Dízimo E Primícias Parte 01

 

Sumário

Dízimo e primícias

Etapas do estudo

Etapa 01

Etapa 02

Etapa 03

Dízimos

1ª Etapa – Passo 01 – Gêneses 14:1-20

Dízimos

1ª Etapa – passo 02 – Gênesis 28:18 – 22

Dízimos

1ª Etapa – Passo 03 – Lucas 27:30-32

Primícias

2ª Etapa – Passo 01 – Gêneses 04:1-7

Primícias

2ª Etapa – Passo 02 – Gêneses 49:1-4

Primícias

2ª Etapa – Passo 03

3ª Etapa – Passo 01 – ÊXODO 34:18-22

3ª Etapa – Passo 02 – Lucas 23:9-21

O Pentecostes

3ª Etapa – Passo 03 – Lucas 23: 33-43

4ª Etapa – A visão do Apóstolo em conexão com o Antigo Testamento

Desmistificando o Dízimo

1. Introdução

2. Um Pouco de História

O oriente próximo antigo

O povo de Israel

O dízimo e a Igreja

3. A Visão Reformada do Dízimo

4. A Torá- A Tradição Rabínica

A tribo de Levi

A instituição do dízimo na Torá

O primeiro dízimo

O segundo dízimo

O dízimo do pobre

A tradição Rabínica

Uma crítica histórica

5. A Torá – O Sentido dos Textos

Introdução

Pressupostos do dízimo

Os valores associados ao dízimo

O dízimo como expressão de uma cultura

A refeição cultual

6. A Contribuição No Novo Testamento

Introdução

Os evangelhos

O livro de atos

As cartas gerais

O sustento dos obreiros

7. A Síntese Paulina

Textos básicos

O ensino do apóstolo Paulo

Uma filosofia de vida

8. Uma Doutrina Para Hoje

Introdução

O resgate das primícias

A contribuição bíblica – A dimensão comunitária

A contribuição bíblica – A dimensão pessoal

A estrutura eclesiástica

Os obreiros

A personalidade cristã

9. Conclusão

Dízimo e primícias

O assunto do dízimo é totalmente espiritual, embora ele possua uma base literal.

Muitos entende (e descendem) que o dízimo pertence à antiga aliança, e que na nova aliança não há esta menção, não haja esta determinação.

Mas embora este seja um bom início, mesmo estes irmãos não compreenderam a plena significação do dízimo sob o ponto de vista espiritual.

O dízimo se inicia na escritura na antiga aliança e chega ao final, como uma expressão plena de sua significação espiritual, em realidade espiritual.

Deus deixou reservado nas escrituras a plena revelação desta verdade muito embora toda desvirtuação que os homens fizeram com respeito a esta tremenda realidade.

Muitos tem dado ainda o dízimo sem, na verdade, terem consciência do seu real significado, fazendo de modo religioso, muitas vezes com expressão de barganha (consciente ou não), quando não é por resultado de uma ação manipuladora e opressiva daquele que se intitulam “lideres cristão”.

Muitos o fazem sem saber de fato se devem dar o dízimo mesmo, ou não, ou seja, fazem sem convicção; as vezes até mesmo como forma de apaziguar suas consciências culpadas.

Nesse estudo vamos compreender que não se deve dar o dízimo, assim como o temos conhecido, a despeito de quão boa séria e comprometida seja a liderança de determinada congregação.

O dizimo é algo santo e absolutamente puro diante do senhor e não aquilo que poderíamos denominar de profano, como ensinado em grande parte da igreja.

Toda vez que ouvimos a palavra dizimo devemos imediatamente nos lembrar palavra primícias, pois ambos estão relacionados, nunca devemos nos esquecer disso.

Muitos estão dando o dizimo, mas sequer tem noção que isto está associado com primícias, intimamente relacionado.

Etapas do estudo

Etapa 01

As 3 vezes que a palavra dízimo aparece em:

Etapa 02

Vamos ver a palavra primícias.

Etapa 03

Vamos analisar ambas menções sob a ótica das festas fixas do senhor, notadamente.

Veremos como o apóstolo Paulo, o maior escritor do novo testamento, interpretou as palavras dízimo e primícias no contexto da nova aliança.

Antes de iniciarmos, devemos ter em mente que ambos, Dízimo e Primícias, deveriam ser entregues ao Senhor, três vezes ao ano, e na temporada das Festas Fixas.

Neste sentido veremos a correlação de verdades extremante importantes na palavra de Deus:

Logo, havia a entrega de dízimo, 3 vezes ao ano, e isto acorria nas festas fixas.

O próprio senhor estabeleceu que o povo, em 3 oportunidades na época das festas, não deveria comparecer diante Dele de mãos vazias (Deuteronômio 16: 16-17).

  • Festa dos Pães Asmos
  • Festa das Semanas
  • Festa dos Tabernáculos

Trazer os seus dízimos, correspondia a trazer as suas primícias. Isto ficará tanto mais evidente, quanto mais avançarmos neste estudo.

O dízimo, neste sentido, não se revestia da configuração de dinheiro, ou de algum elemento diretamente relacionado a este com ouro, prata ou bronze.

Antes o que se devia oferecer a deus com o dízimo, como primícias tinha haver com oferecer.

  • Os primeiros frutos da terra
  • Os próprios “filhos” das vacas, dos bois, de tudo e qualquer tipo de animal que fosse então oferecido ao Senhor.

Isso seria as Primícias e a décima parte disso seria entregue a Deus.

Cada família deveria fazer isso 3 vezes ao ano.

E hoje? Como é tratada a periodicidade da entrega do dízimo na igreja? Doze vezes ao ano?

Mas a escritura fala de três vezes, no entanto, hoje foi “convertido” em doze vezes.

Porque é que Deus escolheu os primeiros frutos da terra, os primeiros animais (que nascerem primeiro) para que fossem entregues a Ele?

Deus não poderia ter escolhido receber ouro, prata e bronze? Aliás, para a edificação do Tabernáculo foram utilizados, ouro prata e bronze.

Mas Deus não queria ouro, prata e bronze, Ele não queria dinheiro, moeda. Ele queria os primeiros frutos da terra, dos animais, e detalhe: Sem defeito.

Tudo isso haveria de apontar para uma única realidade no futuro, tudo apontava para Messias.

Como Messias após sua ascensão, teria um Corpo então esta realidade haveria de apontar também para Seu corpo.

Porque Cristo é as Primícias e nós, seremos apresentados ao Pai como Primícias, e devemos ter em mente que é Cristo quem nos apresentará ao Pai.

Assim como Ele bendiz todas as famílias da terra, Ele distribui esta tarefa bendita para a Igreja.

A Igreja deve trabalhar abençoando todas as famílias da terra.

A semente de Abraão que é Cristo, incluindo a Igreja (o Cristo corporativo) vão abençoando todas as famílias da terra.

Ora Cristo vai entregar as Primícias para o Pai, que é a igreja sem mácula nem ruga.

Se os Dízimos no contexto da Antiga Aliança, eram entregues na temporada das Festas.

Se as Festas são, na realidade tempos determinados.

Se os elementos que Deus pede são os primeiros frutos da terra, os primeiros animais, sem defeito.

E se tudo isto apontava uma realidade espiritual única cumprida por meio da Obra Redentora do Filho.

Então devemos nos fazer uma pergunta:

  • Como a realidade espiritual do dízimo pode ser convertida em dinheiro? Não faz sentido!

Afinal os elementos da Antiga Aliança viriam a apontar para a Pessoa e Obra de Cristo.

Jesus morre justamente no dia da Páscoa, dia 14 do mês 01.

Ele ressuscita justamente nas primícias, ao terceiro dia o pentecoste “cai” justamente ao dia 50.

Na páscoa e em pentecoste já temos entrega de dízimo.

E a festa dos Tabernáculos, que fala de Milênio, também tem entrega de dízimo.

Assim como podem os dízimos serem convertidos em dinheiro? é esta a realidade?

Deus pedia os primeiros frutos da terra, os animais, que nascem primeiro e sem defeitos.

Deus comparava estes animais ao povo Dele, comparava Israel como primícias da Sua colheita, para que na realidade para a qual apontavam, que é a Pessoa e Obra de Cristo, estas coisas fossem convertidas em dinheiro? Faz sentido?

Esta “transformação” de algo tão Santo e profundo reduzido a uma questão de natureza econômica deveria nos chocar!

E isto tem contribuído, ao longo do tempo, para ocultar a revelação desta tremenda verdade!

Por este motivo devemos conhecer a verdade, e esta verdade deve libertar o povo de Deus!

O assunto do dízimo é coisa Santa e Pura. Deve estar separado do profano. Deus não quer dinheiro de ninguém.

É evidente que Deus deseja que:

  • Ajudemos, cooperemos na execução da Sua vontade.
  • Possamos contribuir, ofertar, ajudar.
  • Que sejamos generosos.
  • Mas que não venhamos a dar o dízimo em forma de dinheiro.

Há irmãos que falam que aqueles que dão o dízimo provam que amam a Deus

Há irmãos que dizem que ao dar dízimo, as pessoas deixam de ser avarentas.

Há irmãos que utilizam textos bíblicos como o relacionado aos gafanhotos mencionados em Joel, relacionando-os com demônios que vão roubar os bens do povo de Deus caso não se dê o dízimo para “a casa do Senhor”

Veja que absurdo esta interpretação:

  • Os dízimos da lei transformados em dinheiro.
  • Os gafanhotos transformados em Demônios.

Talvez seja por este motivo que aos olhos destas pessoas tanto as que dão como a que recebe o “dízimo”, a revelação esteja oculta por cauda do coração.

Vejamos então passar a uma análise detalhada através de 04 passos:

Dízimos

1ª Etapa – Passo 01 – Gêneses 14:1-20

Gêneses 14: 18-20 – Esta é a primeira vez que aparece a palavra dízimo e está relacionada com Abraão o “pai” da fé.

O contexto espiritual é profundo basta que se tome, por exemplo, o que Melquisedeque trouxe (pão e vinho) figuras bastante claras na bíblia

Mas devemos também notar que este texto traz alguns elementos significativos

  1. Está é a 1ª guerra mencionada na bíblia
  2. Os 318 homens que batalharam com Abrão são uma tipologia de Eliezer, cujo o nome significa “Deus é teu socorro”. Isto porque na gramática judaica o nome Eliezer possui a representação numérica de 318, devemos nos lembrar que Eliezer era servo de Abrão
  3. Isto é indicativo de que as batalhas são vencidas não por meio da “força do braço” humano, mas porque “Deus é teu socorro”
  4. Lembre-se que toda 1ª menção estabelece um princípio e este princípio é confirmado ao longo de toda a escritura
  5. Observe o Versículo precedente (Versículo 16), ao ferir e perseguir seus inimigos, Abrão traz de novo tudo que havia sido roubado (e nesta ordem atenção!)

Neste contexto é que Abrão dá o dízimo (1ª menção desta Palavra na Bíblia)

Ora, mas no versículo 21 diz que “então, disse o rei de Sodoma a Abrão: Dá-te as pessoas, e os bens ficaram contigo”

Ou seja, o rei de Sodoma é uma simbolização do inimigo de Deus, observe que o “adversário” prioriza as pessoas, estando disposto a deixar ir com Abrão os bens.

Mas Abrão rejeita tomar qualquer elemento dos despojos, em parte por causa da experiência relatada em Gêneses 12: 10-20, e em parte por sinalizar ter compreendido a experiência relacionada ao dízimo diante de Melquisedeque.

Este texto de Gêneses 14: 18-24 possui correlação como alguns outros textos. Logo, devemos considera-los conjuntamente buscando a revelação mais profunda deste episódio e desta realidade

Ocorre que algumas perguntas são inevitáveis

  1. Quem é Melquisedeque?
  2. Abrão deu o dízimo do que?
  3. O que Melquisedeque fez com este dízimo
  4. O dízimo de Abrão é diferente do dízimo da lei?

Vamos então aos textos para compreender melhor este episódio e tentar responder a estas perguntas.

Hebreus 5: 1-6 este texto traz um conjunto de revelações maravilhosa, mas vamos nos ater ao propósito, objetivo de nosso tema. Parece evidente que há uma correlação entre:

A expressão” Tú és meu filho, e hoje te gerei” fala que o Senhor Jesus Cristo é a expressão exata do ser do pai. Ele é a substância visível do Ser do Pai.

Isto aponta para união, vida compartilhada, ou seja, aponta para a eternidade do filho dentre outras coisas evidentemente.

Hebreus 6: 10-20 – Observe que o contexto da citação acerca de Jesus ser o percursor, tendo penetrado além do véu (simbolização do 2º véu) e em virtude disso ter se tornado Sumo Sacerdote, para sempre ” segunda a ordem de Melquisedeque” veja que o contexto inicia (Versículo 09) falando das obras dos Santos e depois passa à Obra do Santo.

Hebreus 7: 1-10 Melquisedeque é rei de Salém, ou seja, rei de paz. Observe Isaias 9:6-7 (o Senhor é o príncipe da paz)

Observe que o texto deixa claro que primeiramente se interpreta rei da justiça, depois também é rei de Salém, ou seja rei da paz”

Sem o sacrifício perfeito do filho como oferta a Deus não haveria sido manifestada a justiça pela qual Deus pode perdoar pecadores e dar-lhes a plena paz.

Ou seja, este texto associado ao anterior mostra que o filho eterno de Deus e encarnou e pagou nossos pecados na cruz para satisfazer a justiça de Deus (Romanos 5: 1-11)

O Versículo 04 nos deixa claro que Abrão “pagou o dízimo tirado dos melhores despojos”. A expressão melhores tanto indica qualidade (perfeição) como preferência, ou seja, primícias.

A palavra despojos no grego aponta para algo que é o ápice, o grau mais alto; ao mesmo tempo relaciona-se aos primeiros frutos.

Ou seja, aqui fica evidente a relação do dízimo as Primícias e não somente isto, deixa claro que tem a ver com colheita e não com dinheiro.

Observe o versículo 05 ele correlaciona o “dízimo de Abrão ao “Dízimo da Lei”, demonstrando que a realidade espiritual é a mesma.

Mas não somente isto, ao mencionar “Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o Sacerdócio tem mandamento de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora tenham estes descendido de Abraão”

Observe a palavra embora. Porque? Porque parece denotar que como estes são descendência de Abraão em tese não deveriam receber dízimos.

Observe que a questão não se refere a eventual discussão entre as famílias/tribos de Israel. Quanto ao exercício do sacerdócio, como mais à frente o autor de hebreus vai mencionar

O termo embora aplica -se aos descendentes de Abraão deixando claro que também estes deveriam dizimar, na plena acepção do significado desta palavra. Em outras palavras, porque são descendência de Abraão é que devem fazê-lo e não esquivar de fazê-lo alegando esse parentesco

Que maravilha! Este texto está apontando para o dízimo como que exercido na consciência de oferecer “aos irmãos” aquilo que recebemos por sermos descendentes de Abraão.

E isto mostra que o dízimo está relacionado aos primeiros e melhores frutos (primícias)

Salmo 110: 1-4 – Este Salmo está conectado a Salmo 8:1-9. Em ambos as ênfases estão colocadas tanto para o Senhor quando menciona “Tú és sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” ao mesmo tempo em que projeta de que forma o “meu povo” se apresentará diante Dele, voluntariamente, com Santos Ornamentos; isto é uma clara menção as Primícias.

De um lado mostra Cristo como a primícias que ofereceu a Deus Pai em sacrifício e oferta suave.

De outro lado mostra que Seus Igreja será apresentada a Ele como primícias. Isto veremos mais à frente.

Dízimos

1ª Etapa – passo 02 – Gênesis 28:18 – 22

Este texto está em um contexto profético – espiritual tremendo. Neste episódio Jacó tem um sonho onde lê” posta na terra uma escada cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela”

O que se tem aqui é certificação de Deus a Jacó que o Senhor haveria de “abençoar todas as famílias da terra”

Ora, o que está em vista aqui é a salvação universal proferida aos patriarcas e que seria cumprida nas duas casas de Israel (ver estudos sobre as 2 casas)

Ou seja, o contexto tem a ver com o propósito eterno de Deus de salvar toda humanidade que voluntariamente acolher seu infinito amor.

Não é à toa que esta é a primeira coluna erguida por Jacó. O fato de ser a 1ª estabelecer alguns princípios:

  1. De que a obra é de Deus (anjos subiam e desciam). Ora os anjos” são espíritos ministrados enviados a favor daqueles que hão de herdar a salvação
  2. A pedra foi utilizada para ergui uma coluna. Coluna fala de testemunho. De um lado isso representa Cristo e sua igreja, afinal o apóstolo Pedro disse: “chegando – vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual, para serdes Sacerdócio Santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (1ª epistola de Pedro 2: 4-5).
  3. Aquele local se deu o nome de Beter” a casa de Deus”

Muitos irmãos defendem a ideia que Jacó a partir do Versículo 20 até o Versículo 22, passa a barganhar com deus, muito embora a promessa incondicional de Deus a ele.

Jacó faz um voto:

  • Se Deus for comigo
  • Se Deus me guardar
  • Se Deus me der pão para comer e roupa para vestir
  • Se Deus me fizer voltar em paz para a casa do pai
  • Então o Senhor será o meu Deus
  • Então a pedra que ergui como coluna, será a casa de Deus
  • Então de tudo que me concederes eu te darei o dízimo

Muito embora esta seja uma interpretação coincidente com o suplantador egocentrado Jacó, quando se estuda sobre sua vida e caminhada com o senhor.

Percebe-se claramente seu discernimento espiritual e o fato que ele deu cumprimento a este dízimo quando deu seu filho Efraim como primícias para Deus.

Alguns podem pensar: mas Efraim não é filho de Jacó, se não que é filho de José. A estes que assim pensam recomendamos consultar Gêneses 48: 1-20, notavelmente o versículo 05.

O discernimento espiritual de Jacó evidenciado quando analisamos em detalhes algumas passagens, dentre elas:

Mas fica uma pergunta: como Jacó “pagou” este dízimo?

Aliás, considerando que “dar o dízimo”, conforme palavras de Jacó em Gêneses 28:22, estava relacionado com algo que sucedem tão grande revelação em sonho concedido a ele, e considerando tal grandeza de revelação como podemos supor que o dízimo ao qual ele se referia teria sua expressão como dinheiro em nossos dias?

Por evidente, fica claro que isto não pode ser assim. O dízimo possui outra realidade nesse contexto, em alinhamento com o todo da revelação sobre este tema, que tem natureza espiritual e que tem a ver com o eterno propósito de Deus.

Jacó deu o dízimo sim. E ele o fez por meio de deus filho isto fica claro nas escrituras.

Se inicia como sombra, mas fica claro como realidade, principalmente no contexto da nova aliança.

O dízimo estava relacionado às doze tribos e ao cumprimento através de Jacó, das promessas feitas aos patriarcas Abraão e Isaque (também a Jacó) de que “em ti serão benditas todas as famílias da terra”

Há que entender que o dízimo traz consigo a ideia de fazer justiça, o dízimo cuidava da viúva, dos pobres, dos necessitados e dos levitas.

Afinal, ao darem o dízimo, o povo fazia justiça e com base neste ato de justiça (ao contexto da antiga aliança) o povo era eleito por Deus.

Tudo isto é uma figura da justiça perfeita cumprida pelo filho na cruz, no futuro

Observe que há uma única linha de revelação que correlaciona

Dízimos

1ª Etapa – Passo 03 – Lucas 27:30-32

Aqui há uma ênfase clara que todas as dízimas da terra, tanto dos cereais do campo como dos frutos das árvores são do Senhor

Ou seja, toda décima parte, mas já como vimos, especialmente através dos textos em Gêneses 14: 18-20 e suas conexões (Hebreus 5:1-6, Hebreus 6:10-20 e especialmente Hebreus 7:1-10) das primícias.

Ou seja, trata-se do dízimo das primícias, inclusive porque as primeiras colheitas são as melhores. Esta passagem sintetiza as prescrições relativo ao dízimo no tempo da Lei

Primícias

2ª Etapa – Passo 01 – Gêneses 04:1-7

Gêneses 04: 01-07 – Neste contexto várias coisas nos chama a atenção, mas especialmente devemos atentara uma questão: o que é proceder bem e o que é proceder mal?

Pontos importantes a serem considerados

A- 1 Caim Hebraico, possessão, raiz da palavra, lança
2 Abel Hebraico, fôlego, raiz da palavra, vapor

B – Isto sugere, no contexto, que Abel tinha certa consciência de nada ser, de ser um sopro, um vapor, um nada. Está subjacente a ideia de humildade, de não jactância, de não presunção, de não ao orgulho, dentre outras.

C- Já Caim possui um nome bem característico da natureza humana egocentrada: possessão. A raiz da palavra é significativa: lança. Atenção verifique depois a diferença entre ser lança (título ou figura atribuída a natureza humana pós queda) e sem flecha (notadamente quando o contexto a relacionada aos “filhos de Deus”) não bastasse isto, sendo Queneu há uma relação implícita com os midianistas (palavra que significa conflito, contenda)

D – Caim era lavrador, mas observe que a terra havia sido amaldiçoada (Gêneses 3: 17-18) é claro que os frutos de uma terra amaldiçoada não poderiam ser aceitáveis diante de Deus.

E – Como, após a queda, a terra viria a produzir cardos e abrolhos e, considerando que o homem é comparado às árvores por toda a bíblia, resta entender que os frutos desta árvore são mera simbolização das “produções humanas” fora de Deus.

