A Água Purificadora

 

Sumário

1- A Bezerra Ruiva: Um Tipo que diz respeito ao Deserto

2- O Sangue

3- Porque a Novilha era levada para fora do arraial?

4- As Cinzas

5- O que Significam as Cinzas?

6- O Significado do Cedro e do Hissopo

7- O Significado do Carmesim

8- As Manchas e as Cinzas

9- A Ação do Terceiro e Sétimo Dias

10- Cristo: O Sacerdote e o Advogado

11- O que significam os versículos 18 a 22?

A água purificadora (ver Núm. 19:9,13,20,21 e 31:23) era um agente de purificação, usado para pessoas ou coisas que tivessem sido contaminadas mediante o contato com corpos mortos, ou por outras razões.

As cinzas de uma novilha vermelha eram adicionadas à “água corrente”, que era então aplicada ao objeto contaminado. O animal usado para tal cerimônia precisava ser uma novilha de cor marrom avermelhada, sem qualquer defeito físico, que nunca fora atrelada a jugo.

A novilha era queimada “fora do acampamento”, por inteira, incluindo seu sangue, com a exceção de uma pequena porção do sangue que era usado para aspersão, diante da tenda, uma vez reduzido a cinzas.

Isso distinguia tal cerimônia dos sacrifícios rituais levíticos. Um pedaço de madeira de cedro e um molho de hissopo, amarrado com um pano de cor escarlate, eram queimados juntamente com a novilha.

As cinzas eram conservadas “fora do acampamento, em um lugar limpo”, até serem misturadas com água de fonte, para uso nas cerimônias específicas de purificação.

Essa “água purificadora” era aplicada à pessoa ou objeto contaminados mediante aspersão, com um ramo de hissopo. A cerimônia era efetuada no terceiro e no sétimo dia depois que a pessoa era considerada limpa, tendo-se banhado e lavado as suas vestes, dando-lhe assim o direito de ser restaurada ao convívio comunitário, que antes a excluíra.

O episódio relatado em Números 31:13 diz respeito a objetos contaminados, que haviam sido tomados em batalha.

Os judeus, nos dias de Jesus, haviam legislado extensamente sobre essa questão. Basta dizer que quando foi preparada a coleção da Mishnah, o livro maior dedicava-se às leis da purificação, com trinta capítulos do mesmo dedicados somente à descrição da purificação de vasos.

Em João 2:1-11 vemos que os judeus tinham seis grandes jarras de água, usadas para cerimônias de purificação, quando do casamento em Caná. Em João 3:25 lemos sobre uma controvérsia entre os discípulos de Jesus e os judeus. Para todo judeu, a questão revestia-se de imensa importância.

Um judeu sentia que precisava manter-se cerimonialmente puro, se tivesse de ser justo e quisesse merecer a aprovação de Deus. O Senhor Jesus, porém, desprezou todas essas leis relativas à purificação, sobretudo no tocante aos preceitos adicionados ao código levítico, e que formavam a “tradição dos anciãos” (ver Mt. 15:2 e Mc. 7:3-13). Jesus ensinava que não havia impureza cerimonial, mas apenas moral e espiritual. Esse ensino foi absorvido pelos Seus apóstolos.

Paulo não considerava nada impuro por si mesmo (ver Rm. 14:14-20; Tt 1:15). Apesar disso, é ensino bíblico que ninguém deve violar os escrúpulos de sua própria consciência, ou a consciência de um seu irmão na fé, pondo uma pedra de tropeço em seu caminho. A suprema lei cristã é o amor, e não o cerimonialismo. Ao submeter-se ao voto de purificação, em Jerusalém, Paulo estabeleceu exemplo sobre esse princípio (ver Atos 21:26).

A Bezerra Ruiva: Um Tipo que diz respeito ao Deserto

Uma das partes mais importantes do livro de Números está agora aberta ante os nossos olhos, apresentando para nossa consideração o rito altamente interessante e instrutivo da “Bezerra Ruiva”.

Um estudante atencioso das Escrituras poderia naturalmente sentir-se disposto a inquirir a razão por que temos esta figura em Números e não em Levitico. Nos sete primeiros capítulos desse livro temos um relato pormenorizado da doutrina do sacrifício, e, todavia, não temos alusão nenhuma à bezerra ruiva. Por quê?

Que devemos apreender com o fato desta formosa ordenação ser apresentada no livro de Números e em nenhum outros Cremos que nos oferece outra ilustração notável do caráter distinto do nosso livro.

  1. Porque este rito de purificação está em Números e não em Levítico?

A bezerra ruiva é eminentemente um tipo do deserto. Era uma provisão feita por Deus para a profanação do caminho e prefigura a morte de Cristo como purificação do pecado e resposta às nossas necessidades durante a nossa peregrinação pelo mundo corrompido para o nosso descanso eterno na mansão celestial.

É uma figura muito instrutiva, que nos descobre uma verdade preciosa e necessária. Que o Espírito, que inspirou o seu relato, se compraza em no-la explicar e aplicar às nossas almas!

“Falou mais o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo: Este é o estatuto da lei, que o SENHOR ordenou, dizendo: Dize aos filhos de Israel que te tragam uma bezerra ruiva sem defeito, que não tenha mancha, e sobre que não subiu jugo” (versículos 1-2).

  1. Porque sobre a Novilha não poderia ter “subido” Jugo?

Cristo: A Vítima sem Mancha, e que Nunca Carregou o Jugo do Pecado Se contemplamos o Senhor Jesus com os olhos da fé, vemo-lo não só como Aquele que era sem mancha em Sua santa Pessoa, mas também Aquele que jamais levou o jugo do pecado.

O Espírito Santo é sempre o zeloso Guardião da pessoa de Cristo, e deleita-Se em o apresentá-Lo à alma em toda a Sua excelência e supremo valor. Por isso cada tipo e cada sombra destinada a apresentá-Lo exibe a mesma defesa.

Assim, no caso da bezerra ruiva, sabemos que o nosso bendito Salvador não só era, quanto à Sua natureza humana, intrínseca e inerente e inerentemente puro e imaculado, mas que, quanto ao Seu nascimento e às suas relações, se manteve perfeitamente isento de todo a mancha e aparência de pecado.

O jugo do pecado jamais pesou sobre o seu pescoço. Quando falou do Seu jugo (Mt 11:29), referia-Se ao jugo da Sua submissão implícita à vontade do Pai em todas as coisas.

Este foi o único jugo que levou, e que não deixou um só instante durante toda a Sua perfeita e imaculada carreira – desde a manjedoura, onde repousou como débil menino, até à cruz, onde expirou como vítima.

Mas não levou o jugo do pecado. Compreenda-se isto bem. Foi à cruz para expiar os nossos pecados, para lançar os fundamentos da nossa perfeita purificação de todo o pecado; mas fez isto como Aquele que nunca tinha, em qualquer altura durante a Sua bendita vida, levado o jugo do pecado.

Era “sem pecado”; e, como tal, era perfeitamente capaz de fazer a grande e gloriosa obra da expiação. Pensar que tomou o jugo do pecado na Sua vida, seria pensar d’Ele como Aquele que era incapaz de fazer expiação do pecado na Sua morte.

