouvisse o voto e não o aprovasse, ele podia cancelá-lo. — Nm 30:1-8.

Três restrições principais recaíam sobre os que faziam um voto de nazireu:

  1. Não deviam tomar nenhuma bebida inebriante; nem deviam comer algum produto da videira, quer verde, quer maduro ou seco, nem beber seu suco, quer no estado fresco, fermentado ou como vinagre.
  2. Não deviam cortar o cabelo da cabeça.
  3. Não deviam tocar em cadáver, nem mesmo o dum parente chegado: pai, mãe, irmão ou irmã. — Nm 6:1-7.

10.1- Votos Especiais

Quem fazia este voto especial devia “viver como nazireu (isto é, dedicado, separado) para Jeová”, e não para os aplausos de homens devido à ostentação de ascetismo fanático.

Antes, “todos os dias do seu nazireado ele é santo para Jeová”. — Nm 6:2, 8; compare isso com Gn 49:26 .

Portanto, os requisitos impostos aos nazireus tinham significado e sentido especial na adoração de Jeová. Iguais ao sumo sacerdote que, por causa do seu cargo sagrado, não devia tocar em cadáver, nem mesmo de seus parentes mais chegados, tampouco os nazireus o deviam fazer.

Proibia-se ao sumo sacerdote e aos subsacerdotes, por causa da séria responsabilidade dos seus cargos, beber vinho ou bebida inebriante ao realizarem seus deveres sagrados perante Jeová. — Lv 10:8-11; 21:10, 11.

Além disso, o nazireu “deve mostrar-se santo, deixando crescer as madeixas do cabelo de sua cabeça”, o que servia de sinal sublime pelo qual todos podiam prontamente reconhecer seu santo nazireado. (Nm 6:5). Símbolos significativos do Nazireado a partir da rais hebraica deste palavra:

  1. A mesma palavra hebraica, na·zír, era usada com respeito à videira “não podada” durante os sagrados anos sabáticos e de jubileu. (Lv 25:5, 11)
  2. É também de interesse que a placa de ouro na frente do turbante do sumo sacerdote, que tinha inscrito nela as palavras: “A santidade pertence a Jeová”, era chamada de “sinal sagrado de dedicação [hebr.: né·zer, da mesma raiz que na·zír]”. (Êx 39:30, 31).
  3. Do mesmo modo, o ornamento oficial da cabeça, ou diadema, usado pelos reis ungidos de Israel, também era chamado de né·zer. (IISm 1:10; IIRs 11:12; Coroa; Dedicação.)

O apóstolo diz que, na congregação cristã, o cabelo comprido da mulher lhe é dado em lugar de uma mantilha. É para ela um lembrete natural de que ocupa uma posição diferente da do homem; ela deve lembrar-se da sua posição submissa no arranjo de Deus.

Tais requisitos — cabelo não cortado (desnatural para o homem), a abstinência total de vinho, bem como a necessidade de ser limpo e imaculado — incutiam no nazireu dedicado a importância da abnegação e da completa submissão à vontade de Jeová. — I Co 11:2-16.

Sansão – O Nazireado e os Filisteus

Juízes 13.24.

1-Sansão (Hb. Shimshon, “semelhante ao sol” ou “pequeno sol”). Se relaciona ao termo shamash(“servo”), por isso, pode significar também “pequeno servo”.

2-Todavia, o nome Sansão (Shimshon) também se relaciona com a palavra shammah, que significa “destruir”, “desolar”.

3- Este era o ministério para o qual Sansão foi chamado: destruir o filisteus, ou seja, “desfazer (Gr. luo) as obras do inimigo” (1 João 3.8).

4-    Por isso, era necessário que ele fosse nazireu.

5-    Lei do Nazireu – Números 6.1-21.

6-    Nazireu (Hb. Nazir, “consagrado”, “separado”, “príncipe”). Vem da palavra nazar, que significa “abster-se”, pois o nazireu se abstinha de comidas, bebidas e coisas impuras.

7-    Também se relaciona como termo nezer, que significa “coroa” (além de keter). Isso porque o cabelo do nazireu era símbolo de sua consagração a Deus.

8-    Juízes 13.5. Em hebraico, a palavra “navalha” (morah) se relaciona ao termo “rebelião”. Ou seja, quando o Anjo disse que sobre a cabeça de Sansão não deveria passar navalha (morah), ele estava anunciando que, enquanto mantivesse seu cabelo e não se rebelasse contra as leis de Deus, nenhuma fraqueza viria sobre ele.

9-  Juízes 13.5. Livrar (Hb. yasha’, quase que o nome de Jesus, yehoshua’).

10-  Cap.14. Sansão era um homem impulsivo e violento. Seus inimigos, os filisteus, também eram violentos e cruéis (15.6).