F – Há muito o que falar sobre isto, mas seria mais conveniente considerar isto à luz da parábola do semeador em conexão com os resumos sobre a botânica bíblica – as árvores

G – Agora, o elemento central que os diferia tem a ver com duas figuras essenciais:

  1. Caim não trouxe das primícias do fruto da terra, enquanto Abel trouxe não só das primícias do seu rebanho, mas da gordura deste.
  2. Abel sinaliza que para, após a queda, oferecer-lhe algo a Deus, uma vida substantiva deveria ser oferecida, uma clara figura que aponta para o osso senhor e salvador – Jesus Cristo.

Obs: Abel trouxe algo que é primícias, ou seja, os primeiros frutos, o ápice daquilo que lê poderia oferecer a Deus; o melhor, o mais excelente.

Deus se agradou da oferta de Abel e não se agradou da oferta de Caim.

Ora, mas Deus não come nada, nem bebe nada. Logo, a questão não é a essência do conteúdo, mas a essência de conteúdo do ofertante.

Ao ofertar coisas, o que diferencia a aceitação por parte de deus é o coração, a essência de conteúdo do ofertante

Ambos sabiam que deus havia criado todas as coisas Caim sabia que se deus não desse chuva e sol, não havia colheita

Abel sabia que os animais foram criados por Deus, ou será que o pai/mãe de ambos nada lhes contaram sobre os eventos anteriores?

Logo oferecem algo a Deus, nesta consciência, deve ser das primícias, do melhor, e com um coração humilde, grato e sem nenhuma justiça própria como se “procedesse de nós”

Logo, em essência Deus se agradou de Abel porque ele ofertou das suas primícias, do melhor do seu rebanho. Caim não. Ofertou aquilo que não era o melhor, as primícias.

Primícias

2ª Etapa – Passo 02 – Gêneses 49:1-4

Gêneses 49: 1-4 – Ruben perdeu o direito de primogenitura. Ele era as primícias de Jacó. Ele era o primogênito.

Ele perdeu este direito, mas para quem? Em Gêneses 48: 1-5, Jacó toma os dois filhos de José para si, o Versículo 05 deixa isto claro. E, ao fazê-lo, ele abençoa a Efraim (que significa frutífero) na frente de Manassés (Gêneses 48: 14-16)

Efraim então, recebe o direito de primogenitura. Podemos confirmar isto através do 1º livro de Crônicas 5: 1-2

Quando estudamos sobre as duas casas de Israel, entendemos o porquê de Jacó ter feito isto.

Isto é indicativo do cumprimento da promessa de José, de seu voto feito a deus em Gêneses 28: 22

Jacó era um homem, a despeito de todo entendimento contrário, de visão e discernimento espiritual

Jacó sabia conforme promessa de deus, que de sua descendência, deus faria multidão de povos, ou conforme Gêneses 35: 11, uma nação e multidão de nações

casa de Judá casa de Israel

Judeus Gentios

Deus toma os filhos de José (figura do salvador do mundo) e os faz “filho de Jacó”, na tipologia, para que por tempo de Efraim (frutífero/ a benção de Abraão chegasse a todas as nações

Frutífero já tem a ver com “frutos da terra”. Aqui vemos o significado conjunto, em Jacó, do cumprimento de oferta de primícias e do dízimo

Primícias

2ª Etapa – Passo 03

Gêneses 49:3 – a palavra primícias no Hebraico é Re’shiyth,

A raiz da palavra é a mesma de Gêneses 1:1 – Bereshite (no princípio).

Esta palavra é usada como princípio, primícias.

Êxodo 34: 26 – Wles deveriam trazer as primícias dos primeiros frutos

A palavra primícias aqui é a palavra Re’shiyth

Nem todas as palavras primícias são representadas por Re’shiyth, mas algumas dentre elas, foram especialmente colocadas porque Deus queria fazer conexão com seu Filho, e com o Corpo do seu Filho

Lucas 23:10 – a palavra primícias aqui é a palavra Re’shiyth.

Gêneses 01:01 e João 01:01 – este princípio que está no português dá uma ideia somente de início, de um começo.

No hebraico a palavra é muito mais ampla, sua tradução correta “através do princípio, deus criou os céus e a terra”

Como a palavra princípio e primícias tem a mesma raiz isso não só indica que tudo foi feito por meio do Filho como também que Deus deu Cristo como primícias para nos salvar. Isto é grandioso!

Isto está escrito em pelo menos, dois textos de forma bastante evidente – Colossenses 1: 15-20 e 1ª epistola aos Coríntios 15: 22-24

3ª Etapa – Passo 01 – ÊXODO 34:18-22

Êxodo 34: 18-22 – Isto tem a ver com primícias, notadamente de forma explicita o versículo 19

Deus está deixando claro que todas as primícias do filho de Israel, assim como dos animais é Dele.

Ao dizer que o jumento deve ser resgatado com o cordeiro, o senhor está falando de nós, basta que se estude o significado do jumento na bíblia como expressão do homem que aceita jugo, restrição e insensato.

Logo após criá-lo, o senhor afirma: “ninguém aparecerá diante de mim de mãos vazias”

Isto diz respeito às primícias devidas nas três principais festas, como consciência desta remissão do jumento

A palavra remirás é equivalente a resgatarás

Logo, para Deus, fica claro nas escrituras que todo e tudo em primeiro lugar deve ser dedicado a Ele.

  • Os frutos da terra, do campo – Dízimo
  • Os frutos de Israel, os primogênitos, “tudo o que abre a madre é meu – Dízimo
  • Todo o gado, todo o que abre a madre de vacas e de ovelhas – Dízimo

3ª Etapa – Passo 02 – Lucas 23:9-21

Lucas 23:9-21 – As primícias

No versículo 10 a palavra primícias no original hebraico é Re’shiyth

Todo o povo seria aceito, ano após ano, baseado no mover do molho das primícias perante o Senhor

Tanto o cordeiro oferecido em holocausto (Versículo 12) como estas primícias são ambas figuras representativas de Cristo

Jesus ressuscitou nas primícias, e nós não somos aceitos na base de sua ressurreição?

Na páscoa, o Senhor entrega Sua Vida na cruz como sacrifício pelos pecados.

O Pai aceita o sacrifício e, como prova disto, para a continuidade do plano de Deus, o pai ressuscita o Filho.

Então o Filho é apresentado para Deus como um cordeiro sem defeito e agora, ressuscitado, como registrado em Apocalipse, então Ele é as primícias.

Com base nas primícias da vida do Filho oferecida em sacrifício por nós, então somos aceitos

O movimento do molho das primícias aponta para a ressurreição do Filho em conexão com o futuro envio do Espírito Santo, conforme pré-anunciado por Jesus a seus discípulos antes De Seu Sacrifício Na Cruz

O Pentecostes

A nova oferta de manjares aponta para a oferta dos redimidos que agora são habitados pelo Espírito Santo

Depois temos:

Dois pães: figura das duas casas de Israel (Judeus + Gentios)

Levedados: ainda há pecado dentro de nós que deve ser removido, e o serão no dia da expiação

Por este motivo é que há o dia da expiação, temos depois da páscoa e das primícias

Os eventos da natureza espiritual futuros têm nesta tipologia todo seu tipo e simbolismo, aqui como figura, mais à frente como realidade

Isto tem a ver com o trabalho do Sumo Sacerdote que está cumprindo seu ofício Sacerdotal de abastecer de óleo o candelabro, aparar os pavios que começar a dar uma luz ofuscada, pôr em ordem os pães e acender algum candelabro que tenha se apagado, a reabastecer com as especiarias aromáticas o altar de ouro do incenso.

Em apocalipse, capítulo 1 e 2 em especial, o que vemos é o trabalho do sumo sacerdote, como acima descrito, não em figura, mas em realidade espiritual.

Para detalhamento deste aspecto consultar os resumos:

  • O candelabro, as sete igrejas e a última semana de Daniel
  • As festas fixas e a escatologia bíblica – parte 01 e 02

O outro ponto mencionado é que estes são primícias ao Senhor

No versículo 19 temos figuradamente:

  • O bode como oferta pelo pecado – figura do filho
  • Depois cordeiros de 01 ano – simbolizado 01 para cada casa e também fala do filho

No versículo 20 temos novas ofertas de movimento tendo

  • Os pães das primícias (02 pães)
  • Os dois cordeiros de um ano (02 cordeiros)

49 dias antes, o que era muito perante o Senhor era as primícias para aceitação do povo, devemos nos lembrar que eles já haviam participado da páscoa onde havia pão sem fermento

Esta festa (de pentecostes) não somente sinaliza a habitação do espírito, mas simboliza que, por meio deste, os filhos seriam também oferecidos, eles mesmos, como primícias, para uso do Sacerdote, que é o Filho.

A significação simplificada desta figura seria as duas casas de Israel, Judeus e Gentios, Santos serão ao Senhor, e o Senhor haveria de usa-los em sua obra.

Interessante notar que estas 04 primeiras festas estão interconectadas.

A festa da páscoa é uma festa de 07 dias

Antes de se findar a páscoa já se inicia todas as outras 03 festas

Ao terceiro dia temos as primícias

E, neste dia, já começa a contagem das semanas

Então, dentro da linha do tempo da páscoa, temos a festa dos Pães Asmos, já se inicia as primícias e isso só se conclui no dia do Pentecostes.

O apóstolo Paulo, tendo consciência deste derramamento do Espírito sobre as duas casas, Judeus e Gentios, utiliza desta compreensão para pregar o evangelho

É significativo pensar que Paulo estaria por considerar que” uma grande porta se abriu”, conforme 1ª Epistola aos Coríntios 16:7-9, em conexão com o Pentecostes. Certamente isto lhe serviria para explicar as duas casas de Israel, Judeus e Gentios, e o derramamento do Espírito conforme pré-anunciado em Lucas 23 e que certamente foi compreendido e proclamado pelo apóstolo Paulo

Os dois pães como primícias para o Senhor, os dois pães com fermento.

3ª Etapa – Passo 03 – Lucas 23: 33-43

Observe o versículo 39 – “Quando tiverdes recolhido os produtos da terra…” ou seja, aqui a menção ao dízimo.

03 vezes ao ano tinha o dízimo nas festas de: Pães Asmos, Semanas, Tabernáculos (Êxodo 23:14 – 19, Lucas 23: 4-21, Lucas 23: 33-44, Deuteronômio 16: 1-17)

Eles deveriam colher os primeiros frutos, as primícias, separas a décima – parte e ofertar ao Senhor

O povo fazia isto, no contexto da antiga aliança, como sobra.

A realidade corresponde que esta colheita é representativa do próprio povo “colhido”, ressurreto Diante do Senhor.

Deuteronômio 16: 13 – Observe que entre a Festa da Expiação (6ª festa) e a festa do Tabernáculos (7ª festa) eles deveriam recolher os frutos da Ceita (trigo) e do Lagar(uva)

Observe que isto, em mitologia, aponta para:

Dia da Expiação – Fala da vinda de Cristo como, a exemplo do Sumo Sacerdote na antiga aliança, Ele saía do santuário, após ter feito expiação, e então se dirige para a festa do Tabernáculo.

Festa do Tabernáculo – O estabelecimento do milênio

Logo, este ponto assinalado entre estas duas festas devem possuir algum elemento profético assinalado nas escrituras para o qual aponta a tipologia do antigo testamento.

Vejamos então em Apocalipse 7 e Apocalipse 14 onde temos, em ambos os casos em versículos específicos, a menção aos 144.000 e a entrega de primícias ao Senhor

Apocalipse 7: 1-4 – quem são os 04 anjos que estão posicionados nos 04 cantos da terra?

Quem é o anjo que sobe da nascente do sol e tem o selo de Deus vivo?

O que é o selo de Deus vivo?

Porque este anjo vai selar estes 144.000, 12.000 de cada tribo?

Os 04 anjos são representativos do povo de Deus que trabalha “selando” o povo de Deus, pregando o evangelho. O “selamento” se dá pelo crer e receber o Espírito Santo quando cremos em Jesus como Senhor e Salvador

04 Anjos falam de 04 cantos da terra, dos 04 evangelhos. Os anjos são “espíritos ministradores enviado para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação”. Neste contexto, devemos compreendê-los como portadores de mensagem da boa nova de salvação

O próprio Senhor Jesus disse que “Ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombetas, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus (Matheus 24: 31)

O Anjo que tem o selo do Deus vivo é o próprio Cristo, que trabalha selando o povo de Deus

Os 12.000 de cada tribo não é literal, mas figurativo. O número 144.000 aponta para várias realidades que agora, se veem consumadas, principalmente aquelas relacionadas a plenitude do povo de Deus (ver o número 144.000 – no significado dos números na Bíblia)

Os 144.000 apontam para a realidade de plenitude do povo de Deus, representado pelas duas casas de Israel, casa de Judá (Judeus) e casa de Israel (Gentios) no milênio – 12 x 12 x 1000 = 144.000 (ver o resumo sobre 144.00 em “apocalipse e os eventos do tempo do fim”.

Nos 12000 de cada tribo é interessante notar que não vemos nem Dã nem Efraim, porque?

Dã foi excluído do selamento porque Dã é uma figura do inimigo. Basta que se analise Gêneses 49:17 em conexões com a história da tribo de Dã

Efraim não é mencionado porque o tratamento dado a Efraim já não é mais de uma tribo, dentre as tribos de Israel, mas de um reino representado desta realidade é necessário compreender o “resumo sobre as duas casas de Israel”

Na realidade, Efraim está incluído, mas num contexto dentro de todas as tribos, exceto Judá e Benjamim, já que estas duas tribos constituem a “casa de Judá”

Atenção, Efraim não entrou nos 144.000 por intermédio de José. Não! Ele entrou por meio de Jacó e em cumprimento a palavra de Deus aos patriarcas conforme o estudo das 02 casas de Israel.

Retornando a Apocalipse 7: 9-17 vemos uma “grande multidão” de “todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do cordeiro, vestidos com vestiduras brancas e com palmas (de palmeiras) nas mãos”.

Observe que quando entendemos que Efraim está associado a” multidão de nações” então entendemos que, após o selamento, que é uma figura da plenitude dos gentios, então temos a visão dos glorificados na terra dos Tabernáculos.

Apocalipse 14: 1-5 – Aqui o Senhor acrescenta detalhes acerca dos elementos que já havia sido abordado em Apocalipse, Capítulo 07

Observe que o versículo 01 deixa mais claro que o selo de Deus citado em Apocalipse é representado pelo nome do Filho e o nome do Pai.

Os 144.000 são, eles mesmos, Primícias para Deus.

Veja que os 144.000 são representativos do Israel de Deus, a igreja. Fica claro inclusive que os 144.000 não podem ser Judeus literais, uma vez que o próprio apostolo Paulo disse em Efésios 5: 27 que Cristo tendo amado a Igreja e se entregado por ela, a estava santificando e purificando, “para a apresentar a Si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém Santa e sem defeito”.

Ora os 144.000 são castos (virgem gloriosa) e seguem o cordeiro “para onde quer que ele vá”, assim como fez Rebeca ao ser apresentada a Isaque em Gêneses 24, que tipologicamente, representa a união de Cristo e a Igreja.

E o que Rebeca disse naquele episódio: “chamaram, pois, a Rebeca e lhe perguntaram: queres ir com este homem? Ela responde: irei” (Gêneses 24: 58)

Logo, o contexto de apocalipse 14: 1-5 expressa, de fato, em realidade, o que são primícias.

Agora observe, que neste contexto utilizando a passagem já mencionada de Deuteronômio 16: 13-16, vimos que eles deveriam entre o Dia da Expiação e a Festa do Tabernáculo colher os frutos na Ceita (trigo) e do Lagar (vinho)

Veja o paralelo com Apocalipse 14: 14-20

Apocalipse 14: 14-20 – Este, que é semelhante a Filho do homem, está com uma coroa de ouro na cabeça e também uma foice afiada. Ora, isto é uma clara menção do arrebatamento. Temos a figura do trigo, da colheita das primícias para Deus, dos vencedores (pois fica muito evidente a citação deste que realiza estas coisas estar Ele mesmo com uma coroa na cabeça)

Apocalipse 14: 17-20 – refere-se claramente o juízo sobre todos aqueles que não deram credito a pregação do evangelho. Aqui o juízo no Armagedom.

4ª Etapa – A visão do Apóstolo em conexão com o Antigo Testamento

1ª Epistola aos Coríntios 15: 1-4 – A questão aqui envolvida não era a negação de Cristo como Messias, as a sua ressurreição.

Paulo então vai utilizar as próprias escrituras para demonstrar a verdade.

1ª Epistola aos Coríntios 15:19 – 23 – Cristo é as primícias dos que dormem

Paulo está ensinando a questão das ressurreições utilizando a figura das primícias

Ele estabelece uma ordem que é bíblica. Primeiro Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo na sua vinda (singular), ou seja, Paulo nem menciona mais de uma vinda, nem mais de uma ressurreição.

Cristo, como cabeça, ressuscita primeiro e depois o seu corpo ressuscita, na sua vinda. Esta é a ordem e Paulo se utiliza das primícias para demonstrá-la.

Observe que em Coríntios apresenta todo um contexto que está relacionado às festas

  • 1ª epistola a os Coríntios 5:6-8 – Páscoa e Pães Asmos
  • 1ª epistola aos Coríntios 15: 20-23 – Primícias
  • 1ª epistola aos Coríntios 14: 1-40 – Traz o efeito do Pentecostes (por exemplo)

Isto indica que o apóstolo Paulo sabia que as 04 primeiras festas já se encontravam em pleno cumprimento

1ª epistola aos Coríntios 15:51-52 – Festa das Trombetas

Observe o detalhe importante: o apostolo Paulo não colocou a ressurreição na festa das trombetas, porque Paulo sabia que ainda haveria o dia da Expiação, e nesta festa, também se tocavam Trombetas conforme explicado em Números 10:10. A demais, ainda não se havia feito a colheita necessária para Tabernáculo (Lucas 23:39) e especificada em deuteronômio 16: 13-16

Ao cumprir o dia da expiação, o senhor sai do santuário celestial, ressuscita o seu povo e vai se encontrar com eles na terra de Tabernáculo

Observe o cuidado do apóstolo Paulo! Temendo que os Coríntios associassem a festa das trombetas com a vinda do senhor, ele enfatiza que a ressurreição e o arrebatamento, guardadas sua sequência cronológica explicitada em 1ª epistola aos tessalonicenses 4:13-17, se darão somente na última trombeta.

1ª epistola aos Coríntios 15: 53 – 57 – O dia da expiação – E após, Tabernáculos

Diante de tudo isto devemos nos regulamentar:

Dízimo é dinheiro?

Não, nós somos os dízimos, nós somos as primícias.

Quando todos estiverem ressuscitados diante do Senhor, então este será

O Filho estará entregando o dízimo para o Pai, e cada um de nós, oferecendo a Deus nossos dízimos/ primícias que são as vidas que, em cooperação com o Senhor, fomos instrumentos para salvação e edificação.

Por este motivo é que Deus não aceitava prata, ouro ou bronze como oferta na entrega de primícias e sim

  • Os primeiros animais
  • Os primeiros frutos da terra
  • Os primogênitos nascidos em Israel

Isto fica tanto mais claro quanto, para retificação, Êxodo 13:1, que logo após a saída do povo do Egito, Deus afirma que todo primogênito entre os filhos de Israel, tanto de homens como animais, é Dele.

Desmistificando o Dízimo

Não, a mão de Lahweh não é muito curta para poder salvar, nem o seu ouvido tão duro que não possa ouvir.

Antes, são as vossas iniquidades que criaram um abismo entre vós e o vosso Deus.

Por causa dos vossos pecados ele escondeu de vós o seu rosto para não vos ouvir.

Por isso o juízo reto está longe de nós; a justiça não está ao nosso alcance.

Esperávamos a luz, e o que veio foram trevas; a claridade, e, no entanto, caminhamos na escuridão.

Isaías 59:1,2,9

1. Introdução

De fato, desde o pós-guerra observamos uma crescente institucionalização da Igreja, que a cada dia apresenta formas de organização mais complexas e mais bem estruturadas, exibindo em muitos casos uma burocracia administrativa digna de governos ou de grandes corporações. Se nós voltarmos para os católicos, na verdade não iremos sentir grandes alterações, pois de há muito essa igreja se mostra altamente estruturada e dirigida por uma hierarquia rígida, extensa e devidamente disciplinada por um “Código Canônico”.

Coisas assim são o reflexo de algo mais profundo que existe hoje na Igreja, embora nem sempre visível ou fácil de perceber. Um cristão só começa a pensar desse modo com relação à sua igreja quando os aspectos institucionais começam a ser mais importantes do que os aspectos essencialmente ligados à fé e ao exercício da vida cristã.

A Igreja deixou em boa medida de ser o lugar de encontro do cristão com Deus e com os seus irmãos, o lar dos aflitos, o espaço privilegiado onde o serviço generoso, oferecido em amor, contribuía para apagar as mazelas criadas pela educação insuficiente ou pela sociedade predatória em que vivemos. A Igreja voltada para a Koinonia e para o compartilhar alegre das dificuldades que nos são comuns não precisa de grandes estruturas organizacionais. Ela se basta no poder da graça, e na certeza de que não são as estruturas, mas é o amor que “cobre uma multidão de pecados” (1 Pe 4:8b).

Em muitos casos, frente aos fracos resultados que algumas dessas estruturas produzem, temos a desagradável sensação de que elas existem apenas para satisfazer o ego dos seus administradores.

Poder e status custam dinheiro. De modo que não devemos estranhar se nesta segunda metade do século a questão da contribuição dentro da Igreja tem crescido em importância, e a doutrina do dizimo tem se constituído em pilar da fé e em teste de fidelidade do membro da Igreja às suas crenças evangélicas.