O Sangue

“Que não tenha mancha, e sobre que não subiu jugo.” E necessário lembrar e pensar tanto uma como outra destas expressões. O Espírito Santo destinou-as para mostrar a perfeição de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que era puro intimamente, mas também livre exteriormente de todo o rasgo de pecado.

Nem na Sua Pessoa, nem ainda nas Suas relações não esteve, de modo algum, sujeito às exigências do pecado ou da morte. Entrou, louvado seja para sempre o Seu nome, em toda a realidade das nossas circunstâncias e condições; mas em Si não havia pecado, e sobre Si não subiu jugo de pecado.

“E a dareis a Eleazar, o sacerdote; e a tirará fora do arraial, e se degolará diante dele” (versículo 3).

0 leitor atencioso da Escritura não passará por alto qualquer expressão, por mais vulgar que lhe possa parecer que ela seja.

Antes terá sempre presente que o livro que tem aberto diante de si é de Deus e, portanto, perfeito – perfeito no seu conjunto – perfeito em todas as suas partes. Cada palavra está cheia de significado. Cada ponto por menor que seja, cada característica e circunstância contém algum ensino espiritual para a alma.

Sem dúvida, os infiéis e os racionalistas falham redondamente na compreensão deste poderoso fato, e, como consequência, quando se acercam do volume divino, cometem o mais triste dano. Veem defeitos onde o estudioso espiritual vê pedras preciosas. Veem incongruências onde o discípulo consagrado, ensinado pelo Espírito, vê harmonia divina e glória moral.

Isto é o que poderíamos esperar; e é bom recordá-lo nestes dias. “Deus é o Seu próprio intérprete”, tanto da Escritura como da providência; e se nós esperarmos n’Ele, há-de certamente torná-las claras. Mas, assim como com a providência, “A cega incredulidade é mais do que certo errar e esquadrinhar os caminhos de Deus em vão”, do mesmo modo é certo errar com as Escrituras e investigar a Sua Palavra inutilmente.

E o fervoroso poeta poderia continuar; porque, certamente, a incredulidade não investigará apenas os caminhos de Deus e a Palavra de Deus em vão, mas converterá uma e outra numa ocasião de ataque blasfemo contra o Próprio Deus, contra a Sua natureza, contra o Seu caráter e também contra revelação que Lhe aprouve dar-nos. Os infiéis quebrariam bruscamente a lâmpada da inspiração, apagariam a sua luz celestial e envolver-nos-iam a todos naquela profunda melancolia de trevas morais que envolvem a sua mente desencaminhada.

Fomos levados a entrar na precedente linha de pensamento enquanto meditávamos sobre o versículo terceiro do nosso capítulo. Estamos ansiosos por cultivar o hábito de estudo profundo e atento da Escritura Sagrada. É da máxima importância. Dizer ou pensar que existe tanto como uma simples cláusula, uma simples expressão, desde uma à outra capa do volume inspirado, que não mereça a nossa meditação na dependência divina, é insinuar que Deus, o Espírito Santo, pensou que valia a pena escrever o que nós pensamos e não valer a pena estudar.

“Toda a Escritura divinamente inspirada é” (2 Tm 3:16). Isto requer reverência da nossa parte. “Porque tudo que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito” (Rm 15:4).

Isto deve despertar o nosso interesse. A primeira destas passagens prova que a Escritura vem de Deus; a última prova que vem para nós. Aquela e esta, juntas, ligam-nos a Deus pelo elo divino da Sagrada Escritura – um elo que o diabo procura, nestes dias, quebrar; e isso por meio de agentes de reconhecido valor moral e poder intelectual.

O diabo não escolhe um homem ignorante ou imoral para lançar os seus ataques especiais sobre a Bíblia, porque sabe muito bem que um ignorante não poderia falar e um homem imoral não seria escutado. Mas escolhe astuciosamente uma pessoa amável, benevolente e popular – alguém moralmente irrepreensível – um estudioso diligente, um profundo escolar, um grande e original pensador. Desta forma atira poeira aos olhos dos simples, dos ignorantes, e dos incautos.

Se pudermos profundar em tua alma o sentimento inefável do valor da tua Bíblia; se pudermos desviar-te das rochas e areias movediças do racionalismo e da infidelidade; se formos usados como meios de estabelecer e fortalecer a tua alma na certeza de que quando estás debruçado sobre as páginas sagradas das Escrituras, estás bebendo da fonte cuja água correu gota a gota para ela do próprio seio de Deus; se pudermos alcançar algum ou todos estes resultados, não teremos de lamentar a digressão que fizermos do nosso capítulo, ao qual regressamos agora.

“E a dareis a Eleazar, o sacerdote; e a tirará fora do arraial, e se degolará diante dele.”

  1. Porque Eleazar, como sacerdote, não executou a degola, mas presenciou a mesma “diante dele”?

No sacerdote e na vítima temos uma figura da pessoa de Cristo. Ele foi, ao mesmo tempo, a Vítima e o Sacerdote. Mas não tomou as Suas funções sacerdotais até que a Sua obra como vítima foi cumprida. Isto explica a expressão na terceira cláusula do versículo terceiro, “e se degolará diante dele”. A morte de Cristo foi cumprida na terra, e não podia, portanto, ser apresentada como o ato de sacerdócio. O céu e não a terra é a esfera do Seu serviço sacerdotal.

O apóstolo, na epístola aos Hebreus, declara expressamente como súmula de uma esmerada e maravilhosa peça de argumento, que “temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da Majestade, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem. Porque todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; pelo que era necessário que este também tivesse alguma coisa que oferecer. Ora, se ele estivesse na terra, nem tampouco sacerdote seria, havendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a lei” (Hb 8:1-4).

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus” (Hb 9:11-12,24. “Mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” (Hb 10:12).

De todas estas passagens tomadas em ligação com Números 19:3 aprendemos duas coisas, a saber:

  1. Que a morte de Cristo não é apresentada como o ato próprio e normal do sacerdócio; e,
  2. Além disso, que o céu, não a terra, é a esfera do Seu serviço sacerdotal.

Não há nada novo nestas afirmações; têm sido apresentadas repetidas vezes por outras e é importante notar tudo que tende a ilustrar a perfeição e precisão da Sagrada Escritura. E interessantíssimo encontrar uma verdade, que brilha nas páginas do Novo Testamento, incluída em qualquer ordenação ou cerimónia dos tempos do Velho Testamento.

Estas descobertas são sempre bem recebidas pelo leitor inteligente da Palavra de Deus. A verdade é, sem dúvida, a mesma onde quer que for achada; mas quando se oferece subitamente aos nossos olhos com brilho invulgar no Novo Testamento e é divinamente prefigurada no Velho, não temos apenas a verdade estabelecida, mas a unidade do volume ilustrada e reforçada.

Porque a Novilha era levada para fora do arraial?

Não podemos deixar despercebido o lugar onde a vítima era morta. “E a tirará fora do arraial.” Como já foi acentuado, o sacerdote e a vítima estão identificados e formam conjuntamente um tipo de Cristo; mas acrescenta-se, “e se degolará diante dele”, simplesmente, porque a morte de Cristo não podia ser apresentada como um do sacerdócio.