11-  Mas em tudo aquilo, a vontade de Deus estava sendo feita (14.4), para que o Senhor pudesse livrar seus povos dos filisteus.

12-  Sansão começa seu ministério (“destruir os filisteus”) em Timna (Hb. timnah, “porção”, relacionado a Manah, “enumerar”, e a min, “contar”). Ou seja, Timna era local de “prestar conta” de toda a maldade que os filisteus haviam feito com Israel.

13-  Juízes 14.5. O inimigo estava furioso com Sansão, pois este estava prestes a causar um grande estrago no reino das trevas.

14- Segundo a lei dos nazireus, Sansão nunca poderia ter passado perto de uma plantação de uva.

15-  Depois dessa brecha, satanás arma uma ocasião favorável para atacá-lo.

16-  “Chegando às vinhas de Timna” (vayabo’u ‘adhkarmey timnatah), ou seja, “chegando ao testemunho das vinhas de Timna”.

17-  As vinhas testemunharam a imprudência de Sansão, cujo erro permitiu que o leão o atacasse daquela maneira.

18-  Este foi o primeiro deslize de Sansão, sua primeira grande afronta e a primeira vez que Deus levou em consideração seu erro.

19-  Juízes 14.8. Sansão saiu da estrada, ou seja, se desviou de seu caminho.

20-  Enxame (Hb. ‘adath). Pode significar “passou” (como em Daniel 4.31).

21- Ou seja, neste momento, Sansão ultrapassou a linha, passou além do limite da santidade. Mas Deus teve misericórdia com ele, pois, como está escrito, “as misericórdias do Senhor são a causa de nós não sermos consumidos”.

Considerações Finais – Nazireado

O serviço sacerdotal entre os filhos de Israel, era um privilégio exclusivo dos que pertenciam a tribo de Levi; mas o Senhor instituiu aqui uma provisão mediante a qual qualquer homem ou mulher de Israel, que quisesse tomar voto diante do Senhor, se se consagrasse por um período determinado de tempo para servir a Deus, poderia fazê-lo.

Ocasionalmente, este voto podia ser tomado pelos pais em favor dos filhos (I Sm 1:11). Usualmente, porém, o nazireado era um ato de devoção efetuado voluntariamente por um adulto.

Este voto era tomado por um período mínimo de trinta dias. Importante mencionar que, como voto, devemos observar concomitantemente a validação do voto se efetuado por mulher estando em casa de seus pais, ou junto a seu marido antes ou depois do casamento. A forma de validação ou invalidação estão mencionadas em Nm 30.

A lição espiritual relacionada a consagração pelo voto de nazireu é que o homem espiritual atinge algo acima daquilo que satisfaz à pessoa comum. O homem espiritual devia evitar até a aparência do mal, quanto mais o próprio mal. Daí atribuir-se nesta interpretação não somente a proibição do vinho ou bebida forte, mas também à própria uva.

O fato de os cabelos não serem cortados poderiam também simbolizar o paralelismo entre duas coisas: a dedicação à Deus e a espiritualidade crescentes. Certamente há um paralelo entre a “cabeleira não podada” (Voto de Nazireu) e a “vinha não podada” nos anos Sabático e Jubileu em Lv 25.

É relevante pensar que a cabeleira crescente e as vinhas não podadas tragam também a simbolização do pleno gozo desfrutado no ANO SABÁTICO e no ANO JUBILEU. O ANO SABÁTICO fala do pleno descanso e o ANO JUBILEU nos fala da plena restituição e retorno às possessões. Portanto, esta figura liga pelo menos, três elementos significativos:

  1. A comunhão com Deus por meio da consagração implica em pleno gozo, plena restauração e possessão. Aquilo que se configura como abstinência para o mundo é pleno deleite para o Nazireu.
  2. Mais vale ser um nada diante dos homens sendo até mesmo humilhado, mas desfrutar do gozo de Sua Presença. Quem busca a glória dos homens não tem como alcançar a verdadeira Glória que vem somente de Deus.
  3. Cortar a cabeleira, passando a navalha, é o mesmo que rebelar-se contra Deus; isto implica em quebra de consagração diante de Deus. Consagração implica em submissão.

Obs: Vale destacar que, caso o indivíduo tivesse contaminado o seu voto de Nazireado ele tinha que:

  1. Ao oitavo dia apresentar duas rolas ou dois pombinhos como sacrifício pelo pecado e para holocausto. Isto simboliza ao mínimo duas coisas:
    1. Que não havia acepção de pessoas, já que estas ofertas eram possíveis até aos mais pobres, financeiramente.
    2. O fato se serem acessíveis aos mais pobres financeiramente em correlação com o fato de o voto ter sido anulado até aquela data, implica na indicação do que Paulo disse em Romanos: “miserável homem que eu sou”.