Conheço bem a estrutura das despesas de uma igreja, e posso dizer sem muitas dúvidas que a parcela mais substancial das despesas de uma igreja está vinculada à manutenção de sua estrutura burocrática e eclesiástica (aqui incluído o sustento de seus ministros). Por outro lado, apenas uma parcela ínfima é destinada ao atendimento das carências das pessoas, sejam elas membros ou estranhos à comunidade.

As igrejas gastam muito e gastam mal. Fazer uma análise objetiva das despesas de uma igreja é um exercício útil e extremamente valioso, pois pode indicar-nos o grau de institucionalização que uma determinada congregação já atingiu.

A cada dia é maior a estrutura e menor o volume dos serviços prestados à igreja e à comunidade tão somente por amor e dedicação aquilo em que se crê.

É exatamente por essa razão que a questão financeira das igrejas atuais é relevante. Em primeiro lugar, porque nunca vi nenhuma delas disposta a reduzir qualquer despesa institucional, o que por um lado demonstra a seriedade com que a questão institucional é tratada, e por outro a total falta de autocrítica com relação a esse tema. E em segundo lugar, porque é um exemplo perfeito de como uma doutrina bíblica pode ser distorcida para satisfazer os interesses das burocracias eclesiásticas.

A leitura dos manuais sobre o dízimo é algo que, com poucas exceções, causa profundo mal-estar e leva qualquer cristão honesto em sua fé e dotado de algum conhecimento bíblico a preocupar-se com o significado dessa visão herética e deformada da questão, que nos casos mais sérios beira à chantagem emocional pura e simples, e nos casos mais sofisticados, a uma deturpação das Escrituras que causa constrangimento.

O propósito deste livro é examinar a questão da contribuição e do dízimo pelo lado da doutrina em si.

Analisaremos os textos bíblicos pertinentes ao tema, essencialmente todos contidos na Torah, e os consideraremos seguidamente sob o aspecto crítico, sob o aspecto da realidade histórica e bíblica do povo de Deus, e sob o ponto de vista da tradição rabínica.

Depois disso, teremos condições de estabelecer qual é a interpretação segura que devemos dar à doutrina do dízimo tal como aparece no Velho Testamento. Este será o pano de fundo que utilizaremos então, para verificar o que nos fala o Novo Testamento e qual foi a prática da Igreja primitiva.

2. Um Pouco de História

O oriente próximo antigo

Na acepção da palavra, o dízimo representa a décima parte de alguma coisa, ou de algum valor.

Quando nos referimos a valores, no entanto, o dízimo representa uma parcela de alguma propriedade, que é destinada a alguém, geralmente na forma de um tributo.

Entendido dessa forma, podemos verificar que o costume do dízimo era quase universal no mundo antigo e pode ser encontrado na Babilônia, na Pérsia, na Arábia, no Egito, na Grécia, em Roma, e até mesmo na China.

A Bíblia nos fala que, na verdade, o valor desse dizimo era de 20%: “Mas, das colheitas, deveis dar um quinto a Faraó” (cf. Gn 47:24).

Portanto, não devemos estranhar o conceito judaico de propriedade, que nos ensina que a terra pertence ao Senhor (Lv 25:23), assim como tudo que nela existe. Por isso, mais tarde, a Lei ensinará que todos os dízimos pertencem ao Senhor.

Da mesma forma, podemos assumir que o costume de dedicar o dízimo dos despojos de guerra para os deuses levou a uma nova extensão religiosa do significado dos dízimos, já que originalmente as ofertas propriamente destinadas aos deuses eram as primícias. No próprio texto bíblico encontramos um exemplo dessa prática antiga, na narrativa de Nm 31:48-54, que descreve a entrega de todo o saque de guerra obtido pelos israelitas como oferta de gratidão por não terem perdido nenhum homem nos combates.

Podemos encontrar no próprio texto bíblico um claro exemplo dessa realidade, nas palavras de Samuel aos israelitas quando eles se dirigiram ao piedoso juiz pedindo-lhe que lhes constituísse um rei: “Samuel expôs todas as palavras de Iahweh ao povo, que lhe pedia um rei. Ele disse: “Este é o direito do rei que reinará sobre vós: Das vossas culturas e das vossas vinhas ele cobrará o dízimo, que destinará aos seus eunucos e aos seus oficiais…” (1 Sm 8:15-17). Esse “direito do rei”, segundo indicam textos recentemente descobertos, representa também a prática dos reinos cananeus anteriores a Israel.

Quando voltou Abrão, depois de ter derrotado Codorlaomer e os reis que estavam com ele, o rei de Sodoma foi ao seu encontro no vale de Save (que é o vale do Rei). Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho; ele era sacerdote do Deus Altíssimo. Ele pronunciou esta bênção: “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra, e bendito seja o Deus Altíssimo que entregou teus inimigos entre tuas mãos.” E Abrão lhe deu o dízimo de tudo.

Podemos afirmar, portanto, que por trás de todas as fontes que se referem ao dízimo no Oriente Próximo Antigo, está a noção de uma taxa indispensável para a manutenção dos templos e de seus funcionários, ligada principalmente à produção agrícola e pecuária. Como se pode compreender pelos documentos mesopotâmicos, o dízimo era armazenado nas salas dos tesouros dos templos, e representantes do templo eram colocados como responsáveis pela guarda dessas mercadorias. O gado recebia uma marca do templo, e os dízimos dos grãos e das tâmaras podiam ser convertidos em dinheiro quando necessário.

O povo de Israel

No retorno do Exílio, a reforma liderada por Esdras e Neemias restaura as antigas práticas, que serão mantidas quase sem modificações durante todo o período do Segundo Templo. As coisas permaneceram dessa forma, até que o esmagamento da última revolta judaica contra o poder imperial romano levou a Palestina a ficar praticamente esvaziada de sua população judaica. Em função dessa segunda Diáspora, o judaísmo difundiu-se ainda mais por todo o Império Romano, alcançando assim uma expansão em nível mundial. A cobrança do dízimo, de acordo com os preceitos da Torah e os comentários talmúdicos, foi mantida, em dinheiro, nas comunidades judaicas da Diáspora até o início da era cristā, para atender às suas necessidades. Porém, com a destruição do Templo, gradualmente os dízimos deixaram de ser arrecadados, sendo substituídos por outras formas de contribuição.

Nas comunidades judaicas atuais o dízimo perdeu a sua referência decimal, passou a ser voluntário e foi substituído por um conjunto de contribuições para fins de culto, previdência social e beneficência.

Como se vê, o dízimo não era uma questão de fé ou de filiação a uma determinada igreja, mas simplesmente um processo para obter recursos financeiros, não importa de quem, nem por que meios.

O dízimo e a Igreja

A cobrança do dízimo no cristianismo surgiu relativamente tarde, por volta do século VI, assim mesmo não sendo aceita igualmente por toda a igreja. Na Igreja do Oriente (Bizantina), o dízimo foi rejeitado, e os próprios Imperadores cristãos apunham-se à transformação das ofertas voluntárias em dízimos obrigatórios, temendo prejudicar a arrecadação dos impostos públicos. Até hoje o dízimo não existe na igreja Ortodoxa.

Embora o novo testamento reconheça que os que servem o altar têm direito a viver do mesmo, a Igreja primitiva não impôs de início o dízimo, porque as ofertas voluntárias dos fiéis bastavam para as necessidades do culto e de sustento do reduzido clero. Assim, nos três primeiros séculos do cristianismo não houve pagamento de dízimos, e muitos dos pais, como Irineu, por exemplo (séc. II), condenavam o dízimo por considera-lo legalista e ritualista, em oposição à espontaneidade das ofertas voluntárias.

Nos dois primeiros Concílios de Latrão, em 1123 e 1139, o dízimo foi finalmente sancionado e incorporado à legislação geral da Igreja, de forma definitiva. Assim, os Concílios regularam que o dízimo é uma contribuição paga a Igreja, consistindo na décima parte da renda dos fiéis.

Através desta breve história do dízimo ao longo dos quase vinte séculos de vida da Igreja, podemos notar algumas coisas importantes. Em primeiro lugar, como veremos nos capítulos 4 e 5. ao longo de toda essa história, sempre que se praticou o dízimo, nunca se levaram em conta as noções características do Antigo Testamento sobre o assunto, como a alegria, a refeição solene, a gratidão, etc. Só se olhou para o “argumento levítico”, isto é, para o mecanismo de sustento de uma estrutura clerical.

3. A Visão Reformada do Dízimo

As igrejas reformadas continuaram a adotar as mesmas práticas da Igreja medieval, apenas suavizadas não por uma questão de maior consciência doutrinária, mas simplesmente porque os novos tempos começavam a empurrar a Igreja contra a parede e a gradualmente restringir as “liberalidades que ela tinha tomado durante toda a Idade Média.

A Bíblia de Thompson, por sua vez, adota um comportamento interessante: na parte correspondente à concordância, sob o título “dizimar” relaciona apenas os textos de 1 Sm 8:15 e Mt 23:23, que não são propriamente as passagens que deveriam ser indicadas para quem busca referências em uma concordância bíblica, certamente uma pessoa que está estudando o assunto. Por outro lado, sob o título “dízimo”, relaciona as passagens relativas a Abrão e Jacó, além dos clássicos versículos de Malaquias, e a passagem de Lucas sobre a parábola do fariseu e do publicano, o que novamente representa uma relação extremamente pobre sobre o assunto. E para surpresa, na relação de temas escolhidos, sob a rubrica dar, subtítulo dízimo, encontramos os textos da Lei (Lv 27:30; Nm 18:21; Dt 12:6; 14:28; 26:12) além de textos históricos (2 Cr 31:5; Ne 10:38; 12:44; 13:12), e todos os outros textos já indicados nas rubricas anteriores. Qual é o objetivo do redator da concordância: ajudar ou dificultar a consulta?

Nessas obras prevalece uma ótica que ressalta uma espécie de confronto entre Deus e o crente. Por meio do dízimo testada a fidelidade do cristão, e a todo o instante somos desafiados a testar Deus: se dermos o dizimo, certamente seremos abençoados o dízimo é apresentado de tal forma que somos levados a crer que ele é um teste da fé pessoal de cada um, e somos ensinados que é difícil acreditar que alguém não-dizimista possa dizer que é cristão!

Curiosamente, a imensa maioria dos autores protestantes demonstra a respeito do dízimo uma visão extremamente legalista e formal, que mais se aproxima da visão rabínica e da Igreja medieval, e que se afasta até mesmo da postura moderna do Catolicismo e do próprio Judaísmo, que são bem mais flexíveis. Felizmente, pude encontrar três exceções: uma é a feliz e agradável obra de Caio Fábio D’Araújo Filho, que é uma abordagem equilibrada e profundamente comprometida com o real espírito do Novo Testamento. É uma pena que não seja uma obra exaustiva, que faça um estudo detalhado e completo do tema: Caio Fábio nem mesmo se preocupa em estudar o dízimo propriamente dito. O próprio autor descreve assim sua obra: O livro é simples, mas jorrou mais do meu peito e da fonte da minha alma inundada de sonhos e ideais do que de minha mente ou de qualquer esforço para pensar mais profundo. Por isso, não o corrigi e nem o ampliei. Deixei-o exatamente como saiu: delirante e esperançoso.

Em nenhum estudo protestante sobre o dízimo encontrei uma análise, por superficial que fosse, das ideias e dos conceitos contidos nas leis da Torá que procurasse transpor de uma forma equilibrada aquelas lições para o contexto moderno. O que se vê é uma aplicação direta e imediata do Antigo Testamento, sem qualquer preocupação em avaliar até onde é próprio e válido fazer tal aplicação. Em nenhum lugar encontrei um estudo sério sobre quem realmente eram os levitas, e nem sequer passa pela cabeça desses autores perguntar a si mesmos se por acaso existe hoje algo semelhante em nossas igrejas, a ponto de justificar a manutenção de uma contribuição como o dízimo. E por justiça, é preciso dizer que para a maioria desses autores, o texto fundamental sobre o dízimo resume-se à passagem de Malaquias (3:8-11). Por outro lado não se faz qualquer reflexão sobre as necessidades financeiras das igrejas atuais, procurando identificar se elas são legítimas e apropriadas, ou se, ao contrário, são resultado de uma ótica errada, que prestigia as grandes estruturas, a pompa eclesiástica e templos suntuosos, deixando de lado as preocupações verdadeiramente cristãs da caridade e do amor fraternal.

O que esses estudos deixam transparecer é uma atitude muito simples: as igrejas têm o direito de gastar o que bem entenderem, da forma como julgarem melhor. Por outro lado, a obrigação do crente é contribuir sem questionar.

Aliás, Caio Fábio faz o seguinte comentário, que me parece extremamente apropriado:

Nestes regimes eclesiais o povo também não tem acesso às contas da igreja. Isso nos preocupa imensamente, inclusive pelo fato de que há hoje no país uma enorme quantidade de novas e independentes igrejas, quase todas elas estruturadas a partir do modelo coronelista, de imensa autonomia para o pastor e grande isolamento para o povo.

Todos os estudos que pude examinar apresentam uma estrutura bastante semelhante: um breve comentário sobre textos do Antigo Testamento (em geral Malaquias…), uma demonstração categórica de que o dízimo também é uma doutrina do Novo Testamento, especificamente apoiada por Jesus, seguida de alguma interpretação dos textos da carta aos Hebreus, e ferminando com um duplo apelo: à fidelidade na contribuição e para que se faça um “teste” para ver se Deus não derramará copiosas bênçãos sobre o contribuinte. E aqui está a faceta grave a que me referi acima: ninguém se preocupa com a História, seja a da Igreja, seja a do povo de Deus. Ninguém se dá ao trabalho de examinar o que ocorreu nestes quase 4500 anos de História comum, e refletir sobre tudo o que já aconteceu nesse terreno. Tudo se passa como se a Igreja ou o povo de Deus não fossem realidades históricas e sociais, encaixadas em contextos em permanente mutação, que agem e pressionam a Igreja, sugerindo ideias e modelos de comportamento, valores e ideais.

As premissas que orientam as explanações sobre o dízimo estão todas apoiadas em um único ponto fundamental: não se pode confiar na contribuição espontânea – é preciso que ela seja mandatória! Sente-se que há um temor de que não sejam alcançadas as necessidades financeiras das comunidades, caso a contribuição seja entregue aos caprichos do coração! Daí a preferência ao legalismo, à visão “levítica” do dízimo, etc.

Ora, o que devemos esperar do crente: que ele seja pior ou melhor do que o meio à sua volta? Não deve ser a generosidade uma marca indelével do cristão? Não é o amor aquilo que nos move acima de todas as coisas? Então por que não confiamos em nós mesmos? Tudo parece indicar que quando o assunto é o dinheiro do cristão, as lideranças confiam mais na lei e na ordem!

Talvez a realidade social brasileira possa nos ajudar mais uma vez, se compararmos o problema da contribuição nas igrejas com a questão da sonegação de impostos. Nessa área impera em nosso país a “lei de Gerson”, de modo que todos se acham no direito de “levar vantagem” completa nas suas relações com as autoridades. E certo que esse comportamento demonstra a existência de uma enorme falha na formação moral do nosso povo, mas é igualmente correto dizer que ele também espelha, em boa dose, o descrédito e o desânimo que imperam em nosso país em virtude do descalabro administrativo, da corrupção, da incapacidade e da imoralidade que campeiam nas administrações públicas em geral. De modo que se podemos acusar o brasileiro de ser imoral em suas relações com o Estado, por certo ninguém poderá isentar o mesmo Estado de boa parcela de culpa.

Da mesma forma, na questão da contribuição em nossas igrejas, talvez tenha chegado a hora de olhar menos para a forma pela qual o povo contribui, e avaliar melhor a maneira pela qual as lideranças se conduzem. Talvez tenha chegado a hora de removermos primeiro a trave de nossos olhos para depois nos preocuparmos com o argueiro de nossos irmãos na fé.

4. A Torá- A Tradição Rabínica

As ofertas religiosas por excelência

E a primeira coisa que precisamos reconhecer é que, para a Lei Mosaica, o dízimo é uma contribuição secundária, destinada a várias finalidades ligadas ao templo, e não a contribuição de cunho religioso por excelência.

O que se quer dizer com a expressão “cunho religioso por excelência”? Essa forma de expressão quer chamar atenção para o fato de o dízimo não ser propriamente uma parte do culto e da adoração ao Senhor e Criador de todas as coisas, mas, sim, em um primeiro momento, uma oferta que os judeus entregavam para o sustento de uma estrutura clerical instituída por Deus, e mais tarde, como veremos, parte integrante dos deveres de misericórdia e caridade para com os desamparados da sociedade.

Quando examinamos atentamente a Torá, verificamos que as ofertas de cunho estritamente religioso, exigidas por Deus como parte integrante do culto e da adoração, e, portanto, revestidas de especial significação para a fé judaica, eram as primícias e os primogênitos.

Por meio das primícias e dos primogênitos somos lembrados de que Deus está no início de todas as coisas, e por isso devemos agradecer-lhe e louvar o seu nome antes de entrarmos no gozo daquilo que conseguimos mediante o nosso trabalho.

Podemos entender esse simbolismo se verificarmos as instruções do Talmude sobre as primícias. Quando o agricultor perceber que um fruto começa a amadurecer (um figo, uma romā, etc.), ele deve atar um fio colorido à volta do pecíolo do fruto, de maneira a identificá-lo. Mais tarde durante a colheita, separará todos os frutos assim marcados,

e dentre eles escolherá os melhores para apresentar como oferta de primícias. É nessa espera confiante, em busca dos sinais dos frutos que virão, que somos lembrados de que Deus está nessa atividade, e que pela sua misericórdia o milagre da vida é mantido desde o início dos tempos.

Abel traz uma oferta de gratidão; Qual o motivo que o faz agir assim? Gratidão, reconhecimento da dependência de Deus, saber que não é autossuficiente. O texto não informa que outros sentimentos estavam presentes no coração de Caim, mas o relato posterior permite supor que orgulho, vaidade e rivalidade com o irmão foram mais importantes na determinação da sua conduta.

As passagens bíblicas que estabelecem as primícias são as seguintes:

1) Ex 23:19 – Trarás as primícias dos frutos da tua terra a casa de Iahweh teu Deus.

2) Êx 34:26 -Trarás o melhor das primícias para a Casa de Tahweh, teu Deus.

Da mesma forma, as leis sobre os primogênitos são estabelecidas nestes textos:

1) Êx 13:1-2 — Iahweh falou a Moisés, dizendo: “Consagra-me todo primogênito, todo o que abre o útero materno, entre os filhos de Israel. Homem ou animal, será meu.”

2) Êx 13:11-13 – Quando lahweh te houver introduzido na terra dos cananeus, como jurou a ti e a teus pais, quando ta tiver dado, apartarás para lahweh todo ser que sair por primeiro do útero materno, e todo primogênito dos animais que tiveres: os machos serão para Iahweh. Todo primogênito da jumenta, porém, tu o resgatarás com um cordeiro; se não o resgatares, tu lhe quebrarás a nuca; mas todo primogênito do homem, entre teus filhos, tu o resgatarás.

3) Ex 22:28-29 – Não tardarás em oferecer de tua abundância e do teu supérfluo. O primogênito de teus filhos, tu mo darás. Farás o mesmo com os teus bois e com as tuas ovelhas: durante sete dias ficará com a mãe, e no oitavo dia mo darás.

4) Ex 34:19-20 — Todo o que sair por primeiro do seio materno é meu: todo macho, todo primogênito das tuas ovelhas e do teu gado. O jumento, porém, que sair por primeiro do seio materno, tu o resgatarás com um cordeiro; se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca. Resgatarás todos os primogênitos dos teus filhos. Não comparecerás diante de mim de mãos vazias.

5) Dt 15:19-23 – Todo primogênito macho que nascer das tuas vacas ou ovelhas, tu o consagrarás a Iahweh teu Deus. Não trabalharás com o primogênito das tuas vacas, nem tosquiarás o primogênito das tuas ovelhas. Tu o comerás em cada ano diante de lahweh teu Deus, tu e a tua casa, no lugar que lahweh houver escolhido. Se ele tive algum defeito – se for manco ou cego, ou tiver algum outro defeito grave –, não o sacrificarás a Iahweh teu Deus; poderás comê-lo em tua cidade, o puro junto com o impuro, como a gazela ou o cervo. Não comerás, porém, o seu sangue: derrama-o por terra como água.

A celebração da primeira páscoa, e a maneira miraculosa pela qual foram salvos os primogênitos do povo, tanto dos animais quanto dos homens. E uma lembrança que se renova a cada colheita e a cada novo nascimento, trazendo à memória a salvação e a liberdade oferecidas por Deus ao seu povo.

Tanto as primícias quanto os primogênitos são coisas santas, e como tal devem ser sem defeito, condições determinantes para poderem ser oferecidas ao Senhor e pertencerem ao sacerdote. O livro de Levítico faz uma apresentação muito significativa das primícias dos frutos de uma árvore, comparando a entrega das primícias dos frutos ao ato da circuncisão. Como sabemos, a circuncisão marca a entrada do recém-nascido para o rol do povo de Deus: antes disso ele é cerimonialmente impuro. Assim:

Quando tiverdes entrado na terra e tiverdes plantado alguma árvore frutífera, considerareis os seus frutos como se fossem o seu prepúcio. Durante três anos serão para vós como coisa incircuncisa e não se comerá deles. No quarto ano, todos os frutos serão sagrados em uma festa de louvor a lahweh. No quinto ano, podereis comer os seus frutos e recolher para vós mesmos o seu produto. Eu sou lahweh vosso Deus” (19:23-25).