Que maravilhosa precisão! E todavia não é maravilhosa, pois que mais podíamos esperar de um livro do qual cada linha vem diretamente de Deus?- Se tivesse sido dito “e ele a degolará”, Números 19 estaria em desacordo com a epístola aos Hebreus. Mas não; a harmonia do volume mostra refulgentes glórias. Que Deus nos dê graça para podermos discerni-las e apreciá-las.

Por isso, Jesus sofreu fora da porta. “E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta” (Hb 13:12). Tomou lugar de fora e a Sua voz faz-se ouvir desde ali. Ouvimo-la? – Compreendemo-la? Não devemos nós considerar mais atentamente o lugar onde Jesus morreu?

Devemos ficar satisfeitos com recolha dos benefícios da morte de Cristo sem buscarmos a comunhão com Ele na Sua rejeição? – Deus nos livre de tal! “Saiamos pois a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:13) (1).

(1) O arraial, na passagem citada, refere-se em princípio ao judaísmo; mas tem uma notável aplicação moral a todo o sistema religioso estabelecido pelo homem e governado pelo espírito e princípios deste século mau.

Existe um imenso poder nestas palavras. Deveriam excitar todo o nosso ser moral a buscar s completa identificação com o Salvador que foi rejeitado. Devemos vê-lo morrer fora da porta, enquanto colhemos os benefícios da sua morte permanecendo dentro do arraial?

  1. Buscaremos uma morada, e um lugar, e um nome, e uma porção nesse mundo, do qual o nosso Senhor e Mestre é expulso?
  2. Aspiraremos a um lugar no mundo que não pode tolerar esse bendito Senhor a quem devemos a nossa felicidade presente e eterna?
  3. Aspiraremos ali honra, posição, e riqueza, onde o nosso Senhor encontrou apenas uma manjedoura, uma cruz e uma sepultura emprestadas?

Que a linguagem dos nossos corações seja: “Longe de nós tal pensamento”. E que a linguagem das nossas vidas seja: “Longe de nós tal coisa!” Possamos nós pela graça de Deus, e em resposta sincera à chamada do Espírito, dizer “Saiamos!”

Não esqueçamos nunca que, quando encaramos a morte de Cristo, vemos duas coisas, a saber:

  1. A morte de uma vítima – uma vítima sob a mão de Deus
  2. A morte de um mártir – um mártir sob às mãos do homem

Ele sofreu pelo pecado para que nós nunca tivéssemos que sofrer. Bendito seja o Seu nome para sempre! Porém os Seus sofrimentos de mártir, os Seus sofrimentos pela justiça das mãos do homem, são sofrimentos que conhecemos. “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” (Fp 1:29). É positivamente um dom ser permitido sofrer com Cristo. Apreciamos isso?

Contemplando a morte de Cristo, como é simbolizada na ordenação da bezerra ruiva, vemos nela não apenas como o pecado é completamente tirado, mas também o juízo deste presente século mau.” O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus Pai” (Gl 1:4).

As duas coisas são juntas aqui por Deus; e nós não devemos evidentemente nunca separá-las.

  1. Temos o juízo do pecado, em sua raiz e suas ramificações;
  2. E o juízo deste mundo.

O primeiro dá perfeito descanso à consciência exercitada; enquanto que o último liberta o coração da influência intrigante do mundo, em suas múltiplas formas. Aquele purifica a consciência de todo o sentimento de culpa; este rompe o laço que liga o coração e o mundo.

E absolutamente necessário que o leitor compreenda e experimente praticamente a conexão que existe entre estas duas coisas. E muito possível perder de vista esta grande conexão, até mesmo contendendo e mantendo muitas verdades evangélicas; e pode afirmar-se afoitamente que sempre que esta ligação não existe, deve haver um grave defeito no caráter cristão.

Encontramos frequentemente almas sinceras que têm sido despertadas pelo poder convincente do Espírito Santo, mas que ainda não têm conhecido, para tranquilidade das suas consciências perturbadas, o pleno valor da morte expiatória de Cristo, tirando, para sempre, todos os seus pecados e trazendo-as para perto de Deus, sem uma mancha sobre a alma ou tormento na consciência.

Se este for o estado atual do leitor, deve considerar a primeira cláusula do versículo que acabamos de citar: “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados.” E uma afirmação bendita para uma alma atribulada. Resolve toda a questão do pecado.

Se é verdade que Cristo se deu a Si Mesmo por meus pecados, nada mais resta senão alegrar-me com o fato precioso de que os meus pecados foram tirados! Aquele que tomou o meu lugar, que carregou os pecados, que sofreu por mim e em meu lugar, está agora à destra de Deus coroado de honra e glória. Isto me basta.

Todos os meus pecados foram tirados para sempre. Se não tivessem sido tirados, Ele não estaria onde agora está. A coroa de glória que cinge a Sua bendita cabeça é a prova de que os meus pecados foram perfeitamente expiados, e, portanto, paz perfeita é a minha porção – uma paz tão perfeita quanto a obra de Cristo a pode fazer.

Mas não esqueçamos nunca que a mesmíssima obra que tirou para sempre os nossos pecados, nos livrou deste presente século mau. As duas coisas vão juntas.

  1. Cristo não somente me libertou das consequências dos meus pecados,
  2. Como também do poder atual do pecado, e das exigências e influências que a Escritura chama “o mundo”.

Tudo isto, contudo, se tornará mais claro à medida que prosseguimos com o estudo do nosso capítulo.

“E Eleazar, o sacerdote, tomará do seu sangue com o seu dedo e dele espargirá para a frente da tenda da congregação sete vezes”.

  1. Porque o Sangue era aspergido sete vezes para a frente da Tenda da Congregação?

Aqui temos o sólido fundamento de toda a verdadeira purificação. Sabemos que, no símbolo que temos diante de nós, se trata apenas, como o apóstolo inspirado nos diz, de uma questão da “purificação da carne” (Hb 9:13).

Porém, devemos ver o tipo mais além do antítipo – além da sombra a substância. Na sétupla aspersão do sangue da bezerra ruiva para a frente da tenda da congregação temos uma figura da apresentação perfeita do sangue de Cristo a Deus, como o único lugar de encontro entre Deus e a consciência.

O número “sete”, como tem sido frequentemente observado, é expressivo de perfeição; e, na figura que temos perante nós, vemos a perfeição ligada à morte de Cristo, como expiação pelo pecado apresentada a Deus e aceitada por Ele. Tudo descansa sobre terreno divino.

O sangue foi derramado e apresentado ao Deus santo como perfeita expiação pelo pecado. Isto, quando é simplesmente aceito pela fé, deve aliviar a consciência de todo o sentimento de culpa e todo o temor de condenação. Nada há diante de Deus senão a perfeição da obra expiatória de Cristo.

O pecado foi julgado e os nossos pecados foram tirados. Foram completamente apagados pelo precioso sangue de Cristo. Crer nisto é entrar no perfeito repouso da consciência.

E aqui note-se que não há mais alusão à aspersão do pecado em todo este singularmente interessante capítulo. Isto precisamente de harmonia com a doutrina de Hebreus 9 e 10. É outra ilustração da harmonia divina do Volume Sagrado. O sacrifício de Cristo, sendo divinamente perfeito, não necessita de ser repetido. A sua eficácia é divina e terna.

“Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. Porque, se o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha, esparzida sobre os imundos, os santificam, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado e Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas para servirdes ao Deus vivo?-” (Hb 9:11-14).

Note-se a força destas palavras “uma vez” e “terna redenção”. Veja-se como mostram a perfeição e a eficácia divina do sacrifício de Cristo. O sangue foi derramado uma vez para sempre. Pensar na repetição dessa grande obra seria negar seu valor eterno e todo suficiente, e rebaixá-lo ao nível do sangue dos touros e bodes.

Mas continuemos. “De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus; nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio. Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb 9:23-26).

O pecado foi, portanto, tirado. Não pode ter sido aniquilado e ao mesmo tempo estar sobre a consciência do crente. Isto é claro. Tem de admitir-se que os pecados do crente foram apagados e a sua consciência perfeitamente purificada ou que Cristo tem que morrer outra vez.

Porém, este último caso não só está fora de discussão como seria desnecessário, pois como diz o apóstolo assim “como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação.”

Existe algo de maravilhoso no paciente esmero com que o Espírito Santo debate todo este assunto. Expõe, exemplifica e fortalece a grande doutrina da perfeição do sacrifício de modo a dar convicção à alma e libertar a consciência do seu pesado fardo.

Tal é a superabundante graça de Deus que Ele não só cumpriu a obra da nossa eterna redenção, como maneira mais paciente e esmerada, tem debatido, arguido e provado o ponto em questão, de forma a não deixar o mínimo fundamento para objeção.

Escutemos os Seus poderosos argumentos, e que o Espírito possa aplicá-los em poder ao coração do leitor!

“Porque, tendo a lei a sombra dos bens futuros e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam. Doutra maneira, teriam deixado de se oferecer, porque, purificados uma vez os ministrantes, nunca mais teriam consciência de pecado. Nesses sacrifícios, porém, cada ano, se faz comemoração dos pecados porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados” (Hb 10:1-4).

Mas o que o sangue dos touros nunca poderia fazer, o sangue de Jesus fê-lo para sempre. Isto faz toda a diferença. Todo o sangue que até hoje correu em redor dos altares de Israel—os milhões de sacrifícios oferecidos segundo as exigências do ritual mosaico não podia apagar uma nódoa da consciência ou dar ao Deus que detesta o pecado o direito de receber o pecador.

“Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados.” “Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então, disse: Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade… Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hb 10:4-10).

Note-se o contraste. Deus não se agradou na série interminável de sacrifícios sob a lei. Não Lhe agradavam. Deixavam inteiramente incompleto o que Ele tinha em Seu coração amantíssimo proposto fazer pelo Seu povo, a saber: libertá-los completamente do pesado fardo do pecado e trazê-los a Si em perfeita paz de consciência e liberdade de coração.

Isto Jesus fez pelo sacrifício do Seu bendito corpo. Fez a vontade de Deus; e, bendito seja para sempre o Seu nome, não tem que fazer outra vez a Sua obra. Podemos recusar crer que a obra está feita -recusar entregar as nossas almas à sua eficácia – entrar no repouso que ela tem a propriedade de comunicar – recusar gozar a santa liberdade de espírito que é capaz de nos dar; porém, a obra permanece na sua imperecível virtude; e os argumentos do Espírito a respeito dessa obra subsistem também em sua força e clareza sombrias as sugestões de Satanás, nem os nossos próprios argumentos incrédulos podem jamais tocar alguma destas verdades. Podem interferir, e, infelizmente, interferem com o gozo que as nossas almas têm da verdade; mas a verdade em si permanece a mesma.

“E assim todo o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar pecados; mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10:11 -14).

E em virtude do sangue de Cristo que nós e conferida uma eterna perfeição; e, podemos certamente acrescentar, é devido também a esse sangue que as nossas almas podem essa perfeição. Ninguém imagine que está prestando honra à obra de Cristo ou ao testemunho do Espírito a respeito dessa obra quando recusa aceitar aquela perfeita remissão de pecados que lhe é anunciada pelo sangue da cruz.

Não é um sinal de verdadeira piedade ou de pura religião o que a graça Deus tem feito por nós em Cristo e o que o relato do espírito eterno tem apresentado às nossas almas nas páginas inspiradas.

Não parece estranho que, apresentando a Palavra de Deus à nossa vista Cristo assentado à destra de Deus, em virtude da redenção cumprida, nós não estamos virtualmente em melhores circunstâncias do que aqueles que tinham um sacerdote humano de pé ministrando cada dia e oferecendo os mesmos sacrifícios?

Nós temos um sacerdote divino que se assentou para sempre. Eles tinham simplesmente um sacerdote humano, que nunca podia, de modo algum, no desempenho das suas funções oficiais, sentar-se; e todavia nós não estamos no estado de espírito, na compreensão da alma, na condição presente da consciência, em melhores circunstâncias do que eles?- Será possível que, com uma obra perfeita em que podemos descansar, as nossas almas nunca conheçam perfeito descanso?

O Espírito Santo, como temos visto nas diversas passagens citadas da epístola aos Hebreus, nada omitiu para satisfazer as nossas almas quanto à questão da completa remoção do pecado pelo precioso sangue de Cristo. Por que, pois, não há de o leitor gozar, neste próprio momento, paz de consciência perfeita e certa? O Sangue de Jesus nada mais fez por si do que o sangue de um touro podia fazer por um adorador judeu

Pode ser, contudo, que estejamos prontos a dizer em resposta a tudo quanto temos procurado indicar-lhe: “Não duvido em absoluto da eficácia do sangue de Jesus. Creio que purifica de todo o pecado. Creio formalmente que todos os que põem simplesmente a sua confiança nesse sangue estão perfeitamente salvos, e serão eternamente felizes.

A minha dificuldade não está de modo algum nisso. O que me atormenta não é a eficácia do sangue, na qual eu creio plenamente, mas o meu interesse pessoal nesse sangue, do qual não tenho prova aceitável. Esse é o segredo de todas as minhas dificuldades. A doutrina do sangue é tão clara como os raios solares; mas a questão do meu interesse nela está envolvido em desesperada escuridão.

Ora se esta é a expressão dos sentimentos do leitor sobre este tão importante assunto, isso apenas prova a sua necessidade de ponderar atentamente o capítulo décimo nono de Números. Verá ali como a verdadeira base de toda a purificação se encontra nisto: que o sangue da expiação tem sido apresentado a Deus e aceito por Ele. É uma verdade preciosa, mas muito pouco compreendida. É de toda a importância que a alma realmente ansiosa tenha uma visão clara do assunto da expiação.

É tão natural para todos nós estarmos ocupados com os nossos pensamentos e sentimentos sobre o sangue de Cristo, e pouco com o próprio sangue e os pensamentos de Deus seu respeito.

Se o sangue foi perfeitamente apresentado a Deus, se Ele o aceitou e se glorificou a Si mesmo tirando o pecado, então que resta para a consciência divinamente exercitada senão encontrar perfeito descanso no que tem satisfeito todos os direitos de Deus, conciliado os Seus atributos, e lançado os fundamentos dessa base maravilhosa sobre a qual podem encontrar-se o Deus aborrecedor do pecado e o pecador arruinado?

Por que introduzir a questão do meu interesse no sangue de Cristo, como se a obra não estivesse completa sem alguma coisa da minha parte, chama-se-lhe o que se quiser, o meu interesse, os meus sentimentos, a minha experiência, a minha aplicação, ou qualquer outra coisa?

Por que não descansar somente em Cristo? Isto seria realmente ter interesse n’Ele. Mas logo que o coração começa estar ocupado com a questão do seu próprio interesse – logo que a vista é desviada do objetivo divino que a Palavra de Deus e o Espírito Santo apresentam-então seguem-se trevas espirituais e perplexidade; e a alma, em vez de se regozijar na perfeição da obra de Cristo, é atormentada pelos seus pobres e imperfeitos sentimentos.

Bendito seja Deus, o fundamento da obra de “purificação do pecado é estável e paz perfeita para a consciência.

A obra da expiação fez-se. Tudo está consumado. O grande Antítipo da bezerra ruiva foi morto. Entregou-Se a Si mesmo à morte sob a ira e o juízo de um Deus santo, para que todos os que põem a sua confiança n’Ele pudessem conhecer, no profundo secreto das suas almas, purificação divina e perfeita paz.

Estamos purificados quanto à consciência, não pelos nossos pensamentos quanto ao sangue, mas pelo próprio sangue. Devemos insistir nisto. Deus mesmo tem feito valer o nosso título, e esse título encontra- se somente no sangue.

Oh! Esse precioso sangue de Jesus que fala de profunda paz para toda a alma atribulada que repousa simplesmente sobre a sua eterna eficácia! Por que é, podemos perguntar, que a bendita doutrina do sangue é tão pouco compreendida e apreciada?

Por que persistem as pessoas em confiar em alguma coisa mais ou em misturar com ela outras coisas? Que o Espírito Santo guie o leitor, enquanto lê estas linhas, a concentrar e fixar o seu coração e a sua consciência no sacrifício expiatório do Cordeiro de Deus.

As Cinzas

Havendo procurado desta maneira apresentar ao leitor a verdade preciosa revelada na morte da bezerra ruiva, pedimos-lhe agora para meditar, por alguns momentos, na forma como a bezerra ruiva era queimada. Temos visto o sangue, contemplemos agora as cinzas. Naquele temos a morte sacrificial de

Cristo, como o único meio de purificação o pecado. Nestas temos o memorial dessa morte aplicado ao coração pelo Espírito mediante a Palavra, de forma a remover qualquer manha contraída na nossa conduta do dia a dia.

Isto dá uma grande perfeição e beleza a este interessantíssimo tipo. Deus não tem feito apenas provisão para os pecados passados, mas também para a contaminação no presente, de forma a podermos estar sempre diante de Si em todo o valor da obra perfeita de Cristo.

Ele quer que, estando inteiramente limpos, pisemos os átrios do Seu santuário, os sagrados recintos da Sua presença. E não somente nos vê assim como, bendito seja o Seu nome para sempre, deseja que façamos outro tanto no íntimo da nossa consciência. Quer dar-nos, pelo Espírito, mediante a Palavra, o profundo sentimento de pureza à sua vista, de forma que a corrente de comunhão Consigo possa ocorrer sem agitação e sem obstáculos.

“Mas se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (Jo 1:7). Porém, se deixarmos de andar na luz – se esquecermos e, no nosso esquecimento, tocarmos qualquer coisa imunda, como é restaurada a nossa comunhão?

Apenas pela remoção da contaminação. E como pode ser isto efetuado? Mediante a aplicação aos nossos corações e às nossas consciências da verdade preciosa da morte de Cristo. O Espírito Santo produz o juízo próprio e traz a nossa memória a verdade preciosa de que Cristo sofreu a morte por essa contaminação que nós tão fácil e indiferentemente contraímos. Não se trata de uma nova aspersão do sangue de Cristo – uma coisa desconhecida na Escritura; mas da lembrança da Sua morte trazida ao coração contrito, em novo poder, pelo ministério do Espírito Santo.

“Então, queimará a bezerra perante os seus olhos… e o sacerdote tomará um pedaço de madeira de cedro, e hissopo, e carmesim, e os lançará no meio do incêndio da bezerra… E um homem limpo ajuntará a cinza da bezerra e a porá fora do arraial, num lugar limpo, e estará ela em guarda para a congregação dos filhos de Israel, para a água da separação; expiação é” (Nm 19:5-9).

E o propósito de Deus que os Seus filhos sejam purificados de toda a iniquidade, e que andem em separação deste presente século mau onde tudo é morte e corrupção. Esta separação é efetuada pela ação da Palavra no coração e o poder do Espírito Santo.

“Graça e paz da parte de Deus Pai e da de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus, nosso Pai” (Gl 1:3,4). “Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nós, para nos remir de toda iniquidade e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tt 2:13-14).

E notável o modo como o Espírito de Deus apresenta constantemente, em ligação íntima, o perfeito alívio da consciência de todo o sentimento de culpa e a libertação do coração da influência moral deste presente século mau. Portanto, devemos ter o cuidado de manter a integridade desta conexão.

E, evidentemente, é só pela energia graciosa do Espírito Santo que podemos fazer assim; mas deveríamos procurar, sinceramente, compreender e mostrar na prática o laço bendito que existe entre a morte de Cristo considerada como expiação do pecado e como poder moral de separação deste mundo.

Muitos do povo de Deus nunca vão mais além da primeira verdade, se é que chegam a alcançá-la. Muitos parece estarem muito satisfeitos com o conhecimento do perdão dos pecados pela obra expiatória de Cristo, enquanto que, ao mesmo tempo, não chegam a compreender o estado de morte quanto ao mundo em virtude da morte de Cristo e da sua identificação com Ele nessa morte.

O que Significam as Cinzas?

Ora, quando contemplamos a queima da bezerra ruiva em Números 19—quando examinamos esse montão de cinzas—que descobrimos? Podemos dizer em resposta: “Encontramos ali os nossos pecados.”

Na verdade, graças sejam dadas a Deus e ao Filho do Seu amor, encontramos com efeito ali os nossos pecados, as nossas iniquidades, as nossas transgressões, a nossa culpa como o carmesim, tudo reduzido a cinzas. Mas não há nada mais? – Não podemos por meio de uma cuidadosa análise descobrir nada mais? – Descobrimos, incontestavelmente.

O Significado do Cedro e do Hissopo

Encontramos ali a natureza em cada fase da sua existência — desde o ponto mais alto ao mais baixo da sua história. Além disso, encontramos ali toda a glória deste mundo. O cedro e o hissopo representam a natureza nos seus mais afastados extremos; e, rendendo os seus extremos, eles tomam tudo que se encontra entre si. Salomão “falou também das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce na parede” (Rs 4:33). Assim o cedro e o hissopo representam:

  1. Inicialmente representam a natureza nos seus mais afastados extremos, ou seja, a plenitude e perfeição da Oferta para TODOS os nossos pecados.
  2. Devemos ainda lembrar que o cedro fala da humanidade incorruptível de Nosso Senhor Jesus Cristo e o hissopo fala de Sua fragrância: “o Bom Perfume de Cristo”. Isto fala de RESTAURAÇÃO.