Ainda em Levítico, vamos encontrar uma nova formulação para as primícias, que são agora encaixadas na sequência do ano agrícola, entre a Festa dos Azimos e a Festa das Semanas, através da oferenda do primeiro feixe da ceifa da cevada:

lahweh falou a Moisés e disse: “Fala aos filhos de Israel; tu lhes dirás: Quando tiverdes entrado na terra que vos dou e fizerdes nela a ceifa, trareis ao sacerdote o primeiro feixe de vossa ceifa. O sacerdote o oferecerá diante de lahweh, com gesto de apresentação. para que sejais aceitos… Não comereis pão, nem espigas tostadas ao pão cozido antes deste dia, isto é, antes de terdes trazido a oferenda de vosso Deus. E uma lei perpétua para os vossos descendentes, onde quer que habiteis” (Lv 23:9-14).

Como Deuteronômio estabelece que tanto as primícias como os primogênitos devem ser apresentados ao Senhor “somente no lugar em que Iahweh teu Deus houver escolhido” (Dt 12:17-19), isto é, no Templo em Jerusalém, o Talmude e a tradição rabínica posterior estabeleceram que os preceitos das primícias e dos primogênitos são obrigatórios somente na terra de Israel e enquanto o Templo estivesse de

pé.” Da mesma forma, com base em Dt 8:8, o Talmude estabelece que as primícias se aplicam apenas às Sete Categorias, isto é, os sete tipos de produtos pelos quais a terra de Israel era famosa: trigo, cevada, uvas, figos, romãs, óleo de oliva e mel de tâmaras.

Mas é em Deuteronômio que vamos encontrar o texto que qualifica da forma mais clara possível a enorme carga de significado espiritual que está vinculada às primícias e aos primogênitos. Em Dt 26:1-11 vamos encontrar a “declaração das primícias”, verdadeira confissão de fé do judeu temente a Deus:

Quando entrares na terra que Iahweh teu Deus te dará como herança, e a possuíres e nela habitares, tomarás as primícias de todos os frutos que recolheres do solo que Iahweh teu Deus te dará e, colocando-as num cesto, irás ao lugar que Iahweh teu Deus houver escolhido para aſ fazer habitar o seu nome. Virás ao sacerdote em função naqueles dias e lhe dirás:

“Declaro hoje a Iahweh meu Deus que entrei na terra que lahweh, sob juramento, prometera aos nossos pais que nos daria!” O sacerdote receberá o cesto da tua mão, colocá-lo-á diante do altar de Iahweh teu Deus, e, tomando a palavra, tu dirás diante de Iahweh teu Deus:

Meu pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu com poucas pessoas, depois tornou-se uma nação grande, forte e numerosa. Os egípcios, porém, nos maltrataram e nos humilharam, impondo-nos uma dura escravidão. Gritamos então a lahweh, Deus dos nossos pais, e lahweh ouviu a nossa voz: viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão. E lahweh nos fez sair do Egito com mão forte e braço estendido, em meio a grande terror, com sinais e prodígios, e nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra, uma terra onde mana leite e mel. E agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que tu me destes, Iahweh.

E as depositarás diante de Jahweh teu Deus, e te prostrarás diante de lahweh teu Deus. Alegrar-te-ás, então, por todas as coisas boas que Iahweh teu Deus deu a ti e à tua casa e, juntamente contigo, o levita e o estrangeiro que reside em teu meio.

Como podemos perceber, essa confissão de fé resume a história da salvação, centrada na libertação do Egito e na conquista da Terra Prometida. Os mesmos elementos se encontram nas “confissões” de Dt 6:20-23 e, com desenvolvimentos, de Js 24:1-13 e Ne 9:7-25. Da mesma forma, o texto ressalta o senhorio do Eterno sobre todas as coisas, ao comparar a terra de Israel a uma herança concedida por Deus ao seu povo.

E a parte final do texto é uma exortação enfática a desfrutar com alegria e responsabilidade os frutos decorrentes das preciosas bênçãos que são a vida, o trabalho, a colheita e a família, sem esquecer de lembrar ao judeu o seu dever primeiro de amar o seu próximo, sentindo-se responsável pelos deserdados sociais, aqui simbolizados pelo estrangeiro e pelo levita.

Assim é que temos reunidos nas ofertas das primícias e dos primogênitos todos os conceitos básicos da religião de Israel, além de podermos identificar também aqueles traços fundamentais que permeiam toda a Torá, a saber: o amor a Deus e ao próximo, a alegria, o trabalho, a gratidão pela liberdade e pela salvação, além da ideia de que a santidade deve revestir toda a atividade humana.

A tribo de Levi

Antes de entrarmos no estudo do dízimo em si mesmo, precisamos considerar a existência de uma “tribo clerical”, claramente diferenciada das demais, com atributos específicos, e cuja subsistência econômica está associada aos dízimos entregues pelo restante do povo israelita. Essa tribo é a de Levis.

O censo dos levitas foi realizado separadamente do censo geral de todos os israelitas no deserto (Nm 1:47-49), e está dito que eles foram escolhidos para esse serviço em lugar de todos os primogênitos do povo de Israel, que eram em número praticamente igual aos levitas (Nm 3:40-43). De uma certa forma, a tribo de Levi “remiu” os primogênitos de todo o povo.

O episódio do bezerro de ouro enfatiza a lealdade dessa tribo a Moisés. Nessa ocasião, os levitas destacaram-se como homens zelosos, que não poupavam irmão, amigos, ou parentes (Êx 32:25-30). Por outro lado, um reflexo da estreita ligação existente entre os levitas e a tribo de Judá pode ser encontrado na justaposição dessas duas tribos na bênção de Moisés (Dt 33: 7-9)

No curso do seu trabalho, os levitas estavam sujeitos aos sacerdotes nomeados para supervisioná-los, os quais eram membros da sua própria tribo, os descendentes dos aarônicas (Nm 1:48-53 e 3:5-40).

A superioridade dos sacerdotes aarônicas em relação aos demais levitas é expressamente ressaltada em Êxodo, Levítico e Números, e a divisão de funções entre eles está claramente definida. Aos levitas foram confiadas também responsabilidades pelo ensino, além da tarefa de carregar a Arca da Aliança (Dt 10:8 e 31:9), embora essas funções fossem reservadas principalmente para os sacerdotes, que constituíam a elite da tribo (M 2:4-8 e 3:3). De acordo com o ponto de vista de Deuteronômio, todos os levitas estavam aptos a servir no Santuário, mesmo aqueles que não tivessem funções permanentes nele (Dt 18:6-9).

A escolha dos levitas como ministros de Deus trouxe como consequência a sua transformação em uma tribo errante e dispersa, durante o período dos Juízes. A tribo eclesiástica lutou nas guerras de conquista de Canaã, nem recebeu uma alocação permanente de território contínuo, como ocorreu com todas as outras tribos. Tudo indica que mesmo ao tempo da Monarquia, os levitas que moravam nas portas das cidades ainda não possuíam seu próprio território, mas isso era explicado como sendo um sinal de status superior: “o Senhor é a sua porção” (Dt 10:9 e 18:2)

Ao que tudo indica, ao tempo de Davi e Salomão, os levitas vieram a se transformar em oficiais da corte, na época em que o próprio culto foi transformado em um instrumento para aumentar a influência da Coroa e consolidar a unidade policial e social de todo o povo. O livro de Crônicas apresenta uma série de relatos sobre o elevado status dos levitas no tempo de Davi, mesmo na administração do governo (I Cr 23 a 27). A estreita ligação entre Davi e os levitas é atestada não só pelo fato de que os levitas se encontravam entre aqueles que foram a Hebrom transferir o reinado a Davi (I Cr 12:27), mas também pela lealdade que eles continuaram dedicando aos reis da dinastia davídica até à destruição do Templo (II Cr 23:2-9; 18-19; 24:5-15; etc.).

Além dessas funções político-administrativas, os levitas conservavam as suas funções eclesiásticas originais. De acordo com I Crônicas eles eram supervisores na Casa do Senhor (23:4), atuando como coristas, músicos, guardas das portas e guardas do limiar (9:14-33). Atuavam também como oficiais, juízes, artesãos para os serviços do Templo, supervisores dos depósitos e dos pátios, e responsáveis pelos tesouros do Templo (I Cr 9:22,26-27; 23:4,28; etc.). Ao tempo de Josafá, desenvolviam uma atividade especial como disseminadores da Torá e como juízes nas cidades da em Jerusalém (II Cr 19:8,11). De acordo com Números (35:1-8), os israelitas foram instruídos, quando ainda estavam nas planícies de Moab, a separar, para os levitas, 48 cidades com faixas de terra livre fora de seus muros, distribuídas entre os territórios de cada tribo proporcionalmente ao tamanho de cada uma. As seis cidades de refúgio estão incluídas entre as 48. Em Josué 21, são citadas listas que aparentemente se originaram na mesma tradição, e a pesquisa corrente está inclinada a ver nelas um reflexo de uma situação que teria existido à época do Primeiro Templo. Uma variante da lista de Josué aparece em I Cr 6:39-66.

Não existe contradição entre o princípio de não ser dado território aos levitas e o fato de serem alocadas cidades de residência para eles, uma vez que estas eram meramente áreas residenciais e campos para os animais, sem área agrícola produtiva nenhuma. Não podemos esquecer que os levitas não eram uma ordem monástica, mas uma tribo composta de famílias. As casas nas cidades levíticas eram consideradas

Substitutos para o território, e as leis do Jubileu eram aplicáveis a elas como se fossem terras, ao contrário do que se fazia com propriedades comuns dentro das cidades com muralhas.

Essa adaptação dos levitas ao regime monárquico trouxe como consequência o fato de que os sacerdotes se permitiram a si mesmos ter também propriedades agrícolas produtivas (I Rs 2:26; Ir 32:7-16; etc.). O princípio permaneceu válido por muitas gerações, de modo que até mesmo Ezequiel, em sua visão profética, disse que no tempo futuro os levitas não mais estariam espalhados por todo o país, mas reunidos em Jerusalém, prevendo para eles uma área territorial próxima ao Templo (Ez 45:4-5; 48:11-15).

A época do retorno do exílio, as fronteiras entre sacerdotes e levitas estavam firmemente estabelecidas. Os levitas ganharam um status honroso, e até mesmo o seu pequeno número em comparação ao dos sacerdotes (Ed 2:40-42) servia como razão para engrandecê-los aos olhos do povo. No tempo de Esdras e Neemias, era necessário trazer levitas a Jerusalém, do exílio e das cidades rurais, para auxiliar nos serviços do Templo, tão reduzido era o seu número. Dessa época em diante, a divisão entre levitas e sacerdotes tornou-se algo permanente.

A instituição do dízimo na Torá

Podemos agora passar a estudar o dízimo em si mesmo, conservando em nossa memória o fato antes estabelecido: as primícias e os primogênitos são as verdadeiras “ofertas religiosas instituídas na Lei. Em todo o caso, “A Lei de Moisés” trazida da Babilônia por Esdras parece representar todo o Pentateuco já próximo de sua forma Isso fica especialmente visível na questão do dízimo, pois podemos perceber ao longo da Torá a existência de três diferentes versões para esse costume, representadas por passagens em que ele é apresentado de formas diferentes, diferenças essas que não se resumem a detalhes, mas à própria essência do que seja a oferta e sua destinação.

Como veremos mais tarde, é possível associar cada uma dessas etapas por que passou a instituição do dízimo com diferentes épocas da vida de Israel. A exemplo do que ocorria em outras culturas, também as Escrituras informam que o dízimo era guardado nos armazéns do Templo. Isso pode ser lido em Ml 3:10; Ne 10:38- 39; 12:44; 13:5-13 e II Cr 31:4-10. As mesmas passagens nos dão informações sobre os encarregados de armazenar essas mercadorias, e sobre o modo pelo qual os dízimos eram distribuídos entre o pessoal do Templo (Ne 13:13). Além disso, a evidência de Ne 10:38, indicando os levitas como os coletores dos dízimos nas cidades das províncias, confirma a regra geral segundo a qual os coletores eram recrutados entre o pessoal da administração do Templo.

A conversão dos dízimos dos produtos da terra em dinheiro, encontrada na Mesopotâmia, é também mencionada em Lv 27:31 e Dt 14:24-25 (embora com a diferença de que em Deuteronômio não se é obrigado a pagar o quinto adicional do dízimo para a sua remissão). Da mesma forma, a exemplo do que ocorria na Babilônia, onde os coletores do dízimo eram eles próprios obrigados a pagar dízimos, as disposições da Lei obrigam os próprios levitas a dar de seus próprios rendimentos (Nm 18:25-29).

O primeiro dízimo

Na literatura sacerdotal (P), encontramos leis sobre o dízimo em dois lugares: Lv 27:30-33 e Nm 18:20-24.

Todos os dízimos da terra, tanto dos produtos da terra como dos frutos das árvores, pertencem a Iahweh; é coisa consagrada a Iahweh. Se alguém quiser resgatar uma parte do seu dízimo, acrescentará um quinto do seu valor.

Em todo dízimo de gado graúdo ou miúdo, a décima parte de tudo que passa sob o cajado do pastor é coisa consagrada a lahweh.

Não se deve observar se é bom ou mau e não se fará substituição: se isto se der, tanto o animal consagrado como aquele que o substitui serão coisas consagradas, sem possibilidade de resgate Iahweh disse a Aarão: “Não terás herança alguma na terra deles e nenhuma parte haverá para ti no meio deles. Eu sou a tua parte e a tua herança no meio dos filhos de Israel.

Eis que aos filhos de Levi dou por herança todos os dízimos arrecadados em Israel, em compensação pelos seus serviços, isto é, o serviço que fazem na Tenda da Reunião. Os filhos de Israel não se aproximarão jamais da Tenda da Reunião: carregariam um pecado e morreriam. Levi fará o serviço da Tenda da Reunião e os levitas levarão o peso das suas faltas. E estatuto perpétuo para as vossas gerações: os levitas não possuirão herança alguma no meio dos filhos de Israel, visto que são os dízimos que os filhos de Israel separam para Iahweh, que eu dou por herança aos levitas.

Eis por que lhes disse que não possuirão herança alguma no meio dos filhos de Israel.”

Em Levítico, o dízimo é dado sobre “os produtos da terra”, sobre “os frutos da árvore” e sobre “o gado graúdo ou miúdo”, isto é, os bois e as ovelhas. O dízimo é “coisa consagrada a Iahweh”, e se alguém desejar resgatar o seu dízimo da terra ou dos frutos deverá acrescentar mais um quinto; o dízimo dos rebanhos não pode ser remido. Nessas passagens, o dízimo torna-se propriedade do Santuário, o que também ajuda a explicar por que o dízimo dos animais não pode ser resgatado, já que eles são considerados sacrifícios em potencial. O dízimo dos grãos e dos frutos é destinado principalmente para os sacerdotes e suas famílias, e isso explica o quinto adicional que tem de ser pago por alguém que desejar resgatar o seu dízimo.

Que as ofertas para o Senhor” são a mesma coisa que Ofertas para o sacerdote” pode ser claramente deduzido daquelas passagens em que a frase lê-YHWH é complementada pela palavra la-kohen (Ly 23:20; Nm 5:8), e também dos versículos nos quais explicitamente se diz que as ofertas azadas para o Senhor pertencem aos sacerdotes (Nm 18: 12-14) todo o capitulo 21 de Levítico trata sobre coisas dedicadas ao tesouro do Templo, as quais incluem as doações consagradas destinadas aos sacerdotes (cf. v.26).

Por outro lado, de acordo com a lei em Nm 18:20-32, o dízimo deve ser dado aos levitas, os quais por sua vez devem separar um décimo dos dízimos que eles recebem “para o Senhor, isto é, para os sacerdotes. Parece, portanto, que na literatura sacerdotal encontramos duas visões distintas com relação ao dízimo, pelo menos no que diz respeito à destinação que a ele se dá. Como veremos mais tarde, embora possam existir diversas explicações para esse fato, é possível compreender essa diferença quando estudamos a realidade social, histórica e política de cada etapa da vida do povo de Deus.

O segundo dízimo

No Código Deuteronômio vamos encontrar uma segunda legislação acerca do dízimo, radicalmente distinta da anterior. Lemos em Dt 14:22-27

Todos os anos separarás o dízimo de todo o produto de tua semeadura que o campo produzir, e diante de lahweh teu Deus, no lugar que ele houver escolhido para aſ fazer habitar o seu nome, comerás o dízimo do teu trigo, do teu vinho novo e do teu óleo, como também os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas, para que aprendas continuamente a temer a Iahweh teu Deus.

Caso o caminho seja longo demais para ti, e não possas levar o dízimo – porque o lugar que Iahweh teu Deus escolheu para ai colocar o seu nome fica muito longe de ti, quando lahweh teu Deus te houver abençoado, -vende-o então por dinheiro, toma o dinheiro em tua mão e vai para o lugar que lahweh teu Deus houver escolhido. Lá trocarás o dinheiro por tudo o que desejares: vacas, ovelhas, vinho, bebida embriagante, tudo enfim que te apetecer. Comerás lá, diante de Tahweh teu Deus, e te alegrarás tu e a tua família. Quanto ao levita que mora nas tuas cidades não o abandonarás, pois ele não tem parte nem herança contigo vemos, portanto, que a lei do Deuteronômio prescreve separação de um dízimo de grãos, vinho e azeite a cada ano, mas esse dízimo deve ser consumido pelo seu proprietário no lugar escolhido, isto é, no santuário central. Prevendo as dificuldades que seriam encontradas por todos os judeus residentes longe de Jerusalém, a lei permite que o dízimo possa ser convertido em dinheiro, que deverá ser gasto na refeição festiva a ser feita no lugar escolhido.

A esse respeito, o Talmude instrui que devemos comprar para comer o que habitualmente se come; para beber, o que habitualmente se bebe; para usar como unguento, o que habitualmente se usa como unguento. Mas não se pode comprar azeite perfumado”. Essas palavras nos ensinam que essa refeição festiva, na presença do Eterno e no local sagrado – Templo deve ser especial, não propriamente pelo que se come ou se bebe, mas pelos conteúdos éticos e espirituais que a ela estão associados.

Da mesma forma, somos ensinados que o segundo dízimo não pode ser vendido, nem dado a outra pessoa como oferta, nem trocado, nem usado para pesar outros produtos! E para prevenir que alguém tenha a tentação de guardar o dinheiro do segundo dizimo, ensina o Talmude que essa oferta não pode ser trocada por metal não cunhado (por ex., barras de ouro), ou por moedas que não estejam em circulação. Como dinheiro do segundo dízimo não se pode comprar escravos, nem terras, nem gado impuro.

O que a tradição rabínica quer ensinar com essas restrições? Que nada deve nos desviar do cumprimento do que e estabelecido pela lei, de forma que a cada ano possamos repetir essa refeição solene, plena de alegria e gratidão, realizada com simplicidade, porém com fartura, na presença do nosso Deus, com o coração repleto de louvores ao Eterno.

Maimônides ensina que somos proibidos de mudar a ordem das doações dos produtos; devemos separá-las de acordo com a ordem determinada. A explicação é a seguinte: quando, por exemplo, o trigo tiver sido debulhado e arrumado numa pilha uniforme … deve-se separar dele primeiro a grande Oferenda de Elevação (as Primícias) que é uma quinquagésima parte, e depois um décimo do que restar, que será o primeiro dízimo, e finalmente um décimo do restante, que será o segundo dízimo. A grande Oferenda de Elevação deve ser entregue ao “Cohen”, o primeiro dízimo ao Levita e o segundo dízimo deve ser comido pelo seu proprietário, em Jerusalém. Esta é a ordem segundo a qual as doações devem ser separadas, e a proibição de separar primeiro o que deve ser separado por último e retardar o que deve ser separado primeiro está expressa em Suas palavras, enaltecido seja Ele, “Não tardarás em oferecer da plenitude de tua colheita e do que sai das tuas prensas” (Êx 22:28), que é como se Ele tivesse dito: “Não demorarás em trazer, da plenitude de tua colheita e do que sai das tuas prensas, aquilo que deve ser oferecido em primeiro lugar”.

Verificamos, portanto, que essa lei do dízimo apresenta, de início, duas importantes modificações em relação à prática do Código Sacerdotal. Em primeiro lugar, os dízimos referem-se somente à produção agrícola, pois do gado e das ovelhas só se devem oferecer os primogênitos. Em segundo lugar, a destinação dos dízimos é alterada de forma radical.

Essa novidade, de comer o dízimo em vez de entregá-lo ao Santuário e seus ministros (como era a prática anterior), pode ser explicada considerando-se o pano de fundo geral da reforma cúltica que serve de base ao código legislativo do Deuteronômio, em especial os capítulos 12 a 19.

Assim, um desenvolvimento similar pode ser reconhecido com relação à lei dos primogênitos (15:19-23) O código de leis mais antigo (JE) prescreve a entrega dos primogênitos “ao Senhor” (Ex 13:2,12,15; 22:29; 34:19), isto é, para o Santuário, como um sacrifício (cf. Êx 13:15) enquanto o código sacerdotal (P) determina que ele deve ser dado ao sacerdote, que oferece o sangue e a gordura no altar mas conserva para si mesmo a carne (Nm 18:17-18). Já o código do Deuteronômio prescreve que os primogênitos devem ser comidos pelo seu proprietário, no lugar escolhido (15:19-23), mas admoesta que não se deve violar a sacralidade daqueles animais antes de trazê-los ao lugar escolhido.

É interessante notar que o Código do Deuteronômio, ao transformar o dízimo de uma oferta consagrada em uma refeição ritual, caminha em uma direção que é antiga, pois na verdade está adotando para o dízimo um modelo que já existia para o ritual da Páscoa. E isso nos traz à memória o extraordinário significado que se pode associar a uma reunião festiva como esta, em que uma família se junta à volta de uma mesa para compartilhar a comida e as alegrias. Talvez não exista nada mais poderoso como veículo de educação.

Julgo que muito se perde hoje em dia em não se adotar maisesse modelo de comemoração, principalmente quando sabemos as enormes pressões desagregadoras que a moderna sociedade industrial exerce sobre a família, além da pobreza de oportunidades carregadas de simbolismo e espiritualidade que temos ao nosso dispor para transmitir aos nossos filhos as noções elementares da fé.

A respeito do segundo dízimo, Maimônides ensina que pela Torá ele é obrigatório apenas com relação aos produtos da Terra de Israel, e deve ser comido apenas durante a existência do Santuário, pois ela compara o ato de comer o segundo dízimo aos primogênitos: assim como os primogênitos podem ser comidos apenas durante a existência do Santuário, o segundo dízimo também só pode ser comido durante a existência do Santuário.

O dízimo do pobre

O Código do Deuteronômio ainda nos reserva mais uma surpresa. Lemos em Dt 14:28-29:

A cada três anos tomarás o dízimo da tua colheita no terceiro ano e o colocarás em tuas portas. Virá então o levita (pois ele não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem nas tuas cidades, e eles comerão e se saciarão. Deste modo Iahweh teu Deus te abençoará em todo trabalho que a tua mão

realizar.

Portanto, no terceiro ano, e novamente três anos depois, isto é, no sexto ano do ciclo de Shabbat, o dízimo deve ser deixado na comunidade local, em benefício do levita, que não tem terra própria, e do estrangeiro, do órfão e da viúva, que são os protótipos das “pessoas miseráveis”, que a sorte e as condições sociais empurraram para uma vida de carências e aflições. Não devemos esquecer que na literatura profética encontramos frequentemente alusões a essas pessoas, em passagens que nos obrigam a ver nelas o exemplo perfeito do próximo que deve ser amado e respeitado.

Da mesma forma, verificamos que essa lei reflete mudanças profundas na estrutura social de Israel, já que aqui encontramos o levita não mais como o servidor privilegiado do Templo, mas associado às pessoas carentes e socialmente rebaixadas, que necessitam da atenção dos seu semelhante para poder sobreviver.

Esse ano é chamado “o ano do dízimo” (26:12), o que parece ser uma forma de preservar a velha noção da ligação entre o dizimo e o levita.

Além disso, o “dízimo do pobre” vem acompanhado de duas outras características notáveis. Em primeiro lugar observemos as palavras finais dessa lei, que dizem: “deste modo lahweh teu Deus te abençoará em todo o trabalho que a tua mão realizar”. Portanto, diferentemente das demais leis sobre o assunto que já estudamos, essa lei do “dízimo do pobre” é a única que vem acompanhada de uma bênção! E em segundo lugar, ela vem acompanhada também de uma “declaração do dízimo”, que em alguns pontos guarda semelhanças com a declaração das primícias. Lemos em Dt 26:12-15:

No terceiro ano, o ano dos dízimos, quando tiveres acabado de separar todo o dízimo da tua colheita e o tiveres dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva para que comam e fiquem saciados em tuas cidades, tu dirás diante de Iahweh teu Deus: “Tirei da minha casa o que estava consagrado e o dei ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme todos os mandamentos que me ordenaste. Não transgredi nem me esqueci dos teus mandamentos. Dele nada comi durante o meu luto, e estando eu impuro dele nada tirei, e dele nada ofereci por um morto. Obedeci à voz de Iahweh meu Deus e agi conforme tudo o que me ordenaste. Inclina-te da tua morada santa, do céu, e abençoa o teu povo Israel, como também o solo que nos deste, conforme juraste aos nossos pais, uma terra onde mana leite e mel.”

Podemos observar que a declaração é um alerta para que o dízimo não seja profanado, conservando assim toda a sacralidade de que estava revestido desde o início, e que não deve ser perdida apesar da nova destinação que lhe é dada.

Não bastassem essas palavras, lembremo-nos do que está escrito: “Maldito seja aquele que perverte o direito do estrangeiro do órfão e da viúva! E todo o povo dirá: Amém! (D1 27:19).

Pode-se dizer que esse tipo de dízimo instituído por Deuteronômio é único e sem precedentes. Enquanto que o dízimo é sempre uma taxa ou oferta para a manutenção de um culto, de um templo e de seus funcionários, aqui ele é simplesmente uma contribuição filantrópica.

A tradição Rabínica

Sem qualquer dúvida, desde os tempos de Esdras toda a literatura do Pentateuco era considerada como uma unidade total (a “Lei de Moisés”), e ninguém tinha dúvida de que as pessoas deviam obedecer à Torá como um todo. Por isso, as diversas atitudes em relação ao dízimo espelhadas nas diferentes fontes, e em especial no código sacerdotal por um lado e no código deuteronômio do outro. tinham de ser combinadas, e as contradições harmonizadas.

De acordo com as prescrições sacerdotais, o dízimo deve ser dado aos levitas, ao passo que de acordo com o código deuteronômio, ele deve em parte ser consumido pelo proprietário no santuário central e em parte entregue aos necessitados.

Os rabinos, partindo do pressuposto de que ambas as leis são de origem mosaica e, portanto, igualmente obrigatórias, interpretaram-nas como exprimindo dois diferentes tributos: um para ser entregue ao levita – “o primeiro dízimo” – e o outro, que devia ser trazido a Jerusalém e consumido ali – “o segundo dizimo”.

De um lado, a cobrança de 20% dos rendimentos era elevada demais, enquanto que, por outro lado, um problema muito mais sério era a destinação do dízimo. Existiam bem poucos levitas no período do Segundo Templo em contraste com a situação durante o período monárquico – e, portanto, o dízimo era automaticamente desviado para os sacerdotes.

Mas por razões econômicas óbvias, poucas pessoas observavam as leis dos dízimos de forma correta, de modo que as pessoas comuns eram sempre suspeitas de não terem separado totalmente a porção sagrada dos seus rendimentos.

Nessa época, quem quisesse ser considerado um observador consciencioso da Lei não poderia deixar de dizimar primeiro: a prática do dízimo passou a ser sinal externo de ortodoxia formal. Essa situação criou uma porção de problemas, cujos aspectos legais são extensivamente abordados em um tratado especial do Talmude chamado Demai.

Podemos distinguir com relação ao dízimo a existência de cinco, isto é, coisas que devem ser feitas:

i) dar o primeiro dízimo;

ii) dar o segundo dízimo;

iii) dar o dízimo do homem pobre;

iv) dar o dízimo do gado;

v) dizer a declaração do dízimo.

Da mesma forma, podemos reconhecer a existência de oito preceitos negativos, isto é, coisas que não se devem fazer:

i) não comer o segundo dízimo de cereais não remido fora de Jerusalém;

ii) não consumir o segundo dízimo de vinho não remido fora de Jerusalém;

iii) não comer o segundo dízimo de azeite não remido fora de Jerusalém;

iv) não comer o segundo dízimo impuro não remido, nem mesmo em Jerusalém;

v) não comer o segundo dízimo durante o período de luto;

vi) não vender o dízimo do gado;

vii) não gastar o dinheiro do resgate do segundo

dízimo a não ser com comida e bebida;

viii) não alterar a ordem prescrita para separar o dízimo da colheita.

A contrapartida desse processo rabínico para harmonizar e disciplinar a questão do dízimo foi o desenvolvimento de toda uma cultura legalista em torno desse assunto, repleta de hipocrisia, que na prática levou a perda importantes características do dízimo, indicadas s sacerdotais quanto no código deuteronômio: a alegria, a espontaneidade de, a presença de Deus na vida.etc.

Devemos estar conscientes desse fato, se quisermos interpretar de forma correta as passagens acerca do dízimo encontradas nos Evangelhos.

Uma crítica histórica

Para encerrar esta avaliação do dízimo na Tora e na tradição rabínica, precisamos proceder a uma crítica histórica dos textos estudados, procurando relacionar as leis que ali encontramos com as realidades sociais, políticas e religiosas de cada um dos períodos da história de Israel, que influenciaram o desenvolvimento da religião judaica e a formulação das leis da Torá.

Assim, devemos reconhecer de início uma etapa bastante antiga, ligada às fontes JE, onde os dízimos são mais tributos reais do que contribuições religiosas. As duas tradições sugerem rumos diferentes entre o Norte e o Sul: a instituição de se coletar dízimos na capela real de Betel, no reino do Norte, é vinculada a Jacó, o herói ancestral por excelência. Os do Norte, enquanto que a instituição da cobrança o dizimo no santuário real de Jerusalém é remontada a Abraão, cujas tradições são vinculadas principalmente ao Sul.

Tudo indica que os levitas eram os leais funcionários e representantes do rei, especialmente nas áreas recém ocupadas e nas fronteiras (I Cr 23-26, em especial 26:20-32). E que, portanto, foram encarregados de supervisionar a coleta dos dízimos e a sua guarda. Parece que o dízimo dado aos levitas não se destinava apenas ao seu consumo pessoal, mas era principalmente destinado à manutenção dessas cidades reais com santuários e depósitos. Por outro lado, o dízimo dos dízimos, dado pelos levitas aos sacerdotes, era necessário para a manutenção do grande Templo em Jerusalém.

Podemos resumir esta etapa, dizendo que no início os dízimos destinavam-se aos sacerdotes, conservando a sua dupla identidade de tributo político e oferta religiosa, passando posteriormente para os levitas, à medida que esses homens assumiam uma maior quantidade de funções administrativas e religiosas, atuando tanto como representantes e leais oficiais do rei, quanto como representantes dos sacerdotes e do Templo central de Jerusalém

Do que está exposto, pode parecer que o dízimo seja um tributo obrigatório. Todavia, devemos lembrar que Amós menciona o dízimo dentro de um contexto de ofertas voluntárias (cf. Am 4:4-5), e que a lei dos dízimos no Lv 27 aparece em um capítulo que trata de ofertas sagradas voluntárias de diversas naturezas. Por outro lado, a lei de Nm 18 é, nesse aspecto, menos conclusiva; aqui se tem a impressão geral de que o dízimo era uma oferta obrigatória, pois ele ocorre lado a lado com as primícias e os primogênitos que são obrigatórios (18:12-32). Podemos concluir dizendo que há evidências para supor que o dízimo, cujo propósito principal era a manutenção do Templo e dos seus funcionários, foi estabelecido tanto como uma taxa obrigatória, quanto como uma oferta voluntária.

Essa lei, que se tornará fundamental para a religião de Israel, no mesmo espírito que os profetas, procura defender o culto ao Senhor de qualquer contaminação dos cultos cananeus, ordenando a destruição dos lugares altos dessas religiões e estabelecendo um só lugar para a adoração a lahweh. A fórmula “lugar que Deus houver escolhido para aí colocar o seu nome”, ou “para aí fazer habitar o seu nome”, ou “para aí lembrar o seu nome”, em si. Podia designar todo lugar em que Deus tenha se manifestado e onde o culto estava assim legitimado pelo próprio Deus. Durante muito tempo ela foi compreendida assim, e o culto a Iahweh era praticado em numerosos santuários. Porém, em Deuteronômio, essa fórmula designa exclusivamente Jerusalém. Essa lei de unicidade do santuário será um dos pontos principais da reforma de Josias (II Rs 23).

Dessa maneira, os levitas que participam efetivamente no Templo são concentrados apenas em Jerusalém, e é fácil perceber que as necessidades do culto exigem agora um número bem menor deles. Como consequência, a maioria continua dispersa por todo o território, mas sem contar agora com o status privilegiado que tinha na época áurea da monarquia unida. Depois da abolição dos santuários provinciais, localizados nas cidades dos levitas, e da proibição de rituais e atuação dos oficiantes nessas cidades, não havia mais necessidade dos dízimos, que eram destinados a manutenção dessas instituições.

Desse modo, é fácil perceber que o volume dos dízimos passou a ser maior do que o necessário, podendo ser essa oferta redirecionada para outras finalidades. Uma interessante medida da seriedade com que as reformas foram encaradas ao tempo de Josias é verificar que o Código do Deuteronômio não só afastará o dízimo do seu propósito original, mas o transformará em uma oferta obrigatória, destinada agora aos pobres e aos destituídos, entre eles o levita em sua nova condição.

No retorno do exílio, com a construção do Segundo Tempo sob Neemias e Esdras, o número de levitas era muito pequeno, comparado ao número dos sacerdotes que o excedia em largar proporção. Assim, não é difícil perceber por que nessa época os dízimos passaram a ser entregues aos sacerdotes, e não mais à minoria tão reduzida dos levitas.

Portanto no período do Segundo Templo, persistiu um relaxamento generalizado no cumprimento da obrigação de pagar os dízimos, em parte devido ao justificado sentimento de que a entrega dos dízimos aos levitas não correspondia à realidade dos textos da Torá, e em parte em função do ambiente renovado e contestador desse período de restauração nacional do povo judeu.

No início do período do Segundo Templo, o dízimo era considerado indispensável para a manutenção do Santuário e de seus oficiais, de modo que nessa época o caráter obrigatório do dízimo é ressaltado de uma forma bem enfática, recuperando assim as conotações que ele tinha na época sacerdotal. Portanto, não devemos estranhar Malaquias exortando o povo a trazer “todo o dízimo à casa do tesouro” de modo que haja comida na casa do Senhor (3:10). Da mesma forma, Neemias permaneceu atento, de modo que o povo entregasse os seus dízimos aos levitas e mão negligenciasse o seu dever (Ne 10:38; 12:44; 13:10-13).

Por trás das palavras de Malaquias podemos perceber a existência de um conflito entre os que retornaram do exílio. O de que a religião judaica havia sido efetivamente zada durante o exílio, com a completa eliminação da e fez com que muitos começassem a questionar não Só o mérito do Templo e de seus rituais, mas todas as

Ordenanças religiosas de um modo geral. Contra essas vozes levantaram-se com firmeza os profetas desse período (Zacarias, Ageu, Malaquias), defendendo o Templo como expressão maior da nação e centro aglutinador por excelência dos judeus. Embora eles reconhecessem a efetiva moralização da vida religiosa, ainda assim pregavam a necessidade de manter formas exteriores e visíveis de culto, capazes de despertar energias espirituais que, bem disciplinadas, poderiam contribuir para elevar ainda mais a ordem social, moral e econômica de toda a nação.

5. A Torá – O Sentido dos Textos

Introdução

É quase um chavão entre os cristões referir-se à Lei Mosaica como sendo estritamente legalista e formal, não apenas na questão da contribuição e do dízimo, mas em todos os aspectos. Temos o hábito de pensar no Antigo Testamento como sendo um “Código Legal”, comparando-o ao Novo Testamento, que encaramos como um “meio de vida eterna”, um “Código de Graça”.

“Os cristãos substituíram a guarda cerimonial e exterior do sábado pela observância alegre do primeiro dia da semana.”

No caso, sabemos que a Igreja primitiva continuou a guardar o sábado regularmente, celebrando apenas a Comunhão no domingo, com forte ênfase na Ressurreição e não sobre a Paixão, e que só abandonou essa prática perto da adoção por Constantino, quando começou a se afastar de suas origens judaicas. De outra parte, quem sabe o que é o shabbal judaico jamais teria a coragem de fazer tal afirmação, e de qualquer forma basta frequentar as nossas igrejas para perceber que nem sempre e nem todos observam o domingo da forma ideal.

Em resumo, estamos cheios de preconceitos com relação à Lei e ao Antigo Testamento. E esses preconceitos nos impedem de ver e entender o que os textos realmente querem dizer. Legalismo e hipocrisia existem em qualquer prática humana, quanto mais nas práticas religiosas!

Pode-se ver, portanto, que o velho conceito profético do “coração quebrantado”, trabalhado poeticamente de forma magistral por Davi no extraordinário Salmo 51, continua a ser o verdadeiro parâmetro que deve servir de base a qualquer avaliação de um procedimento religioso. E com esses olhos e esse coração que devemos interpretar os textos da Torá, pois ela não é apenas o livro sagrado do Judaísmo, mas acima de tudo a Palavra de Deus, dirigida ao seu povo em determinada época, e como tudo que é divino, ela é pura, santa e perfeita.

O mesmo autor já citado diz o seguinte: Devemos fazer distinção entre lei cerimonial e lei moral. A lei cerimonial ficou circunscrita ao Velho Testamento. Referia-se a costumes próprios do povo de Israel, sobre alimentação, etc. Não temos nenhuma obrigação, hoje, para com essa lei. Há, porém, a lei moral. Essa permanece. Os dez mandamentos, por exemplo…. Assim também acontece com o dízimo. Ele pertence à lei moral de propriedade.

Essa maneira de olhar a Lei é muito perigosa, pois mais ajuda a ocultar os significados corretos das coisas do que a descobri-los.

Mesmo que se queira separar uma lei da outra e agrupá-las de uma forma funcional, jamais as leis do dízimo seriam incluídas entre as leis morais, o que é simplesmente absurdo. Da mesma forma, não podem ser incluídas entre as leis civis sobre a propriedade. Corretamente, elas se enquadram nas leis sobre as ofertas ligadas à agricultura. Por essa razão, todas as referências talmúdicas sobre o dízimo são encontradas na primeira ordem da Mishná – a de Zeraim. Essa palavra hebraica significa “sementes”.

Além disso, esse tipo de argumentação é extremamente perigoso, pois sugere que a Lei não passa de uma coleção das tradições já existentes e bem estabelecidas nas tribos que formaram o povo de Israel, sancionadas no âmbito coletivo com base em uma autoridade religiosa. Na verdade, a Lei que Deus deu ao seu povo é exatamente o oposto disso, pois ela estabelece padrões de vida e de comportamento ético e moral que estão radical e visceralmente em oposição aquilo que existia na época. A Torá é um constante desafio às regras estabelecidas, e uma luta sem tréguas contra instituições seculares das culturas mesopotâmicas, entre elas a idolatria, a feitiçaria, a violência, a imoralidade, a prostituição, etc.

Pressupostos do dízimo

O pressuposto fundamental é que o dízimo deve ser dado por quem compreende que o Eterno está por trás de todas as coisas, e que é pela sua misericórdia e providência que o nosso próprio trabalho é abençoado e frutifica. Como já dissemos atrás: Deus está “nos começos” de todas as coisas. Podemos perceber esse propósito do dízimo, com toda a clareza, nos textos que nos falam de Abel, de Abraão, de Jacó, e acima de tudo, nas palavras básicas da “declaração do dízimo”.

Esse pressuposto fundamental não pertence ao dízimo de per si, mas é claramente “emprestado” daquelas que são as “ofertas religiosas por excelência” dentro do sistema da Lei Mosaica: as primícias e os primogênitos. Assim, a “declaração das primícias” é o verdadeiro estatuto de fundo religioso que permite entender o que são essas ofertas

O pressuposto secundário é que o dízimo existe para sustentar uma estrutura clerical – OS levitas e os sacerdotes. A própria Torá se encarrega de mostrar por que esse pressuposto é apenas secundário, e não o principal: quando a estrutura clerical é substancialmente reduzida, o dízimo volta a ser motivado apenas por suas razões básicas, e por isso o Deuteronômio estipula que ele deve ser comido ritualmente ou entregue a quem dele necessita.

Assim, podemos dizer que o dízimo na Torá é uma demonstração de gratidão, e o reconhecimento da nossa dependência do Eterno, não só naquilo que hoje chamamos de “coisas espirituais”, mas até mesmo naquelas coisas que na aparência nada têm de conteúdo religioso, como o trabalho, a terra, a produção, etc. Reconhecemos, portanto, um forte sentido de unicidade com relação à vida humana e social, que é encarada a partir de um único ponto de vista: o sagrado.

Os valores associados ao dízimo

Alguns valores estão sempre associados ao dízimo, embora em algumas passagens apenas um deles se destaque. Podemos dizer que existe uma “síndrome de valores” associada à instituição do dízimo. Para compreendermos melhor essa associação entre o dízimo e a estrutura de valores que está por trás da Torá, devemos meditar um pouco sobre o que entendemos por trabalho, pois é preciso observar algumas coisas importantes.

Devemos observar que a Torá ensina que a virtude por excelência do caráter divino é o amor, e que a manifestação mais imediata do amor de Deus é o fato de que ele cria – o mundo, a vida, o homem – e dá de si mesmo aos homens. O evangelho complementa essa afirmativa da Lei, dizendo que o Eterno se deu a si mesmo em Cristo Jesus. Portanto, criar é a mais profunda expressão da pessoa de Deus.

Trabalho é sinônimo de vida, potência de ser já realizada. Pelo trabalho o homem transforma a Natureza criada “em obra das suas mãos”, isto é, dou de mim mesmo e crio.

Objetivamente: transformo o “caos”, aquilo que não é revestido de intencionalidade e finalidade, em “coisas” das quais dependo para viver. O trabalho é a materialização do potencial, a efetivação daquilo que só idealmente era alguma coisa. Nesse sentido, o trabalho é vida e, portanto, alguma coisa realmente divina.

Toda a forma de vida procede do Eterno. Quando retorno o dízimo para Deus, retorno parte do meu trabalho, ou melhor, parte de mim mesmo, de vida concedida. Retorno, portanto, vida à fonte da vida.

Mesmo o sentido secundário do dízimo assume conotações diferentes quando pensado à luz desses valores. Somente vida (nesse sentido) seria bastante para sustentar vidas doadas a Deus para o seu serviço e o serviço do próximo. O levita não poderia assumir plenamente o significado de sua existência e ao mesmo tempo ser sustentado por um simples imposto.

Encontramos, portanto, associado ao dízimo, esse valor básico que é a compreensão do trabalho como vida. Um outro valor que identificamos com facilidade é a excelência que deve estar sempre associada à nossa gratidão, ao nosso louvor, à nossa adoração. As diversas descrições do dízimo acentuam esse fato dizendo que tudo deve ser “o melhor”, escolhido “em primeiro lugar” sem qualquer “defeito ou mácula”. Novamente, podemos perceber que esse sendo do dízimo não lhe pertence propriamente, mas é “herdado” das primícias e dos primogênitos!