O Significado do Carmesim

O carmesim é encarada por todos aqueles que têm examinado atentamente as Escrituras neste ponto como figura ou expressão do esplendor humano, grandeza mundana, da glória do homem.

“Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo”. Aqui, no Salmo 22:6 temos a expressão “verme” tendo em sua tradução do hebraico o significado de tecido escarlate, verme, carmesim. Veja que este Salmo está no contexto do sacrifício vicário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por isso, vemos na queima da bezerra ruiva o fim de toda a grandeza humana, da glória humana e a forma como a carne é posta completamente de lado com tudo quanto lhe pertence.

Isto faz com que o ato de queimar a bezerra ruiva seja profundamente significativo, verdade muito pouco conhecida e, quando conhecida, facilmente esquecida – uma verdade incluída nestas memoráveis palavras do apóstolo:

“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mime eu para o mundo” (Gl 6:14).

Somos todos inclinados a aceitar a cruz como a base de libertação de todas as consequências dos nossos pecados e de plena aceitação por Deus, e, ao mesmo tempo, recusamo-la como a base da nossa completa separação do mundo.

Decerto, é, graças e louvores sejam dados a Deus, o fundamento sólido da nossa libertação da culpa e sua consequente condenação; mas é mais do que isto: separou-nos para sempre de tudo que pertence a este mundo, através do qual estamos passando. Os meus pecados estão tirados? Sim; bendito seja o Deus de toda a graça! Em virtude de quê? – Em virtude da perfeição do sacrifício expiatório de Cristo na apreciação do próprio Deus.

Pois bem, tal é precisamente a medida da nossa libertação deste presente século mau – dos seus costumes, das suas máximas, dos seus hábitos, dos seus princípios. O crente nada tem absolutamente de comum com este mundo, na proporção em que entra no espírito e poder da cruz do Senhor Jesus Cristo.

Essa cruz desalojou-o de tudo no mundo e fez dele um estrangeiro e peregrino na terra. O coração verdadeiramente consagrado vê as sombras carregadas da cruz pairando sobre todo o brilho e esplendor, a pompa e a forma deste mundo. Paulo viu isto e a sua visão levou-o a considerar o mundo, em todos os seus mais elevados aspectos, nas suas formas mais atrativas, nas suas mais brilhantes glórias, como esterco.

Tal era o apreço formado acerca deste mundo por um que havia sido educado aos pés de Gamaliel. “O mundo está crucificado para mim”, disse ele, “e eu para o mundo.” Tal era Paulo, e assim deveria ser todo o cristão – um estrangeiro na terra, um cidadão do céu, e isto não meramente em sentimento ou teoria, mas em fato e realidade; porque, tão certo como a nossa libertação do inferno é mais do que um mero sentimento ou uma teoria, assim é seguramente a nossa separação deste presente século mau. Uma coisa é tão positiva e verdadeira como a outra.

Mas, queremos perguntar, por que não é esta grande verdade prática mais compreendida pelos cristãos renascidos no momento presente? Por que somos tão vagarosos em insistir uns com os outros por uma separação no poder da cruz de Cristo?

Se o meu coração ama Jesus, não buscarei um lugar, uma porção, ou um nome onde Ele encontrou apenas a cruz de um malfeitor. Isto, prezado leitor, é o modo mais simples de encarar o assunto. Ama realmente a Cristo?- O seu coração foi tocado atraído pelo Seu maravilhoso amor por si? Se é assim, lembre-se de que Ele foi rejeitado por este mundo.

Sim, Jesus foi e ainda é rejeitado por este mundo. Nada mudou. O mundo é ainda o mundo; e note-se que uma das invenções de Satanás é induzir as pessoas que aceitam a salvação de Cristo a recusarem ser identificadas com Ele na Sua rejeição – a aproveitarem-se da obra expiatória da cruz enquanto se estabelecem comodamente no mundo, que está manchado com a culpa de haver pregado Cristo nessa cruz.

Por outras palavras, induz as pessoas a pensarem e a dizerem que a afronta da cruz acabou; a que o mundo do século dezenove é totalmente diferente do mundo do primeiro; que se o Senhor Jesus estivesse agora na terra, seria tratado de um modo muito diferente de aquele que então recebeu; que não se trata agora de um mundo pagão, mas de um mundo cristão, e que isto faz uma diferença fundamental; que hoje é completamente justo um cristão aceitar cidadania neste mundo, ter um nome, um lugar, uma porção, visto que não é absolutamente o mesmo mundo que pregou na cruz do Calvário o Filho de Deus.

Ora nós sentimos que é do nosso dever instar com todos os que leem estas linhas que isto é, na verdade, uma mentira do principal inimigo das almas. O mundo não mudou, pode ter mudado na aparência, mas não mudou a sua natureza, o seu espírito, os seus princípios.

Aborrece Jesus tão cordialmente como quando se ouviu o grito “Fora com Ele! Crucifica-O!” Não existe realmente mudança. Se apenas experimentarmos o mundo pelo mesmo grande teste, descobriremos que é o mesmo mundo mau, que aborrece Deus e rejeita a Cristo como sempre. E qual é o teste? Cristo crucificado.

Que esta verdade solene seja gravada em nossos corações! Possamos nós realizar e manifestar o seu poder formativo! Que esse poder nos separe completamente de tudo que pertence ao mundo! Possamos nós compreender mais claramente a verdade apresentada nas cinzas da bezerra ruiva! Então a nossa separação do mundo e a nossa consagração a Cristo serão reais e intensas. Que o Senhor, em Sua inexcedível bondade, permita que assim possa ser com todo o Seu povo, nestes dias de profissão falsa, parcial e mundana!

As Manchas e as Cinzas

Consideremos agora, por um momento, a forma como as cinzas deviam ser aplicadas.

“Aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias. Ao terceiro dia, se purificará com água e, ao sétimo dia, será limpo; mas, se ao terceiro dia se não purificar, não será limpo ao sétimo dia. Todo aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem que estiver morto, e não se purificar, contamina o tabernáculo do SENHOR; e aquela alma será extirpada de Israel; porque a água da separação não foi espargida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia” (versículos 11-13).

E uma coisa solene ter que tratar com Deus – andar com Ele, dia a dia, no meio de uma cena contaminada e contagiosa. Deus não pode tolerar qualquer impureza naqueles com os quais condescende andar e nos quais habita. Pode perdoar e apagar os pecados; pode curar, limpar e restaurar; mas não pode aprovar no Seu povo o mal que não seja julgado, nem pode permiti-lo.

Seria uma negação do Seu próprio nome e da Sua natureza se o fizesse. Isto é ao mesmo tempo solene e muito animador. E nosso gozo termos de tratar com Aquele Cuja presença requer e garante a santidade. Estamos de passagem por um mundo em que estamos rodeados de influências corruptoras. Verdade é que a contaminação não é agora contraída por tocar “um corpo morto, ou os ossos de algum homem ou a uma sepultura.”