Um outro valor fundamental, especialmente associado aos dois dízimos de Deuteronômio, é a alegria, valor essencial da existência e marca por excelência da vida que é levada em paz com Deus! Na alegria de viver identificamos a posse da energia criadora do Eterno, e encontramos a certeza de que não estamos vivendo em vão, mas certamente produzindo os frutos de vida eterna. Essa alegria associada ao dízimo é a expressão da satisfação do trabalho realizado, da suficiência dos nossos bens, e da certeza de que aquilo que recebemos é bastante para podermos dar, o que afinal é a expressão máxima do amor de alguém. E aqui encontramos o derradeiro valor associado ao dízimo – dar! Como ensina Erich Fromm, dar é a mais alta expressão da potência, e o traço mais marcante de um caráter produtivo. De modo que, na esfera das coisas materiais, dar significa ser rico. Não é rico quem muito tem, mas quem muito da. Nos Evangelhos vamos encontrar esse ensino de uma forma extensa e ainda mais completa, e que se pode sintetizar nestas palavras de Jesus: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16:25).

O dízimo como expressão de uma cultura

Nos tempos bíblicos, Israel é um povo atado à terra. E assim deve ser entendido o dízimo: algo visceralmente ligado à propriedade da terra, à agricultura, ao gado, etc. A vinculação do conceito de propriedade à ideia de que a terra pertence ao Senhor impregnou toda a atividade agrícola com uma visão essencialmente sacra da Natureza e da vida.

Podemos dizer, com propriedade, que a questão do dizimo reflete adequadamente uma visão não secular da existência.

Não devemos culpar o homem moderno, o homem comum que vive e trabalha em nossas cidades, se ele não é capaz entender a linguagem tradicional do sagrado. Afinal já estamos vivendo na era industrial há pelos menos dois séculos e, se a “terceira onda” já nos alcançou, nossas mentes estão de tal forma impregnadas por conceitos novos e típicos desta era, que é realmente muito difícil esperar que essas imagens do passado ainda consigam dizer alguma coisa.

A refeição cultual

Comemorar as coisas sagradas à volta da mesa, comendo e bebendo, é uma das coisas mais comuns da tradição judaica. Podemos encontrar instruções acerca dessas refeições ligadas a todas as festas do calendário religioso, mas em especial com relação à Páscoa. A refeição pascal é a festa por excelência do Antigo Testamento, a mais carregada de simbolismos, e à qual estão associados os mais importantes fatos da história do povo: a liberdade, a instituição da lei, a terra prometida, etc.

A Páscoa não se comemora na Sinagoga ou no Templo, mas em casa, com toda a família reunida à volta da mesa. Os pratos e os alimentos cumprem função memorial, de modo que o seu simples preparo já se constitui em uma preciosa lição. Cada objeto e cada palavra pronunciada carregam em si mesmos um significado, uma lição e uma bênção. Quando nos sentamos à volta da mesa de Pessach, a fé deixa de ser algo abstrato, e pode ser “enxergada” os atos do pai e da mãe, de modo que as realidades da vida espiritual assumem feições familiares, e podem ser associadas aos procedimentos domésticos do dia a dia.

O ensino deixa as dimensões do teórico, e reveste-se de uma dimensão de realidade prática e imediata. A família como instituição, de uma certa forma, passa temporariamente a ocupar o lugar do “templo” ou da instituição religiosa. Os objetivos da fé, por sua vez, deixam de ser abstratos, e ficam encarnados concretamente na própria família, na liberdade, no amor comum que dá realidade ao lar, nas lutas da família por perseverar na sua visão do mundo, etc.

Por outro lado, é importante notar que a recomendação do texto é precisa, forte e não admite dúvida: na “festa do dízimo” é dever do homem não se esquecer do órfão, do pobre da viúva, do servo, do estrangeiro (isto é, dos deserdados e desamparados): eles também são vidas de seus que estão ao meu alcance, e por isso não posso me omitir. Ha aqui um elevado conteúdo social, de responsabilidade pública, de amor ao próximo, da vinculação da vida de cada indivíduo ao bem comum. E preciso, portanto, atentar para esse aspecto comunitário da “festa do dízimo”: não é um ato individual, egoísta escondido! Ao contrário: é social, partilhado, público, envolvendo todos os que pelo trabalho conjunto tornaram possível o resultado: a colheita, o gado, o vinho, o óleo, etc.

Jesus estendeu o significado da Páscoa ao vinculá-la à sua própria pessoa e ao fim último de sua primeira vinda. A Comunhão é, rigorosamente, uma interpretação da Páscoa, de seus símbolos, de seus significados, de seus valores. A Igreja, ao longo do tempo, separou a Ceia da Páscoa que ela interpreta, e acabou com o costume judaico da refeição familiar, confinando a Comunhão e a Páscoa ao terreno exclusivo do templo e da Igreja como instituição.

6. A Contribuição No Novo Testamento

Introdução

Quando examinamos o problema da contribuição no âmbito do Novo Testamento, chegamos rapidamente a uma só conclusão, que é exatamente a tese deste livro: o Novo Testamento ignora o dízimo como prática válida na Igreja primitiva. Todavia, todos os autores pesquisados, excetos os já apontados, procuram de todas as maneiras demonstrar que o dízimo é uma doutrina do Novo Testamento, em pleno vigor dentro da Igreja primitiva, além de ter sido claramente endossada por Jesus em seu ensino.

Portanto, colocando de lado os preconceitos, temos de examinar a questão em quatro etapas, estudando seguida mente o que nos dizem os Evangelhos, o livro de Atos as Cartas Gerais e, por fim, as Cartas Paulinas. Isso para ficarmos restritos apenas ao texto bíblico, pois já verificamos antes que o testemunho da História é um só: até onde os documentos existentes permitem saber, o dízimo é algo estranho à Igreja dos dois primeiros séculos, e só começa a aparecer na medida em que a Igreja se deixa enredar pela sedução do poder temporal e do poder político.

Os evangelhos

Dos quatro Evangelhos, os de Marcos e João ignoram completamente o assunto e não fazem nenhuma menção ao dizimo. Mateus e Lucas fazem três menções, representando apenas dois contextos, pois duas dessas passagens são paralelas entre si. Vejamos cada um desses textos:

1 Mt 23:23-24 – Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais o dizimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lett a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Importava praticar estas coisas, mas sem omitir aquelas Condutores cegos, que coais o mosquito e tragais o camelo!

2) Lc 11:42 – Mas ai de vós, fariseus, que pagais o dizimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças, mas deixais de lado a justiça é o amor de Deus! Importava praticar estas coisas sem deixar de lado aquelas.

3) LC 18:9-14 Contou ainda esta parábola para alguns que convencidos de serem justos, desprezavam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: ‘O Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens. Ladrões, injustos, adúlteros, e nem como este publicano, jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos. O publicano, mantendo-se a distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador! Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, mais do que o outro. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.

Analisemos inicialmente o texto de Mateus/Lucas.

O Mestre não está falando a respeito do assunto, e sua intenção não é ensinar nada sobre ele. Ao contrário, suas palavras são uma crítica profunda ao modo de vida hipócrita dos fariseus, que adotavam uma religiosidade formal, mais dada às práticas exteriores do que a uma real e verdadeira contrição na presença do Eterno.

Se nos recordarmos do que já foi dito, vamos lembrar que à época do Segundo Templo a prática do dizimo foi eleita como sinal externo identificador de ortodoxia. Não estava em jogo a correção de vida religiosa, mas tão somente uma prática destinada a dar uma satisfação social, e a construir uma fachada de vida dedicada a Deus. Tanto mais isto é verdadeiro, quanto nos lembramos de que o dízimo sempre se restringiu aos produtos mencionados em Dt 8:8, de modo que dizimar com relação a coisas como hortelã, arruda, hortaliças, endro ou cominho, constitui-se em um exagero completo.

A frase de Jesus, “importava praticar estas coisas sem omitir aquelas, tem o obvio sentido de mostrar que a Lei deve ser cumprida de modo integral, mas de qualquer forma é impossível imaginar que alguém possa pensar que a cumpriu, sem contudo praticar aquilo que lhe é essencial: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Um dos autores estudados entende essa passagem desta forma: “Cristo da claramente seu apoio à doutrina do dizimo. Ora, por que interpretar essas palavras de Jesus como uma aprovação do dízimo, quando na verdade elas são uma condenação dessa oferta, pelo menos na forma deturpada como os fariseus o praticavam?

O segundo texto de Lucas é uma parábola contada por Jesus, cuja intenção está declarada no próprio texto:” para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros”. De novo, Jesus está às voltas com a hipocrisia, com o orgulho, com a autojustificação, etc. E de novo, o seu alvo são os fariseus! E de novo, podemos constatar entre os “argumentos” do fariseu para demonstrar a sua superioridade, a presença de duas práticas totalmente formais e exteriores: o dízimo e o jejum!

E isso é tudo. Nada mais encontramos nos Evangelhos que se refira ao dízimo, seja com intenção, seja de passagem. A minha questão é esta: como é possível, com tão pouco, afirmar categoricamente que Jesus aprova e recomenda o dízimo como regra de contribuição para a prática da Igreja? Com essa pequena e duvidosa base, é lícito afirmar que o dízimo é também uma doutrina do Novo Testamento?

O livro de atos

Novamente, em todo o livro dos Atos, não existe uma única menção ao dízimo. Se a doutrina do dízimo fosse uma prática corrente na Igreja primitiva (a Igreja do livro dos Atos e das cartas), seria normal esperar que nessa comunidade houvesse os mesmos problemas que nós temos hoje, isto é: a existência de pessoas que não contribuem com o dizimo, de pessoas que contribuem com menos do que o dizimo, ou de pessoas que não aceitam o dízimo. Afinal, a Igreja primitiva é rica de exemplos em todos os sentidos e em todas as áreas da vida religiosa, de forma que muito raramente deixamos de encontrar nela paralelos que se podem aplicar às situações que vivemos hoje.

No entanto, as Escrituras mostram um silêncio absoluto e impenetrável acerca desta questão: não há uma única menção ao dizimo em todas as cartas, não há qualquer exortação a sua pratica, nenhuma repreensão para crentes que eventualmente não eram dizimistas.

Em particular no livro de Atos, o que encontramos é uma Igreja que encara o mundo com uma ótica firmemente apocalíptica, que está mais voltada para a Parousia do que nos hoje, e que por isso adota um estilo de vida bem particular.

Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum; vendiam as suas propriedades e os seus bens e dividiam o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um (2:44-45)

A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles (4:32).

Não havia entre eles indigente algum, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade (4:34-35).

Ora, quando o ambiente da Igreja é permeado por essas atitudes, e imediato concluir que o dizimo simplesmente não existe, pois o contexto é de uma comunidade em que todos contribuem com tudo o que tem, e não apenas com um percentual de seus bens e rendas. Todavia, é absolutamente necessário distinguir um importante detalhe: ninguém está contribuindo para sustentar qualquer estrutura clerical, mas todos contribuem para o sustento de suas próprias vidas! E algo muito diferente.

Há um comentário do apostolo Paulo que é bem esclarecedor diz então Paulo

a única recomendação que os demais apóstolos lhe fizeram foi esta: “Nós só nos devíamos lembrar dos pobres, o que aliás tenho procurado fazer com solicitude” (G1 2:10)

Nenhuma referência ao dízimo, que, aliás, Paulo não menciona uma vez sequer em suas epístolas.

De todo modo, fora as passagens acima mencionadas encontramos também esta: “Os discípulos decidiram então enviar, cada um conforme as suas posses, auxílio aos irmãos

que moravam na Judéia” (At 11:29). Aqui, o autor se refere a uma oferta da Igreja em Antioquia para os irmãos da Judéia, por ocasião da grande fome ao tempo do imperador Cláudio. Mas, como vemos, não se trata de dízimos.

As cartas gerais

Da mesma forma que no livro de Atos, em nenhuma das cartas gerais encontramos alguma menção ao dízimo, seja de forma específica, seja em mero comentário acidental. Ha um silencio completo, de forma que temos o direito de duvidar que o dízimo fosse uma prática corrente na Igreja daquela época.

No entanto, continuamos a encontrar alguns textos que confirmam a preocupação apostólica contida nas pala de Paulo acima referidas, isto é, o dever da misericórdia e do amor ao próximo.

Com efeito, a religião pura e sem mácula diante de Deus, nos Pai, consiste nisto: em assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e em guardar-se livre da corrupção do mundo (Tg 1:27).

Não vos esqueçais da beneficência e da comunhão, porque são antes os sacrifícios que agradam a Deus (Hb 13:16). E não por acaso, em uma visão profética daquilo que o futuro

traria para a Igreja, Pedro adverte:

Por avareza, procurarão, com discursos fingidos, fazer de vos objeto de negócios, mas seu julgamento a muito está em ação e a sua destruição não tarda (II Pe 2:3).

Mas na carta aos Hebreus vamos encontrar uma passagem que com frequência é interpretada como uma espécie de aval ao dízimo na Igreja primitiva. Lemos assim:

Este Melquisedeque é, de fato, rei de Salém, sacerdote de Deus Altíssimo. Ele saiu ao encontro de Abraão quando esse regressava do combate contra os reis, e o abençoou. Foi a ele que Abraão entregou o dízimo de tudo. E o seu nome significa, em primeiro lugar, “Rei de Justiça”; e depois, “Rei de Salém”, o que quer dizer “Rei da Paz”. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, nem

princípio de dias nem fim de vida! E assim que se assemelha ao Filho de Deus, e permanece sacerdote eternamente (Hb 7:1-8).

O autor desta carta, certamente um judeu bem treinado nas técnicas rabínicas de argumentação, desenvolve nesta passagem um raciocínio cujo único objetivo é provar a superioridade de Cristo como sacerdote.

Precisamos notar que os dízimos entram no contexto da prova, não como ponto principal da argumentação, mas como mero acessório destinado a descrever a função de um sacerdote. Realmente, se Melquisedeque não tivesse recebido o dizimo de Abrão, seria impossível qualificá-lo com sacerdote, pois nada mais se conhece a seu respeito! É exatamente essa falta de genealogia associada ao recebimento de dízimos que empresta à figura quase lendária de Melquisedeque os sinais prototípicos de um sacerdote com as características que convinham à argumentação do autor.

Retornando ao nosso estudo, não há nesta passagem de Hebreus margem para se afirmar que ela respalda a prática do dizimo porque Jesus, sendo sacerdote, tem direito a receber dízimos como todo sacerdote. Simplesmente não é isso o que o texto diz! Além de ser uma grotesca deformação da argumentação do autor, esse tipo de interpretação deixa o Jesus histórico em má situação, pois ele jamais recebeu dízimo algum. Que isso é verdade, o próprio autor da carta se encarrega de deixar bem claro: “E bem conhecido, de fato, que nosso Senhor surgiu de Judá, tribo a respeito da qual Moisés nada diz quando se trata dos sacerdotes” (7:14).

Apesar disso, um dos autores estudados faz o seguinte comentário: “Entretanto, a carta aos Hebreus deixa bem claro que no tempo em que foi escrita (67 d.c.) a prática do dízimo era comum entre os cristãos: ‘Além do mais, os que aqui recebem o dizimo são mortais, ao passo que ali trata-se de alguém do qual se diz que possui a vida’ (Hb 7:8) (grifo do autor).”

Ora, é um grosseiro erro de interpretação supor que a expressão “os mortais” refere-se aos membros da Igreja primitiva, quando todo o contexto indica claramente que a palavra está ligada aos sacerdotes levitas mencionados no verso 5 deste capítulo, e está aqui empregada com o objetivo evidente de estabelecer um contraste com a imortalidade de Cristo, simbolizado em Melquisedeque.

As cartas Paulinas

Chegamos agora ao lugar por excelência onde podemos encontrar instruções neotestamentárias sobre a contribuição

De fato, devemos ao apóstolo Paulo uma admirável síntese do espírito bíblico de contribuição”, ampla, profunda e definitiva.

Mas agora eu vou a Jerusalém, a serviço dos santos. A Macedônia e a Acaia houveram por bem fazer uma coleta em prol dos santos de Jerusalém que estão na pobreza. Houveram por bem, é verdade, mas eles lhes eram devedores: porque se os gentios participaram dos seus bens espirituais, eles devem, por sua vez, servi-los nas coisas temporais. Quando, pois, eu tiver resolvido este encargo e tiver entregue oficialmente o fruto da coleta, passarei por vós a caminho da Espanha (Rm 15:25-28).

O que furtava não mais furte, mas trabalhe com as suas próprias mãos, realizando o que é bom, para que tenha o que partilhar com o que tiver necessidade (Ef 4:28).

Se uma crente tem viúvas em sua família, socorra-as; não se onere a Igreja, a fim de que ela possa ajudar aquelas que são verdadeiramente viúvas (1 Tm 5:16-18).

Todos os da nossa gente precisam aprender a praticar o que é bom, de sorte que se tornem aptos a atender as necessidades urgentes e, assim, não fiquem infrutíferos (Tt 3:14)

Por conseguinte, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas sobretudo para com os irmãos na fé (Gl 6:10).

Quanto à coleta em favor dos santos, segui também vós as normas que estabeleci para as Igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vos ponha de lado o que conseguir poupar; deste modo, não se esperará a minha chegada para se fazerem as coletas (1 Co 16:1-2).

Depois de muitos anos, vim trazer esmolas para a minha nação e apresentar ofertas. Assim me encontraram no Templo (At 24:17).

A primeira coisa que podemos verificar é a seguinte: Paulo não se refere ao dízimo uma única vez que seja. Da mesma forma, todos os apelos para que os irmãos contribuam tem uma única finalidade em comum “atender de forma completa às carências imediatas dos nossos irmãos que se encontram passando necessidades”.

Não encontramos apelos para que os irmãos contribuam “para o sustento da obra”, ou para atender “às necessidades da obra”, ou pedidos equivalentes. Creio que é muito fácil explicar essa ausência: estamos estudando uma época na vida da Igreja em que ela não apresenta nenhum tipo de estrutura permanente.

Essa Igreja é uma igreja de “estrutura descartável não faz investimentos imobiliários já que ela se reúne nas casas dos irmãos, não tem as despesas tipicamente urbanas, tais como água, luz telefone, correio, gás, etc.; não tem despesas patrimoniais tais como manutenção, zeladores, seguro, etc., não tem staff permanente remunerado, incluindo maestros, diretores de departamentos, etc.

Os próprios obreiros são homens do povo, escolhidos não por terem recebido um preparo especial, mas separados ‘pelo Espírito” em função da experiência de vida (eram todos presbíteros. isto é, “velhos”!), do testemunho fiel do bom nome no meio da comunidade, etc. Esses homens continuavam a exercer as suas profissões normais, dedicando a igreja e à comunidade o seu tempo livre, ou todo o tempo que conseguissem separar para isso. De modo que essa igreja também não tem despesas com o que chamamos hoje de “sustento ministerial”.

Creio que esse quadro merece uma calma e ponderada reflexão. Seguimos hoje um modelo de Igreja que pode ser chamado de “institucional”, uma Igreja que investe pesado em bens imobiliários, em staff, em comodidades, em recursos, etc. E um modelo de Igreja perfeitamente ajustado ao industrialismo deste século, e muito particularmente, que reflete com fidelidade o espírito da sociedade capitalista e consumista do Ocidente cristão.

Se nos lembramos do que estudamos no Capítulo 4, podemos dizer que o “primeiro dízimo” está mais ligado à igreja institucional”, ao passo que o “segundo dízimo” e o “dizimo do pobre” (os dízimos do Deuteronômio) estão mais ligados a essa Igreja “descartável” de Atos. Será que é por essa causa que os autores modernos só se lembrar do “dizimo levítico” e se esquecem do “dizimo deuteronômio”?

O sustento dos obreiros

No que diz respeito aos obreiros, o modelo bíblico aponta como regra para o serviço voluntário e sacrificial, compartilhado com as atividades normais da vida, e como exceção para o obreiro de tempo integral, exclusivamente dedicado à igreja.

Nós hoje não nos apercebemos de que o modelo “obreiro de tempo integral” não é exatamente um modelo bíblico do Novo Testamento, mas sim um modelo que nasce na Igreja quando esta se transforma em religião oficial do Estado, e passa a desenvolver uma hierarquia separada do restante dos fiéis, e a encarar essa hierarquia como sendo a Igreja em si mesma, com completo desprezo pelos fiéis. Esse é o modelo da Igreja Medieval, um pouco alterado pela Reforma, e que chega a nossos dias quase que sem retoques. Felizmente, em nossas igrejas reformadas a hierarquia a rigor quase não existe, nem está separada dos fiéis, mas mesmo assim conservamos a figura do “obreiro em tempo integral” como sendo a imagem do modelo bíblico perfeito.

Qualquer atividade humana, de uma forma ou de outra, necessita ser amparada materialmente. Os recursos precisam vir de alguma fonte, mas o importante é que eles venham de um modo que seja coerente com a finalidade própria de cada empreendimento. Não podemos violentar a Igreja suprindo-a financeiramente de uma maneira que seja indigna da salvação que ela anuncia, e do Cristo que a fundou. Nossos procedimentos precisam ter não só a transparência e a lisura que se exigem de qualquer outro negócio, mas acima de tudo,

aquela marca típica do Reino, que é o amor e a misericórdia.

O apóstolo Paulo deixou recomendações diretas para estimular os crentes a amar seus obreiros e a zelar para que não tivessem necessidades. Assim, lemos:

Nós vos rogamos, irmãos, que tenhais consideração por aqueles que se afadigam no meio de vós, e vos são superiores e guias no Senhor. Tende para com eles um amor especial, por causa do seu trabalho. Vivei em paz uns com os outros (I TS 5:12).