Estas coisas eram, como sabemos, figuras de coisas morais e espirituais com as quais estamos em perigo de entrar em contato diariamente e a toda a hora. Não duvidamos que aqueles que têm muito que fazer com as coisas deste mundo, sentem de uma maneira penosa a imensa dificuldade de sair delas com as mãos limpas. Daí a necessidade de uma santa vigilância em todos os nossos hábitos e relações, não seja o caso de contrairmos contaminação e interromper a comunhão com Deus. Ele quer ter-nos em estado digno de Si Mesmo. “Sede santos, porque eu sou santo.”

Mas o leitor sincero, cuja alma aspira à santidade, pode avidamente perguntar: “Que devemos, então, fazer, se é verdade que estamos rodeados por todos os lados de influências corruptoras, se somos tão inclinados a contrair essa contaminação? Além disso, se é impossível ter comunhão com Deus com mãos manchadas e uma consciência acusadora, que devemos fazer?”

Antes de tudo, pois, devemos dizer, sede vigilantes. Contai sinceramente com Deus. Ele é fiel e misericordioso – um Deus que ouve e responde à oração – um Dador liberal e que não dirige reprovações. “Ele dá mais graça.” Isto é positivamente um cheque em branco que pode ser preenchido pela fé em qualquer momento.

E o propósito real da tua alma prosseguir ou avançar na vida divina e crescer em santidade?- Então tenha cuidado na maneira como continuas, porque uma simples hora de contato com o que mancha as tuas mãos e fere a tua consciência entristece e também mancha a tua comunhão.

Sê decidido. Não sejas de coração dobre. Larga imediatamente a impureza, seja qual for, os hábitos, relações ou qualquer outra coisa. Custe o que custar, renuncia a todas elas. Seja qual for o prejuízo, renuncia a tudo. Nenhum interesse mundano, ou vantagem terrestre pode compensar a perda de uma consciência pura e um coração sossegado e a luz do semblante do Pai celestial. Não estás convencido disto? Se estás, busca graça para pores em prática a tua convicção.

Mas, pode perguntar-se: “Que deve fazer-se quando se contrai contaminação? Como deve remover-se a corrupção?” Escutemos a resposta em linguagem figurativa de Números 19:

“Para um imundo, pois, tomarão do pó da queima da expiação e sobre ele porão água viva num vaso. E um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a espargirá sobre aquela tenda, e sobre todo o fato, e sobre as almas que ali estiverem, como também sobre aquele que tocar os ossos, ou a algum que foi morto, ou que faleceu, ou uma sepultura. E o limpo, ao terceiro e sétimos dias, espargirá sobre o imundo; e, ao sétimo dia, o purificará; e lavará as suas vestes, e se banhará na água, e à tarde será limpo” (versículos 17-19).

O leitor dirá que, nos versículos doze e dezoito, é mostrada uma dupla ação. Há a ação do terceiro dia e a ação do sétimo. Eram ambas essencialmente necessárias para remover a contaminação cerimonial causada pelo contato com as diversas formas de morte acima especificadas. Ora, o que era simbolizado por este duplo ato? O que é que, na nossa história espiritual, corresponde a esse ato?

Cremos que é isto: Se, por falta de vigilância e energia espiritual, tocamos alguma coisa impura e ficamos contaminados, podemos desconhecer esse fato, mas Deus sabe tudo sobre o assunto. Ele tem cuidado de nós e vela por nós; não como juiz indignado, bendito seja o Seu nome, ou um austero crítico, mas como um Pai amantíssimo, que nunca nos imputará coisa alguma, porque tudo foi, há longo temo, imputado Aquele que morreu em nosso lugar.

Contudo, embora nada nos seja imputado por Ele, não deixará de nos fazer sentir o mal profunda e vivamente. Será um fiel repreensor do que é impuro, e pode reprovar tudo tanto mais energicamente quanto é certo que nunca o considera contra nós.

O Espírito Santo traz o nosso pecado à memória e isto causa ao coração inexprimível angústia. Esta angústia pode continuar por algum tempo. Pode dar instantes, dias, meses ou anos.

A Ação do Terceiro e Sétimo Dias

Certa vez um jovem cristão que se havia considerado infeliz durante três anos por ter ido numa excursão com alguns amigos mundanos. Cremos que esta convicção do Espírito Santo está simbolizada pela ação do terceiro dia.

Ele recorda-nos o nosso pecado, e então traz à nossa memória e aplica às nossas almas, por meio da Palavra escrita, o valor da morte de Cristo como o que já tirou a contaminação que tão facilmente contraímos. Isto corresponde à ação do sétimo dia — tira a contaminação e restaura a comunhão.

E recorde-se atentamente que nunca podemos ser libertados da contaminação de qualquer outro modo. Podemos procurar esquecer, curar ou passar ligeiramente sobre a ferida, fazer pouco caso do assunto ou deixar ao tempo o cuidado de o apagar da nossa memória.

Mas isto de nada valerá; ou antes, é trabalho perigoso. Não há nada mais desastroso do que gracejar com a consciência ou os direitos da santidade. E é tão insensato como perigoso; porque Deus tem, em Sua graça, preparado o meio de remover impureza que Sua santidade detecta e condena. Mas a impureza tem de ser removida, de contrário a comunhão é impossível. “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” (Jo 13:8).

A suspensão da comunhão do crente corresponde a extirpação de um membro da congregação de Israel. O cristão não pode jamais ser separado de Cristo; mas a sua comunhão pode ser interrompida por um simples pensamento pecaminoso, e esse pensamento pecaminoso tem de ser julgado e confessado e a sua mancha tirada, antes que a comunhão seja restaurada. É bom lembrar isso.

É uma coisa grave gracejar com o pecado. Podemos estar certos de que não é possível comunhão com Deus e andar em contaminação. Pensar isso é blasfemar o próprio nome, a própria natureza e o trono da majestade de Deus. Não, prezado leitor, devemos conservar uma consciência limpa, e manter a santidade de Deus, de contrário em breve faremos naufrágio da fé e cairemos de todo.

Que o Senhor nos mantenha andando suave e ternamente, vigiando e orando até que temos posto de lado os nossos corpos do pecado e morte e entrado nesse bendito e resplandecente mundo celestial, onde o pecado, a morte e a contaminação são desconhecidas.

No estudo das ordenações e cerimónias da dispensação levítica, nada é tão notável como o cuidado cioso com que o Deus de Israel velava sobre o Seu povo a fim de que ele pudesse ser preservado de toda a influência de contaminação. De dia e de noite, acordados ou a dormir, em casa ou fora de casa, no seio da família e no caminho solitário, os Seus olhos estavam postos neles. Cuidava do seu alimento, do seu vestuário, dos seus hábitos e utensílios domésticos.

Instruiu-os cuidadosamente quanto ao que podiam e não podiam comer, acerca do que podiam e do que não podiam vestir. Manifestou-lhes também claramente os Seus pensamentos acerca do contato e manejo das coisas. Em suma, rodeou-os de barreiras amplamente suficientes, se tão somente lhes tivessem prestado atenção, para resistirem à corrente de contaminação a que estavam expostos de todos os lados.

Em tudo isto, lemos em caracteres inconfundíveis, a santidade de Deus; mas lemos claramente também a graça de Deus. Se a santidade divina não podia consentir contaminação sobre o povo, a graça divina proveu amplamente à sua remoção. Esta provisão é manifestada no nosso capítulo sob dois modos, a saber: o Sangue da expiação e a água da separação.