Os presbíteros que exercem bem a presidência são dignos de dupla remuneração, sobretudo os que trabalham no ministério da palavra e na construção. Com efeito, diz a Escritura: Não amordaçarás o boi que debulha. E ainda: o operário é digno do seu salário (I Tm 5:17-18)

Quem está sendo instruído na palavra, torne participante em toda a sorte de bens aquele que o instrui (Gl 66) Se Timóteo for ter convosco, cuidai de que esteja sem receios em meio a vós, pois trabalha na obra do Senhor, como eu. Por conseguinte, que ninguém o despreze! Dai-lhe os meios de voltar em paz para junto de mim, pois eu o espero com os irmãos (I Co16:10).

Aqui temos claramente estabelecido o dever de prestar aos obreiros toda a assistência de que eles precisarem, mas que deve decorrer de um “amor especial”, e jamais de uma obrigação legalista e ritual.

O apóstolo reconhece o princípio básico que deve nortear a atitude da Igreja para com os obreiros.

Ou, dito de outra forma, qualquer trabalho digno deve ser capaz de sustentar quem o realiza.

Mas isso claramente neste belo desabafo de I Co 9:6-15.18

Ou somente eu e Barnabé não temos o direito de ser dispensados de trabalhar? Quem vai alguma vez à guerra com seus próprios recursos? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto?

Quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?

Digo isto, baseado apenas em considerações humanas? Ou a Lei não diz também a mesma coisa? Com efeito, na Lei de Moisés está escrito: Não amordaçaras o boi que tritura o grão. Acaso Deus se preocupa com os bois? Não é, sem dúvida, por causa de nós que ele assim fala? Sim; por causa de nós é que isso foi escrito, pois aquele que trabalha deve trabalhar com esperança e aquele que pisa o grão deve ter a esperança de receber a sua parte. Se semeamos em vosso favor os bens espirituais, será excessivo que colhamos os vossos bens materiais? Se outros exercem esse direito sobre vós, por que não o poderíamos nós com mais razão? Todavia não usamos esse direito; ao contrário, tudo suportamos, para não criar obstáculo ao evangelho de Cristo. Não sabeis que aqueles que desempenham funções sagradas vivem dos rendimentos do templo, e aqueles que servem ao altar têm parte no que é oferecido sobre o altar? Da mesma forma o Senhor ordenou àqueles que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.

Da minha parte, porém, não me vali de nenhum desses direitos.

Nem escrevo estas coisas no intuito de reclamá-los em meu favor.

Antes morrer que… não! Ninguém me arrebatará esse título de glória! … Qual é então o meu salário? E que, pregando o evangelho, eu o prego gratuitamente, sem usar dos direitos que a pregação do evangelho me confere.

Assim é que em outras passagens, Paulo nos mostra um pouco mais da sua consistente filosofia de ministério, em que só abre uma exceção para os seus queridos irmãos de Filipos em razão do grande amor mútuo: Não desejei prata, ouro ou vestes de ninguém vós sabeis que estas mãos proveram minhas necessidades e as de meus companheiros.

De todos modos eu vos mostrei que, trabalhando assim, devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do Senhor Jesus que disse: há mais felicidade em dar que em receber (At 20:33-35).

Vós mesmos bem sabeis, filipenses, que no início da pregação do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja teve contato comigo em relação de dar e receber, senão vós somente; já em Tessalônica mais uma vez vós me enviastes com que suprir às minhas necessidades (Fp 4:15-16).

Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos e fadigas.

Trabalhamos dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vós. Foi assim que pregamos o evangelho de Deus (I TS 2:9).

Bem sabeis como deveis imitar-nos. Não vivemos de maneira desordenada em vosso meio, nem recebemos de graça o pão que comemos; antes, no esforço e na fadiga, de noite e de dia, trabalhamos para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito para isto; mas foi para vos dar exemplo a ser imitado (II Ts 3:7-9).

Esse último texto é particularmente esclarecedor: mais do que ficar em paz com sua consciência, ou proceder de uma forma que lhe agradava, vemos que há por trás da atitude do apóstolo a intenção de deixar marcada uma posição, de definir um estilo de vida, de estabelecer regras a serem observadas na Igreja futura.

E isso quer dizer que cada comunidade deve decidir claramente se quer ou não ter obreiros de tempo integral, quantos quer ter, de que forma vai sustentá-los, etc. Tudo deve ser feito com fé e amor, de tal forma que, futuramente, nada venha a trazer inquietações para a vida da comunidade.

E isso nos conduz a uma única certeza: a de que jamais será possível existir na Igreja algo semelhante ao ministério levítico, pois a principal razão de sua existência está hoje eliminada! Não precisamos e, muito mais do que isso, não podemos ter estruturas eclesiásticas semelhantes à estrutura levítica, sob pena de deixarmos cair sombras sobre a Cruz.

Se não precisamos de levitas, por que precisamos de dízimos? os obreiros da Igreja jamais serão “levitas cristãos”, pois a razão do seu ministério não decorre da existência de uma separação entre os fiéis e a liturgia do culto de adoração, mas sim de uma oferta voluntaria de serviço para o próximo, serviço este que se reveste da mais profunda significação, pois consiste no anuncio da salvação. Os obreiros não existem por imposição legal de Deus, mas surgem por vocação espontânea.

Por outro lado, tenho observado que muitos obreiros que hoje se dedicam ao ministério em tempo integral nem por isso apresentam um ministério de qualidade superior ao de muitos outros que dedicam apenas tempo parcial a suas igrejas. Alguns ministros parecem completamente alienados das realidades sociais e culturais do mundo que os cerca, de forma que é legitimo questionar se realmente estão aptos a entender os problemas vividos pelos membros de suas comunidades, e a ministrar com amor e acerto. Talvez o exercício de uma atividade secular seja algo bem proveitoso, e ajude o obreiro a entender de forma mais completa o modo de vida de seus irmãos.

7. A Síntese Paulina

Textos básicos

Toda a seção da segunda carta aos Coríntios, que se inicia no Capítulo 8 e termina ao final do Capítulo 9, é dedicada a um único assunto: a coleta a ser efetuada a favor dos irmãos da Judéia. Por isso, a totalidade desses capítulos deve ser lida para um perfeito e completo entendimento do assunto em pauta. Todavia, para o propósito deste estudo, basta que separemos algumas passagens mais centrais, a saber:

1) Em meio às múltiplas tribulações que as puseram à prova, a sua copiosa alegria e a sua pobreza extrema transbordaram em tesouros de liberalidade. Dou testemunho de que, segundo os seus meios e para além dos seus meios, com toda a espontaneidade e com viva insistência, nos rogaram a graça de tomar parte nesse serviço em proveito dos santos (II Co 8:2-4).

2) Não digo isto para vos impor uma ordem; mas, citando-vos o zelo dos outros, dou-vos ocasião de provardes a sinceridade da vossa caridade (II Co 8:8).

3) Quando existe a boa vontade, somos bem aceitos com os recursos que temos; pouco importa o que não temos. Não desejamos que o alivio dos outros seja para vos causa de aflição, mas que haja igualdade. No presente momento, o que para vós sobeja suprirá a carência deles, a fim de que o supérfluo deles venha um dia a suprir a vossa carência. assim haverá igualdade, como está escrito: Quem recolhera muito, não teve excesso; quem recolhera pouco, não sofreu penúria (II Co 8:12-15).

4) Cada um de como dispôs em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria. Deus pode cumular-vos de toda espécie de graças, para que tenhais sempre e em tudo o necessário e vos fique algo de excedente para toda obra boa, conforme está escrito. Distribuiu, deu aos pobres A sua justiça permanece para sempre (II CO 9:7.9).

Convém lembrar o que já foi dito: não temos aqui um texto sobre contribuição para “a obra do Senhor”, mas antes um texto que nos recomenda a caridade fraternal, o sustentar as cargas uns dos outros, o repartir o muito amor com que fomos agraciados pelo Eterno. Mas este é o principal texto que temos para nos inspirar e guiar, e por isso a ele devemos permanecer fiéis. Em outras palavras, o nosso planejamento para atender às necessidades da comunidade, em todos os seus aspectos, deve ser de tal forma que o nosso proceder possa estar totalmente afinado com as regras e o “espírito” deste texto. Muitas vezes pensei sobre esse aspecto singular das Escrituras, ou seja, o fato de não existirem ali regras fixadas para orientar as comunidades no seu sustento material.

Podemos encarar esse fato de muitas formas, uma primeira, é ponderar que talvez aos olhos da Palavra, o único modelo adequado para as futuras igrejas seja o modelo “descartável” da Igreja primitiva. Nesse modelo, as necessidades materiais da comunidade são tão reduzidas, que elas podem ser esquecidas face às necessidades das pessoas em si mesmas.

Uma segunda forma é imaginar que, devido ao livre arbítrio do ser humano, as Escrituras não poderiam prever as transformações sociais dos tempos futuros, e desse modo deixam de consignar instruções adequadas a comunidades como as que temos em nosso tempo. Todavia, devemos lembrar que isso também acontece com relação a muitas outras coisas, mas em todos os casos sempre podemos encontrar o “espírito básico”, aquele “fio condutor” que, indiferente aos modismos de cada época, aponta para o caminho eterno que deve ser sempre seguido.

Outra maneira de encarar o fato é imaginar que as Escrituras nada têm a dizer a esse respeito, pois este seria um assunto a ser disciplinado pelas próprias comunidades.

Embora não possa concordar completamente com esse ponto de vista, ainda assim é forçoso reconhecer que a disciplina a ser imposta pela comunidade precisa ser coerente com os princípios mais gerais da Palavra, e de uma forma mais específica, com aqueles que estão mais próximos ao tema.

Mas, ao contrário do Novo Testamento, podemos encontrar em nossa literatura evangélica atual, muitas passagens semelhantes a esta: A Igreja não é uma instituição filantrópica. Não existe com a finalidade de fazer caridade. Os templos não são “casas de caridade” nem seus membros são chamados com a tarefa específica de “dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede”. A caridade crista é um fruto do Espírito a ser produzido pelo cristão em particular ou pela Igreja, na união de esforços nesse sentido. E coisa secundária na vida da Igreja. Em primeiro lugar, a Igreja deve existir em si mesma como uma comunidade cultural, uma assembleia do povo de Deus, convocada por Ele e reunida diante dele … Assim, entendemos que a principal finalidade do dízimo é a manutenção desta comunidade de fé que é a Igreja e, consequentemente, do culto a Deus para o qual todas as pessoas devem ser convidadas.

O ensino do apóstolo Paulo

O que nos ensina o apóstolo? Em primeiro lugar observemos estas palavras: “(eles) nos rogaram a graça de tomar parte nesse serviço”; e também: “não digo isto para vos impor uma ordem”, e mais além: “cada um dê como dispôs em seu coração’. Elas apontam para uma primeira e fundamental característica de que se deve revestir a contribuição dentro da Igreja: ela deve ser completamente espontânea! Na Igreja não existem imposições ou legalismos, mas ao contrário todas a ações devem ser movidas pelo amor genuíno, pela visão das necessidades e pela fé o impulso para dar nasce da capacidade de cada cristão de se colocar no lugar daquele que está em dificuldades, e dessa experiência vicária brota o desejo de servir, não apenas com os nossos bens, mas também com a nossa própria vida. Imitamos a Cristo, que se colocou em nosso lugar!

Quando somos capazes de assim visualizar as carências do próximo, não há regras que limitem a nossa capacidade de dar, exceto a largueza de nossos próprios recursos. Como nos lembra o Apóstolo, o amor “não procura o seu próprio interesse” (I Co 13:5b).

Em segundo lugar, o conjunto dos textos aponta com clareza para uma verdade só: a contribuição deve ser destinada, sempre, ao sustento das vidas das pessoas, um verdadeiro “serviço em proveito dos santos”. Devemos nos lembrar disso, quando usarmos o dinheiro arrecadado na Igreja para fins que nada têm a ver com esse destino último, mas que muitas vezes servem apenas à vaidade de algumas pessoas ou aos desvairos de uma comunidade.

Em terceiro lugar, o apóstolo nos ensina que a genuína contribuição cristã é sacrificial, pois não resulta de um cálculo de possibilidades econômicas, mas do desejo veemente de suprir o próximo em amor. Essa contribuição não tem atrás de si toda uma racionalidade financeira, ou uma série de argumentos e cálculos, nem depende de percentuais ou volume de rendas. Ela parte somente da compreensão da situação do outro, do meu próximo, do meu irmão em dificuldades, e dessa compreensão resulta toda uma dinâmica que me leva a querer satisfazer as suas necessidades. Portanto, antes da contribuição em si mesma, existiu todo um processo de identificação entre quem dá e quem recebe.

Se não nos identificamos com a comunidade a que pertencemos, se não assumimos como nossas as suas necessidades, se não aprovamos os obreiros nem o seu modo de vida, se não concordamos sobre como administrar o patrimônio comum, jamais sentiremos alegria, desprendimento, prazer, etc. Podemos dar muitos dízimos, mas nunca estaremos contribuindo “segundo o espírito do Novo Testamento”.

Paulo n os diz que esses irmãos contribuíram de uma forma extraordinária, totalmente em desacordo com as suas reais posses, mas fizeram isso com alegria, embora vivessem em extrema pobreza, em meio a terríveis tribulações. Estavam completamente identificados com seus irmãos judeus! Sem essa atitude fundamental em nossas comunidades, jamais teremos uma experiência tranquila na área da contribuição pois não são as muitas posses que explicam as grandes ofertas, mas, sim, o grande amor. Lembremos estas palavras: E sentado frente ao Tesouro do Templo, observava como a multidão lançava pequenas moedas no Tesouro, e muitos ricos lançavam muitas moedas. Vindo uma pobre viúva, lançou duas moedinhas, isto é, um quadrante. E chamando a si os discípulos, disse-lhes: “Em verdade eu vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. Pois todos os outros deram do que lhes sobrava. Ela, porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver (Mc12:41-44).

Podemos anotar um quarto ensinamento, que está contido nestas palavras: “a sua copiosa alegria” e “Deus ama a quem dá com alegria”. A presença da alegria no centro do ato de contribuir sugere que essa ação precisa trazer paz a quem a pratica, e que de forma alguma ela deve ser causa de um desequilíbrio interior capaz de gerar apreensão, revolta, murmuração, ou qualquer outra atitude contrária ao bem- estar que deve reinar em nossa alma.

A contribuição cercada de alegria é a melhor prova de que realmente ocorreu a necessária e completa identificação entre quem dá e quem recebe.

A alegria é sinal de vitalidade, de modo que quem dá e permanece alegre demonstra que não se sente diminuído em nada, mas antes percebe que é capaz de realizar muito mais do que supunha, e esse simples fato o gratifica e o encoraja a prosseguir dando, na certeza de que quem muito dá, muito recebe em troca.

Essa marca da alegria não se encaixa bem com a rigidez, legalista do dízimo levítico, embora tenha tudo em comum com os dízimos do Deuteronômio, com a determinação de Tacó, com a espontaneidade de Abraão, etc. Mesmo na época levítica, sempre que a entrega dos dízimos foi resultado de uma genuína revolução espiritual, aí podemos encontrar essa mesma alegria: “e trouxeram em abundancia o dizimo de tudo” (II Cr 31:5b).

E por fim, um último e precioso ensinamento: “quando existe a boa vontade, somos bem aceitos com os recursos que temos; pouco importa o que não temos”. Temos aqui palavras de uma rara profundidade, que devem ser examinadas por dois lados distintos: o de quem dá e o de quem recebe. A comunidade deve estar preparada para receber com alegria, com respeito e com genuína aceitação, a contribuição de qualquer irmão, seja ela de quanto for. Ela deve ser olhada pelo que efetivamente representa: uma oferta voluntária, pessoal, espontânea, alegre, sacrificial. Não nos cabe julgar se ela está bem ou mal calculada, se ela é adequada ao status social da pessoa, se é o que esperávamos dessa pessoa, etc.

“Boa vontade” neste contexto quer dizer exatamente isto: não julgar, não murmurar, não pressupor, mas aceitar de coração leve e sincero aquilo que é trazido por cada um. Cabe ao indivíduo estar em paz consigo mesmo e com Deus, e não compete à comunidade legislar ou julgar sobre isso. “Boa vontade” significa, portanto, não fazer acepção de pessoas e aprender a usar de boa mente e coração alegre as poucas coisas que nos são dadas.

Por outro lado, quando olhamos para a pessoa que contribui, “boa vontade” bem pode ter o sentido de “sei que á muito pouco, mas é tudo o que tenho, e por isso de nada posso me envergonhar: amei o meu irmão, sofri junto com ele, e agora entrego o que tenho – pouco, é verdade, mas dado de boa vontade”. Doação de um coração repleto de alegria, através de uma decisão tranquila, que parte de um cristão que se coloca no lugar de seu irmão e lhe dá tudo quanto tem.

Portanto, quer se olhe pelo ângulo do doador, quer se olhe pelo lado do receptor, como entender essa “boa vontade”?

Creio que ela se resume adequadamente em uma só palavra: a contribuição precisa revestir-se de humildade.

Assim, a partir dos ensinamentos contidos nesta “síntese paulina”, podemos estabelecer algumas regras práticas que devem reger a atitude do cristão em face da contribuição:

a) a periodicidade e o percentual são da nossa livre decisão; acima de tudo vale o conselho do apóstolo Paulo: “aquilo que o teu coração separou”. Reparemos nas palavras de Paulo: o coração, não a razão!

b) Deve ser a expressão de nossa gratidão por uma vida realizada, por podermos viver do nosso trabalho, por vida doada.

c) Deve atender às necessidades do pobre, do desamparado e do necessitado.

d) Deve servir para sustentar os que servem, doando a sua vida ao próximo, à comunidade, e aos santos

e) Deve expressar a alegria de viver, e traduzir o expresso reconhecimento da soberania de Deus. Ao contribuir, devemos entender claramente que aquilo que ofertamos não passa do retorno do realizado, que só pode ser feito pela sua bondade e misericórdia.

f) Não é, de forma alguma, uma obrigação, mas precisa ser humilde e sacrificial.

Uma filosofia de vida

Em meio a esses ensinamentos sobre a contribuição, o apóstolo deixa escapar dois comentários bem ajustado ao contexto, que não se relacionam à contribuição em si mesma, mas que dizem respeito à questão mais geral da atitude do cristão com relação aos bens materiais.

O primeiro desses comentários propõe uma resposta para perguntas do seguinte tipo: “Até onde um crente deve enriquecer?” O apóstolo ensina: “Deus pode cumular-vos de toda espécie de graças, para que tenhais sempre e em tudo o necessário e vos fique algo de excedente para toda obra boa.”

Não há limite para a riqueza, desde que exista a capacidade de servir ao próximo com dedicação. Paulo não questiona que estilo de vida devemos levar (simples, abastado, discreto, etc.), mas insiste que devemos ganhar além daquilo que precisamos para sustentar esse estilo de vida e poder servir com liberalidade a quem necessita.

Podemos perfeitamente inferir das palavras do apóstolo que devemos reduzir o “necessário”, caso essa seja a única forma de fazer sobrar “o excedente para toda a boa obra”, o que estará em perfeito acordo com a ideia de serviço sacrificial por trás do conceito bíblico de contribuição.

Todavia, a convicção do apóstolo é a de que “Deus pode cumular-vos”, isto é, a sua misericórdia nos sustentará de tal forma que sempre teremos aquilo de que necessitamos

para servir a nós próprios e aos outros.

A citação que acompanha a instrução apostólica – sua justiça permanece para sempre” — foi extraída do Salmo 112, onde aparece duas vezes. A primeira, no verso 3, onde lemos: “Na sua casa há abundância e riqueza, sua justiça permanece para sempre.” A segunda, no verso 9: “Ele distribui aos indigentes com largueza; sua justiça permanece para sempre.” Todo o salmo é um elogio do homem reto e temente a Deus, de forma que é lícito concluir que se a “justiça permanece para sempre”, isto é, se a vida é vivida em uma única direção – a de Deus -, a abundância existirá para suprir as necessidades da própria casa, e também as necessidades dos outros que estão à nossa volta.

Claramente, o ensino apostólico é uma advertência contra a ganância, o acúmulo de riqueza sem objetivo ou finalidade outra que não a riqueza em si mesma. Os bens precisam estar revestidos de finalidade, e a única motivação que a Bíblia aprova é a de servir ao próximo sem restrições.

Em cada época e em cada lugar sempre teremos uma distribuição desigual de recursos e de bens, mesmo porque nem todos se entregam ao trabalho com a mesma intensidade e competência. Todavia, deve haver capacidade para dar, de tal forma que os extremos de injustiça e de sofrimento sejam evitados, e todos possam enfrentar a vida com igual tranquilidade, embora cada um continue no seu próprio nível e situação é inegável que podemos ver neste texto ecos do “dízimo do pobre” tal como estabelecido por

Deuteronômio, e uma “tradução” paulina dos ensinamentos proféticos acerca das “pessoas miseráveis” da sociedade.

8. Uma Doutrina Para Hoje

Introdução

Chegando à parte final de nosso estudo, devemos agora fazer uma aplicação das doutrinas bíblicas sobre a contribuição do Antigo e Novo Testamentos, que seja fiel ao ensino que já estudamos, e ao mesmo tempo viável e adequada à época em que vivemos.

São cinco sugestões apenas. As três primeiras estão voltadas para o cristão como indivíduo; a primeira delas pretende resgatar os simbolismos bíblicos contidos nas leis das primícias e dos Primogênitos, que são a base efetiva de qualquer sistema bíblico de contribuição: a segunda é um resumo da ótica correta que deve presidir o ato de contribuir; e a terceira é uma recomendação para que os crentes voltem a praticar o “dízimo do pobre”. As duas últimas são voltadas para a Igreja como um todo: a quarta é uma recomendação para que cada comunidade procure adotar uma estrutura tão “descartável” quanto possível, e finalmente a quinta apresenta a minha visão pessoal de como devem ser os obreiros em uma comunidade.

A leitura das páginas que se seguem vai deixar bem claro que as sugestões acima supõem uma crítica séria das formas estruturais da Igreja atual, no sentido de reduzir a “Igreja-instituição” e revitalizar a “Igreja-Corpo-de Cristo”, não apenas em um sentido místico, mas em um bem real e concreta sentido social e comunitário.

O resgate das primícias

Aqui temos a primeira coisa a ser feita: resgatar as Primícias, não como ritual solene e obrigatório, mas como parte de uma nova visão da vida. Não estamos querendo voltar a uma era dominada pelo sagrado, mas apenas declarar, em um ambiente plenamente secularizado, nossa convicção de que o sentido da vida não se mede apenas por aquilo que é aparente, pois em última análise, ela só tem significado e valor quando é vivida a partir de um pressuposto religioso. Um ato em que declaramos com total convicção que existe um Deus, que nos sustenta e torna possível o ato mesmo de viver.

Nas Primícias, resgatamos a base efetiva e verdadeira da vida – aquilo que não se vê! Mediante a celebração festiva declaramos que estamos de posse deste mundo que o Eterno nos entregou, que agradecemos a vida que nos foi concedida, e que reconhecemos que a sua misericórdia é, de fato, a razão d nosso viver

Como fazer isso? Creio que já há uma resposta, velha de alguns séculos, mas que conserva o frescor das coisas que não envelhecem jamais. Refiro-me ao Dia de Ação de Graça instituído pelos primeiros peregrinos ingleses que fizeram a América, e que na sua simplicidade original contém o essencial das ideias e dos valores das Primícias. Uma vez por ano, reunimo-nos em casa, à volta da mesa, como família, e damos graças a Deus por todas as bênçãos acrescentadas por mais um ano de atividades. Comemos, bebemos, oramos lemos a Palavra, e nos alegramos profundamente por estarmos vivos, trabalhando, construindo, louvando a Deus! Reflexo de uma cultura que então era de base puramente agrária, o Dia de Ação de Graças é comemorado ao final do outono, quando todas as colheitas já se encerraram (no Hemisfério Norte) e, portanto, já podemos saber o que temos como resultado de todo um ano de atividade produtiva.

Observado com esse propósito em mente, um Dia de Ação de Graças também satisfaz o conceito do “segundo dízimo” do Deuteronômio, e está em total acordo com o espírito daquela lei. Talvez, para melhor corresponder ao princípio bíblico, cada família deveria convidar as pessoas mais humildes de suas relações, sejam da sua igreja ou de sua vizinhança, e fazer com que elas participem não só da refeição solene, como do que no momento tivermos “como excedente para toda boa obra”.

Nada impede que, observada a primazia da família e da refeição solene no lar de cada um, que a própria Igreja, como grande família que de fato é, organize uma segunda reunião de ações de graças, em que não só renovaremos os louvores do culto doméstico, como também celebraremos aquilo que como comunidade conseguimos alcançar durante o ano que passou.

Esse dia de ação de graças deve ser preenchido com sinais claros e evidentes de que estamos agradecendo a Deus a bênção do trabalho, e todos os frutos que alcançamos em razão dele. Cabe ao chefe da família conduzir toda a comemoração de tal forma que a mesa, os pratos servidos, os textos e os cânticos sirvam de “sinais” que a todo instante recordem a vinculação que existe entre Deus, o nosso trabalho e os bens que desfrutamos.

É importante que essa celebração familiar tenha ressaltado esse aspecto memorial, pois a função primeira das Primícias é trazer à memória os fatos singulares do ano que passou, através dos quais identificamos melhor as bênçãos recebidas.

E nesse contexto, fatos como o nascimento de uma criança, o casamento de um filho, a compra de alguma propriedade, o início de uma nova carreira profissional, devem ser especialmente rememorados, comemorados e agradecidos ao Eterno Pai.

Da mesma forma, julgo que essa será uma excelente oportunidade para reunirmos a “família-grande”, isto é, além do casal e seus filhos (a família nuclear), também os avós, os tios, os primos e todos quantos as possibilidades permitirem. Esse tipo de reunião faz falta em nossa vida moderna, em que raramente saímos da estrutura reduzida da família nuclear e damos a nossos filhos a oportunidade de compartilhar com outras gerações, contribuindo assim para que a identidade familiar seja assegurada e transmitida de uma geração para outra.

A contribuição bíblica – A dimensão comunitária

Devemos esquecer por completo os aspectos formais ligados ao dízimo como base de doutrina para nossas contribuições especialmente aqueles aspectos a que temos nos referido com o “argumento levítico”, e guardar dele apenas os valores básicos que as Escrituras vincularam a essa instituição do povo de Israel. Assim, a nossa contribuição deve ser um reflexo de que entendemos o nosso trabalho como vida doada por Deus. Deve ser um ato excelente, exemplar, revestido de toda a dignidade, de todo o amor e de toda a dedicação.

Uma ação plena de alegria e paz. Uma demonstração de amor e misericórdia.

A esses valores devemos juntar os ensinamentos da “síntese paulina”, ou seja: a nossa contribuição deve ser revestida de uma espontaneidade total, além de representar uma ação sacrificial, repleta de alegria, cheia de boa vontade, que reflete muito mais a nossa humildade do que a nossa grandeza. E ao entregarmos a nossa contribuição à comunidade, queremos estar certos de que ela será empregada para assistir às “necessidades dos santos”, e em nada mais além disso.

Em suma, a motivação principal que estará por trás dessa contribuição é o amor a Deus e ao próximo. Portanto, podemos concordar plenamente com esta afirmação: “Qualquer outro apelo que não seja o amor, será um apelo errado. A mordomia cristã não é legalismo infrutífero, mas é a alegria de dar-se a si mesmo, com liberdade sacrificial.”

A partir de uma concepção dessas, cada um deverá separar aquilo que o seu próprio coração desejar separar para contribuir, e o fará de forma totalmente tranquila, sem constrangimentos ou pressões. A cada contribuição, a sua oferta será um reflexo do seu momento, do seu estado de espírito, da sua compreensão das necessidades de sua comunidade, da sua plena identificação com ela e com os seus propósitos de serviço cristão.

Longe de sua cabeça e de seu coração estarão preocupações quanto a percentuais, épocas ou dias, sobre que base de renda deverá contribuir, etc. O cristão não é constrangido

por regras legais, mas reconhece que só “a caridade de Cristo nos compele” (II Co 5:14a).

Da mesma forma, sentimentos de superioridade, de vantagem, etc., estarão ausentes de seu coração Entendida dessa forma, a contribuição cristã passa a ser efetivamente uma “graça”, no sentido evangélico de uma virtude divina, um favor recebido diretamente do Eterno Pai.

Ela não é uma “graça” no sentido de ser um meio de salvação, mas é efetivamente “graça” no sentido de ser veículo para um fortalecimento do caráter cristão e de contribuir para o pleno amadurecimento da nossa capacidade espiritual de compreender vicariamente as necessidades do nosso próximo.

A contribuição bíblica – A dimensão pessoal

Se queremos permanecer fiéis ao espírito bíblico nessa questão da contribuição, precisamos reconhecer que Deuteronômio estabelece dois níveis em que a questão deve ser tratada. Um nível é aquele que corresponde à comunidade, e por este nível compreendemos que as contribuições têm uma destinação que envolve objetivos que não são meramente pessoais, mas de toda uma coletividade. Assim, quando o dízimo é entregue ao levita ou ao sacerdote, sabemos que ele se destina a manutenção de uma estrutura clerical, de uma forma de culto, etc., de modo que a forma final em que a minha oferta será efetivamente consumida está fora da minha esfera de decisão pessoal.

Mas quando Deuteronômio diz que a cada três anos o dízimo deve ser deixado “em nossas portas”, é forçoso reconhecer que esse é um ato de contribuição isolado, em que apenas eu participo, e através do qual vou atender às necessidades específicas de pessoas carentes que estão vivendo na minha própria esfera de vida, e não da comunidade a que eu possa pertencer.

Por outro lado, se relermos as muitas citações apostólicas que ficaram nas páginas anteriores, veremos que a obrigação do amor fraternal e da caridade não se restringe à igreja como uma comunidade, mas é em primeiro lugar uma questão pessoal. Assim, teremos sempre de manter um certo equilíbrio entre essas duas visões distintas, porém, complementares: a ação do cristão como indivíduo e a ação do cristão como membro de uma comunidade.

Essas duas visões são necessárias e devem fazer parte constante de nossas vidas. E impossível conceber um cristão que não seja capaz de reagir de imediato perante as carências do seu próximo, mas que transfere toda a responsabilidade pela execução das ações necessárias para cima de sua comunidade. Essa é uma atitude extremamente significativa, pois ela aponta para uma pessoa insensível, que não se coloca no lugar do outro, mas que acalma a sua consciência cristã assumindo que tudo será feito de uma forma “institucionalizada”.

Essa atitude representa uma perigosa transferência de responsabilidades e deixa transparecer uma recusa em envolver-se com as pessoas de carne e osso, que sofrem e fazem sofrer, deixando que o relacionamento com elas seja feito apenas por intermédio dos órgãos competentes da comunidade. É uma fuga do humano e da dor, que em tudo se opõe aos princípios evangélicos.

A vida moderna, em especial nas grandes cidades, é cada vez mais impessoal, e os laços que nos ligam às outras pessoas são tênues e quase sempre meramente instrumentais.

Carecemos de genuínos relacionamentos humanos, e sofremos de uma aguda tendência para relegar ao Estado e à Igreja, ou a uma instituição qualquer, a responsabilidade de cuidar das mazelas sociais e das agruras dos outros.

Estamos acostumados, em especial no nosso país, a um Estado paternalista, que assume o nosso lugar, acalma nossas consciências, apesar de no íntimo todos sabermos que, na verdade, muito pouco do que precisa ser feito é realmente feito.

O que lemos nas Escrituras é uma constante exortação à participação responsável, de modo que o nosso trabalho e o nosso esforço sejam somados ao trabalho e ao esforço dos demais membros da comunidade, e assim os problemas comuns sejam solucionados pela atividade coordenada de toda a coletividade. Não há base bíblica para o isolamento e a não participação. Para nos estimular a servir, as Escrituras nos advertem que até mesmo as bênçãos de Deus são repartidas por igual entre todos os homens, o que nos motiva a agir da mesma forma, porque “deste modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5:45).

A estrutura eclesiástica

A Igreja deve repensar a sua estrutura e reduzi-la sempre que ela estiver inchada e abusivamente grande. Ela precisa despojar-se e ser capaz de servir da forma mais efetiva e simples possível, sem pompas ou aparatos. Creio com absoluta certeza que caminhamos para uma época em que cada vez mais necessitaremos de uma Igreja tão “descartável” quanto possível, uma Igreja efetivamente “pobre”, despida dos enfeites deste mundo, mas bem adornada com virtudes espirituais.

Os líderes precisam ser humildes e acatar com boa vontade aquilo que é a expressão genuína da vontade coletiva.

Quando dizemos que o cristianismo é um modo de vida, queremos expressar o fato de que as verdades evangélicas transformam a pessoa e fazem com que ela passe a encarar a sua própria vida de uma forma global, a partir de um único ponto de vista: o do amor de Deus.

Quando damos prioridade à visão da fé como forma de viver e alicerce de uma visão de mundo abrangente, privilegiamos o indivíduo. Ao contrário, quando olhamos a fé como veículo para formular um sistema confessional, privilegiamos a Igreja como instituição religiosa e, de uma forma quase subliminar, valorizamos tudo quanto está vinculado a uma estrutura religiosa: a hierarquia, a ideia do clero, as regras, as formas litúrgicas, etc.

A Igreja Primitiva e a Igreja Antiga foram Igrejas muito mais voltadas para compreender a fé como forma de vida, mesmo nas épocas difíceis em que precisaram combater heresias e ataques à pureza da doutrina. Mas, a partir da fatídica “opção por Constantino”, a Igreja voltou-se cada vez mais para a formulação de um consistente e rígido sistema confessional, a ponto de se transformar na Igreja Medieval, que era uma estrutura sólida, dogmática, férrea, quase cega para as realidades da vida neste mundo, além de surda aos gemidos do Espírito.

Não tenho dúvidas de que vivemos um tempo de mudanças, de modo que chegou a hora de repensar a igreja local e buscar um modelo de comunidade que seja capaz de responder aos desafios do terceiro milênio. Por isso, antes de pedirmos contribuições aos membros de nossas igrejas, as necessidades financeiras de cada comunidade devem ser cuidadosa e democraticamente avaliadas, e o seu montante decidido através de verdadeiros mecanismos de consenso.

Todo o esforço deve ser feito para que essas listas de necessidades sejam expurgadas de todo o supérfluo, e reflitam assim a justa medida das verdadeiras demandas de uma comunidade sadia e atenta às reais necessidades dos santos.

Ninguém deve se sentir sobrecarregado, ou explorado, ou intimidado. Tudo deve ser feito de forma transparente e repleta de amor.

Os obreiros

Creio que os obreiros precisam de uma formação muito mais ampla, que não se deve limitar apenas ao preparo ministerial tradicional oferecido por um seminário. É preciso juntar a esse preparo mais duas coisas.

Em primeiro lugar, uma adequada visão do mundo moderno, das forças estruturais que nele operam, dos conflitos que estão em curso, além de uma correta compreensão da dinâmica própria da tecnologia. Em outras palavras, o obreiro deve possuir aquilo que usualmente chamamos de “formação secular”. Em segundo lugar, o obreiro precisa ter real experiência de vida e de Deus, antes de assumir qualquer responsabilidade ministerial.

Ora, possuir essa soma de qualificações e conservá-las em permanente estado de atualização não é tarefa simples. Ela pode ser exercida de forma bem mais fácil e produtiva, se o obreiro estiver sempre vinculado às duas realidades que deve estar apto a compreender: a fé, de um lado, e a sociedade do outro. Em outras palavras, ele será um melhor obreiro se desempenhar uma dupla função: a de trabalhar secularmente e também dentro da igreja.

Não é difícil perceber que a visão que tenho a respeito dos obreiros é que devemos, a cada dia, caminhar na direção do serviço voluntário, sacrificial, não remunerado, feito com dedicação, com amor, com persistência. Contemplo comunidades com dezenas de obreiros repartindo entre si as responsabilidades de ministrar às necessidades dos irmãos, cada um segundo o seu dom particular e a sua visão da fé, todos juntos pelo amor do evangelho e do Eterno Pai.

Isso não quer dizer que seja proibido a uma comunidade ter obreiros que ela sustente de forma integral, ou que missionários sejam enviados a lugares distantes de suas casas sustentados por suas igrejas, ou que obreiros que se dedicam à coordenação de muitas comunidades conservem o status atual.

A personalidade cristã

Para encerrar este capítulo, devemos considerar mais um aspecto da contribuição, que reputo de capital importância.

Existem inúmeras ligações entre a capacidade de dar e a estrutura de caráter de uma pessoa, de modo que precisamos verificar as implicações da contribuição bíblica sobre o desenvolvimento da personalidade de um cristão.

Sabemos que o “fruto do Espírito” é uma personalidade madura, bem estruturada, firme e segura, cujos traços de caráter mais marcantes o apóstolo Paulo indica na carta aos Gálatas: “amor, alegria, paz, longanimidade bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (5:22-23). Um caráter como esse não se constrói com um passe de mágica, mas ao contrário, à medida em que, com base na segura experiência de um genuíno encontro com Cristo, a pessoa vai pacientemente se abrindo à obra do Espírito Santo de Deus e constrói em parceria com ele o seu novo caráter. É o trabalho de toda uma vida.

A marca essencial desse caráter em constante sintonia com Eterno é ser produtivo, é transbordar de força e capacidade criadora. Ele se renova a cada dia, sabendo que a energia que o anima resulta do amor de Deus que está dentro dele.

É, portanto, um caráter essencialmente afirmativo, que não receia confrontos ou desafios, mas que se abre na aventura da vida guiada pela fé. Por necessidade, é um caráter que se volta para o mundo e o próximo, e que busca mais servir do que ser servido.

Assim, o cristão maduro não receia ficar empobrecido pelo ato de dar, mas, sim, é capaz de perceber que a essência dessa prática resume a própria razão de sua vida: ele sabe que existe para servir! As palavras de Jesus registradas por Paulo em Atos 20:35b são uma realidade constante na sua vida: “Há mais felicidade em dar que em receber”.

Por isso, é essencial o equilíbrio no ensino da doutrina da contribuição, e muito mais do que isso, é absolutamente indispensável que a comunidade mantenha um ambiente sadio, de absoluta transparência e dignidade, de tal sorte que cada irmão se beneficie dele e possa contribuir sem guardar ressentimentos ou fazer reservas mentais a respeito da contribuição.

Não custa lembrar que o nosso maior inimigo somos nós mesmos, porque sempre colocamos o nosso bem-estar e a nossa comodidade acima de todas as coisas e elegemos o nosso próprio umbigo como sendo digno de muito mais respeito e consideração do que os demais umbigos à nossa volta. A coisa mais difícil é vencer o egoísmo, o voltar-se para dentro, e aprender a virtude evangélica por excelência que é a doação irrestrita de nós mesmos em amor.

9. Conclusão

Quais são as bênçãos que alcançamos mediante o ato de contribuir para a igreja a que estamos vinculados? Creio que podemos distinguir diferentes tipos de bênçãos, mas todas elas podem ser agrupadas em três grandes categorias: as “bênçãos visíveis”, as “bênçãos invisíveis” e a “bênção especial”.

Cada cristão precisa ter essa consciência clara e cristalina de que uma boa parte do que ele é não resulta de seu querer, mas é fruto do trabalho diário e invisível de sua comunidade espiritual! De sua igreja local.

Na medida em que ser cristão não é uma contingência na vida de alguém (“… nasci em uma família cristã …”), mas resulta de um ato consciente de aceitação da oferta de salvação, essa construção de uma identidade espiritual e cultural dentro de uma moldura evangélica é tão vital quanto o ar que respiramos.

Portanto, a existência de uma igreja, mesmo com toda a carga de despesas que isso implica, é uma bênção extraordinária, que deve ser entendida claramente como tal, e assumida com alegria por meio da contribuição generosa. Para muitos de nós que temos famílias com filhos, essa comunidade é uma âncora poderosa na estruturação da personalidade dos filhos e um instrumento eficaz para dotá-los das únicas e melhores armas com as quais poderão mais tarde enfrentar a maré das drogas, da devassidão sexual, da revolta gratuita e da violência de nossas cidades.

Depois dessa primeira “bênção visível”, cresce aos nossos olhos a realidade da segunda bênção: a missão da igreja é servir, e na medida em que ela se entrega de fato a cumprir a sua razão de ser, ela anuncia as boas novas do evangelho assiste os deserdados da sociedade, consola os fracos e oprimidos e dá esperança a quem não tem mais razões para tê-la. Essa ação, em seus aspectos puramente materiais, é viabilizada mediante as ofertas de todos os membros da comunidade, de modo que temos centenas de razões óbvias à nossa frente que justificam a nossa contribuição.

Existe uma terceira “bênção visível”, mas que, contudo, é invisível aos olhos de quem está dentro da comunidade!

Precisamos deixar consignada de uma forma indelével e permanente o fato da nossa existência, para que todos saibam que ainda existem pessoas cuja razão de vida não é o prazer imediato e irrestrito, não é o consumo sem limites, não é o poder nem o status, nem a alienação da razão, do amor e da fé.

Há uma sensível diferença entre os dois tipos possíveis de testemunho público: o individual e o testemunho “corporativo” O individual marcará e influenciará um número limitado de pessoas que estão em contato direto com cada um de nós como indivíduos, ao passo que o testemunho corporativo influenciará o rumo das estruturas sociais, fixará marcos de referência para os valores e as regras de convivência, além de obrigar a sociedade como um todo a dizer o que pensa a nosso respeito. Essas coisas são importantes demais para serem desprezadas.

Devemos observar que o caráter virtuoso do cristão não é uma joia rara para ser admirada, ou para envaidecer o seu possuidor. Ao contrário, como tudo o mais na vida cristã, é um meio efetivo para servir melhor ao próximo. Notemos as palavras do apóstolo:” para pratica toda

a espécie de obras de generosidade”, e não para uma demonstração infantil de superioridade pessoal. O caráter virtuoso, assim como os carismas, não é concedido ao cristão para servir apenas de deleite pessoal ou para contemplação por seus semelhantes, mas como equipamento essencial para o desempenho da grande tarefa de sua vida: servir!

Para encerrar, vejamos o que vem a ser a “bênção especial”. Ela é uma bênção coletiva, que atinge a igreja como um todo, e que resulta do fato ao mesmo tempo simples e fantástico, resumido na frase talmúdica citada ao final da pequena história atribuída ao Rabi Dov Baer (veja à página 116): “Maior do que o primeiro milagre é o último.” De fato, se a igreja se deixar permear por essa postura correta a respeito da contribuição, ela será não só capaz de superar os efeitos perniciosos de séculos de extravio no terreno material, como também recuperar a verdadeira ótica evangélica e apostólica nesta questão. Seremos capazes de reconstruir a vida interna da comunidade, além de recuperar as relações entre irmãos e obreiros, repondo tudo nos eixos criteriosamente estabelecidos pelas Escrituras.