Que preciosa provisão! Uma provisão que ilustra, ao mesmo tempo, a santidade e a graça de Deus. Não conhecêssemos nós a ampla provisão da graça divina, então os direitos elevados da santidade divina seriam inteiramente esmagadores; mas estando seguros da primeira, podemos regozijar-nos de todo o coração na última. Poderíamos nós desejar ver o padrão da santidade divina rebaixado no mínimo? Longe de nós tal pensamento.

Como poderíamos sentir tal desejo, visto que a graça divina proveu amplamente o que a santidade divina requeria?- Um israelita podia se estremecerão ouvir palavras como estas: “Aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias.” E, também: “aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem que estiver morto, e não se purificar contamina o tabernáculo do SENHOR; e aquela alma será extirpada de Israel.” Tais palavras podiam, na verdade, apavorar o seu coração. Podia sentir-se levado a exclamar: “Como poderia eu jamais escapar à contaminação?

Mas, então, e as cinzas da bezerra queimada?- E a água da separação”? O que significavam? Mostram o memorial do sacrifício da morte de Cristo, aplicada ao coração pelo poder do Espírito de Deus.

“Ao terceiro dia se purificará com ela, e ao sétimo dia será limpo; mas, se ao terceiro dia se não purificar, não será limpo ao sétimo dia.”

Se contraímos contaminação, ainda que seja por negligência, essa contaminação deve ser removida, antes da nossa comunhão pode ser restaurada. Contudo, não podemos libertar-nos da mancha por qualquer esforço da nossa parte. A contaminação só pode ser removida pelo uso da provisão graciosa de Deus, a água da purificação. Um israelita não podia remover por seus próprios esforços a contaminação causada pelo contato de um corpo morto, do mesmo modo que não tinha podido partir de Faraó ou libertar-se do azorrague dos exatores de Faraó.

Cristo: O Sacerdote e o Advogado

E devemos notar que não era uma questão de oferecer um novo sacrifício nem de nova aplicação do sangue. É da máxima importância que isto seja claramente compreendido. A morte de Cristo não pode ser repetida.

“Sabendo que, havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado, mas, quanto a viver, vive para Deus” (Rm 6:9-10).

Estamos, pela graça de Deus, sobre o pleno valor da morte de Cristo; mas visto que estamos rodeados por todos os lados por tentações e ciladas; e visto que temos em nós tais aptidões e tendências; e, além disso, visto que temos um adversário poderoso que está sempre alerta para nos enredar e nos arrastar do caminho da verdade e pureza, não poderíamos avançar um só momento se não fosse a forma graciosa com que o nosso Deus tem providenciado para todas as nossas necessidades pela preciosa morte e prevalecente advocacia de nosso Senhor Jesus Cristo.

Não só fomos lavados de todos os nossos pecados e reconciliados com um Deus santo pelo sangue de Jesus Cristo, como “temos um advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. “Ele vive sempre para interceder por nós”, e “é poderoso para salvar até ao fim os que por ele se chegam a Deus”.

Está sempre na presença de Deus por nós. Representa-nos ali e mantém-nos na integridade divina do lugar de parentesco em que a Sua morte expiatória nos tem colocado. O nosso caso nunca poderá, de modo algum, ser perdido estando nas mãos de um tal Advogado. Ele terá de deixar de viver, antes que o mais fraco dos Seus santos possa perder-se. Estamos identificados com Ele e Ele está identificado conosco.

Ora bem, prezado leitor, qual deve ser o efeito prático de toda esta graça sobre os nossos corações e as nossas vidas? Quando pensamos na morte, e na queima – no sangue e nas cinzas – do sacrifício expiatório e na intercessão do Sacerdote e Advogado, que influência deve isso exercer sobre as nossas almas? Como deve atuar sobre as nossas consciências? Deve levar-nos a menos prezar o pecado?

Deve induzir-nos a andar descuidada e indiferentemente? Deve ter efeito de nos tornar frívolos e descuidados nos nossos caminhos? Ai coração que assim possa pensar! Podemos estar seguros disto: o homem capaz de tirar um pretexto dos ricos recursos da graça divina por ligeireza de conduta ou frivolidade de espírito conhece pouco, se é, na verdade, que conhece alguma coisa, da verdadeira natureza ou própria influência da graça e dos seus recursos.

Poderíamos nós imaginar, por um só momento, que as cinzas a água da separação pudessem ter o efeito de tornar um Israelita descuidado quanto à sua conduta? Não, certamente.

Pelo contrário, o próprio fato de haver sido preparado um tal recurso, pela bondade de Deus, contra tal contaminação, devia fazer-lhe sentir quão grave era contraí-la. Tal seria, pelo menos, o efeito próprio dos recursos da graça divina. O montão de cinzas depositado num sítio limpo oferecia um duplo testemunho: dava testemunho da bondade de Deus e proclamava a natureza odiosa do pecado. Declarava que Deus não podia consentir impureza sobre o Seu povo; mas declarava também que Ele tinha provido os meios de a remover.

É inteiramente impossível que a bendita doutrina da aspersão do sangue, das cinzas e da água da separação seja compreendida sem produzir um santo horror do pecado em todas as suas formas de contaminação. E, demais, podemos asseverar que aquele que alguma vez sentiu a angústia de uma consciência manchada não pode contrair frivolamente contaminação. Uma consciência pura é um tesouro precioso demais para ser levianamente abandonado; e uma consciência manchada é um fardo demasiado pesado para se tomar com ligeireza.

Mas bendito seja o Deus de toda a graça. Ele tem providenciado para todas as nossas necessidades de uma maneira perfeita; e, providenciou desta maneira, não para nos tornarmos negligentes, mas para nos tornar vigilantes, “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis.” Mas logo em seguida acrescenta, “e, se alguém pecar, temos um advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2:1-2).

“Isto lhes será por estatuto perpétuo; e o que espargir a água da separação lavará as suas vestes; e o que tocar a água da separação será imundo até à tarde. E tudo o que o imundo tocar também será imundo; e a alma que o tocar será imunda até à tarde” (versículos 21 e 22).

O que significam os versículos 18 a 22?

No versículo 18 aprendemos que era necessária uma pessoa limpa para espargir a imunda; e no versículo 21 é dito que o ato de espargir outro contaminava o que fazia aspersão.

Juntando estes dois fatos, nós aprendemos, como alguém disse: “Que aquele que tem de tratar do pecado de outro, ainda que seja por dever, para o limpar, é ele mesmo contaminado; não como uma pessoa culpada, verdade seja, mas não pode tocar o pecado sem ser contaminado.”

E aprendemos também que, a fim de guiar outro ao gozo da virtude purificadora da obra de Cristo, nós próprios temos de estar no pleno gozo dessa obra purificadora. E bom recordarmos isto.

Aqueles que aplicavam a água de separação aos outros tinham que usar essa água para si próprios. Que as nossas almas compreendam bem isto! Possamos nós permanecer sempre no sentimento da perfeita pureza em que a morte de Cristo nos introduz e na qual a Sua obra sacerdotal nos mantém! E, oh! esqueçamos nunca que o contato com o mal contamina! Era assim sob a dispensação mosaica, e é assim agora.